A bela e a Fera



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Encontro27.12.2020
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Apenas uma vez, Bela pensou enquanto acariciava o nariz da mula de Jean e
acenava para se despedir do oleiro, eu gostaria de conhecer alguém que quisesse
ouvir  a  história  de  Romeu  e  Julieta.  Ou  qualquer  história,  na  verdade.  Ela
começou a andar mais depressa, mais ansiosa do que nunca para encontrar père
Robert, pegar um novo livro e voltar para casa. Pelo menos no seu próprio chalé
ninguém  a  incomodaria  ou  julgaria.  Ela  poderia  se  perder  nas  histórias  e
imaginar o mundo além daquela aldeia provinciana.
Absorta  em  pensamentos  sobre  os  deleites  literários  que  a  esperavam,  Bela
sequer  notava  a  atenção  que  estava  atraindo.  Nem  se  importava  com  os
comentários  que  sua  presença  provocava,  que  mal  eram  disfarçados.  Ela  já
ouvira tudo isso antes. Não era a primeira vez que passava em frente à escola e
ouvia  os  meninos  a  chamarem  de  estranha.  As  lavadeiras,  com  suas  mãos
enrugadas e cobertas de espuma, também adoravam cochichar entre si toda vez


que viam Bela.
“Garota engraçada”, diziam elas. “Ela não se encaixa” era outra frase favorita.
Para as fofoqueiras, essa era a pior ofensa de todas. Nunca lhes ocorreu que Bela
havia escolhido não fazer parte da multidão.
Finalmente,  Bela  chegou  ao  seu  destino:  a  sacristia  da  igreja.  Ela  abriu  as
portas e soltou um suspiro de alívio quando o silêncio e a serenidade do local a
envolveram.  O  burburinho  e  os  ruídos  do  lado  de  fora  desapareceram,  e  pela
primeira  vez  naquela  manhã,  a  jovem  se  sentiu  em  paz.  Ouvindo-a  entrar,  um
homem  gentil  em  um  manto  preto  longo  olhou  por  cima  do  livro  que  estava
lendo.  Ele  era  alto  e  esguio,  com  olhos  acolhedores  que  enrugaram  a  pele  ao
redor quando sorriu para Bela.
— Bom dia, Bela — père Robert a cumprimentou. — Então, para onde você
fugiu esta semana?
Bela  sorriu.  O  padre  era  um  homem  lido  e  uma  das  duas  pessoas  em  toda  a
aldeia com quem Bela sentia que podia conversar. A outra pessoa era seu pai.
—  Duas  cidades  ao  norte  da  Itália  —  respondeu  ela,  com  o  tom  de  voz
animado.  Ela  estendeu  o  livro,  como  se  mostrá-lo  a  père  Robert  ajudasse  a
história  a  ganhar  vida  de  alguma  forma.  —  Você  deveria  estar  lá  também.  Os
castelos. A arte. Teve inclusive um baile de máscaras.
Alcançando-a, père Robert pegou o livro com cuidado das mãos de Bela. Ele
assentiu quando ela continuou a lhe contar a história de Romeu e Julieta como se
ele  nunca  a  tivesse  ouvido  antes,  mesmo  que  ambos  soubessem  que  ele  havia
lido  a  narrativa  mais  de  dez  vezes.  Era  apenas  parte  do  ritual  deles.  Quando
terminou, Bela respirou fundo, satisfeita.
— Você tem outros lugares para eu visitar? — perguntou ela, esperançosa. Ela
se virou e seus olhos se demoraram na biblioteca da cidade.
Chamar de biblioteca era um exagero, para dizer o mínimo. Algumas poucas
dezenas  de  livros  se  alinhavam  em  duas  pequenas  estantes  empoeiradas.
Analisando  as  prateleiras,  Bela  viu  as  mesmas  lombadas  desgastadas  e  títulos
apagados. Era raro que qualquer coisa fosse acrescentada ao inventário.
—  Receio  que  não  —  respondeu  ele.  Apesar  de  ter  previsto  a  situação,  os
olhos  de  Bela  revelaram  a  decepção  que  ela  sentiu.  —  Mas  você  pode  reler
algum dos antigos de que gosta — completou ele gentilmente.
Bela  concordou  com  a  cabeça  e  foi  até  a  estante.  Seus  dedos  varreram  os
livros familiares, cuja maior parte ela já havia lido pelo menos duas vezes. Ainda
assim,  jamais  reclamaria.  Escolhendo  um,  ela  sorriu  de  volta  para  o  velho
homem.


—  Obrigada  —  disse  suavemente.  —  Sua  biblioteca  faz  este  cantinho  do
mundo parecer maior.
Com  o  livro  em  mãos,  Bela  deixou  a  sacristia  e  voltou  à  rua  principal  da
aldeia. Abrindo na primeira página, ela enfiou o nariz no livro e bloqueou tudo
ao  seu  redor.  Ela  desviou  do  vendedor  de  queijos  que  carregava  uma  travessa
cheia  deles  e  se  precipitou  para  fora  do  caminho  de  duas  floristas,  com  seus
braços carregados de buquês gigantescos. Tudo sem perder o ponto de leitura na
página.
Embora  estivesse  desapontada  por  não  ter  encontrado  nada  novo,  esse  livro
era mesmo um de seus favoritos. Tinha tudo o que uma boa história deveria ter:
lugares  distantes,  um  príncipe  charmoso,  uma  heroína  forte  que  descobria  o
amor… mas não de imediato, é claro.
CLANG! CLANG!
Alarmada pelo barulho alto, Bela enfim se desprendeu do livro. Olhando para
a frente, viu que o ruído vinha de Ágata. Se Bela era estranha para o povoado, a
mulher  idosa  era  uma  marginal.  Ela  não  tinha  casa  nem  família  e  passava  seus
dias  pedindo  trocados  e  comida.  Vendo  além  da  sujeira  que  cobria  suas
bochechas e os trapos que vestia, Bela sempre teve apreço por Ágata. Ela sentia
que a senhora merecia tanta atenção e respeito quanto qualquer um e odiava ver
outros  aldeões  ignorando-a  ou,  pior,  zombando  dela.  Sempre  que  a  via,  Bela
tentava ajudar com alguma coisinha.
 Bom  dia,  Ágata  —  disse  Bela,  sorrindo  gentilmente.  —  Eu  não  tenho
dinheiro.  Mas  aqui  está…  —  Ela  pegou  sua  bolsa,  tirou  a  baguete  que  havia
escolhido especialmente para a mulher e a entregou.
Ágata sorriu em gratidão. Então seu sorriso se tornou brincalhão.
— Não tem geleia?
Antecipando o pedido, Bela já estava com a mão no bolso e mostrou o pote de
geleia.
—  Abençoada  seja  —  disse  Ágata.  Abaixando  a  cabeça,  ela  arrancou  um
pedaço da baguete, esquecendo-se instantaneamente da presença da jovem.
Bela sorriu. De alguma forma esquisita, ela sentia um vínculo com a mulher.
Ágata queria simplesmente comer sua comida e ser deixada em paz. Bela agia da
mesma forma com seus livros. Por mais solitária que ela pudesse se sentir de vez
em quando, não suportava atenção indesejada — detestava, na verdade.





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