A bela e a Fera



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Encontro27.12.2020
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PRÓLOGO
O  príncipe  franziu  a  testa.  Encarou  um  par  de  grandes  portas  douradas  que
estavam fechadas. Do outro lado, ele podia escutar música e risadas. A festa, sua
festa, já havia começado. O cristal tilintava conforme os convidados brindavam
a noite e vagueavam pelo salão decorado, decerto impressionados cada vez que
seus  olhares  se  detinham  sobre  as  centenas  de  objetos  de  valor  inestimável
alinhados pelas paredes. Belos vasos, quadros detalhados de lugares longínquos,
ricas tapeçarias e pratos de ouro maciço eram apenas alguns dos muitos itens. E
tudo isso se ofuscava em comparação à beleza dos próprios convidados. Afinal,
o  príncipe  não  convidava  qualquer  um  para  suas  festas.  Ele  recebia  apenas
aqueles  que  julgava  belos  o  suficiente  para  estarem  em  sua  presença.  Assim,
vinham pessoas de todas as partes do mundo, cada uma tão digna de exposição
quanto os objetos decorativos do salão.
Parado  diante  das  portas,  o  príncipe  mal  notou  a  aproximação  dos  servos
apressados, que, nervosos, davam os toques finais em sua fantasia. O mordomo
também estava por perto, com o relógio de bolso nas mãos. Era um homem mais
velho  e  conservador,  que  detestava  a  completa  falta  de  respeito  do  rapaz  pelos
horários. O príncipe, por sua vez, tinha grande prazer em desperdiçar o tempo do
mordomo.  Uma  criada  parou  ao  lado  do  príncipe,  com  um  pincel  de  penas  nas
mãos.  Com  cuidado,  ela  pintou  uma  linha  branca  no  rosto  do  jovem.  A  tinta
deslizou  facilmente  sobre  a  pele  macia  e  impecável.  A  criada  então  recolheu  a
mão e inclinou a cabeça para o lado enquanto analisava seu trabalho.
A  pintura  da  máscara  havia  exigido  horas,  e  aparentava  isso  mesmo.  Estava
extraordinária. O rosto do príncipe foi transformado pelo véu suave da pintura.
Nenhum  detalhe  foi  deixado  de  lado,  graças  aos  traçados  sutis  da  plumagem
dourada,  aos  destaques  azuis  ao  redor  dos  olhos  e  ao  toque  ruge  que  realçava
suas  já  marcantes  maçãs  do  rosto.  Alinhando-se  às  últimas  tendências,  duas


pintas  foram  perfeitamente  posicionadas:  uma  abaixo  do  olho  direito  e  a  outra
acima  de  seus  lábios  carmesim.  Por  baixo  da  máscara  de  maquiagem,  os  olhos
azuis do príncipe brilhavam com frieza.
A criada deu um passo para trás e esperou enquanto o pajem principal ajeitava
nos  ombros  do  príncipe  um  longo  manto  cravado  de  joias,  inspecionando  tudo
para garantir que nenhuma coisa estivesse fora do lugar. Satisfeito, ele assentiu
para  a  criada,  que  então  cobriu  a  peruca  do  príncipe  com  pó.  Então  os  dois  se
inclinaram  em  reverência  e  seguraram  a  respiração,  aguardando  a  ação  do
príncipe.
Erguendo  a  mão  enluvada,  ele  fez  um  breve  aceno  com  desdém.
Imediatamente, um lacaio apareceu.
— Mais luz — ordenou o príncipe.
— Sim, vossa alteza — disse o lacaio, virando-se para alcançar um candelabro
próximo. Ele ergueu o objeto para iluminar o rosto do nobre.
O  príncipe  segurava  um  pequeno  espelho.  Era  prateado,  com  uma  haste
delicada  e  floreios  ornamentais  na  parte  de  trás.  Em  suas  grandes  mãos,  o
espelho parecia minúsculo e incrivelmente frágil. Segurando-o no alto para que
pudesse  se  ver,  o  príncipe  admirou  o  próprio  rosto.  Ele  virou  para  a  esquerda,
depois para a direita, então para a esquerda de novo e voltou a olhar diretamente
para  seu  reflexo.  Ele  assentiu  com  a  cabeça  uma  vez,  depois  largou  o  espelho
como se fosse um trapo qualquer.
A  criada,  que  quase  desmaiara  de  alívio  diante  da  aprovação  do  príncipe,
engasgou  ao  ver  o  espelho  em  queda.  Ignorando  totalmente  o  ruído,  o  príncipe
ordenou que o mordomo abrisse as portas para o salão. Enquanto ele entrava, o
lacaio se lançou para a frente e conseguiu apanhar o espelho um segundo antes
que atingisse o chão. Os servos deixaram escapar um suspiro coletivo quando as
portas  se  fecharam  atrás  do  príncipe.  Pelas  horas  seguintes,  eles  poderiam
relaxar fora do alcance de seu amo cruel, mimado e grosseiro.
Alheio  à  opinião  de  seus  criados,  ou  talvez  ciente,  mas  nem  um  pouco
preocupado, o príncipe abriu caminho pelo salão. Era um mar de trajes brancos
— uma exigência especificada no convite. Muitos dos convidados eram difíceis
de  se  distinguir,  exceto  por  suas  máscaras.  O  resultado  era  encantador.  No
entanto,  a  expressão  do  príncipe  permanecia  sisuda,  e  sua  solenidade  não
indicava  nenhum  prazer  em  ver  tamanha  beleza  em  seu  castelo.  Ele  nunca
permitia  que  os  outros  percebessem  se  estava  contente  ou  aborrecido.  Isso  lhe
conferia um senso de mistério que ele apreciava bastante. Conforme caminhava,
ele  ouvia  os  cochichos  das  jovens  mulheres,  perguntando-se  animadas  se  essa


seria  a  noite  em  que  ele  tiraria  uma  delas  para  dançar.  Um  sorriso  presunçoso
começou a se formar em seus lábios, mas ele o reprimiu e seguiu em frente.
Abrindo  caminho  através  de  um  círculo  de  donzelas  elegíveis  e  seus
acompanhantes,  o  príncipe  chegou  ao  seu  trono.  O  assento  se  erguia  num
patamar acima do salão, concedendo-lhe uma visão privilegiada de toda a festa.
Como  tudo  ali,  o  trono  tinha  um  estilo  requintado.  Um  majestoso  brasão
dominava o assento, deixando bem claro a quem pertencia, caso ainda restassem
dúvidas. Parado ao lado de seu posto, o príncipe se virou e olhou para o salão,
observando  um  homem  pequeno  e  animado  sentado  diante  de  um  cravo
imponente, do outro lado da sala. Ele fixou o olhar no convidado, que lhe sorriu
gentilmente,  exibindo  dentes  que  não  estavam  nos  seus  melhores  dias.  O
príncipe  fez  uma  careta,  mas  acenou  de  volta.  Aquele  era,  afinal,  o  principal
maestro da Itália. Ele e sua esposa, a elegante diva lírica que estava ao lado do
músico,  eram  conhecidos  no  mundo  todo.  Eram  simplesmente  os  melhores  e,
portanto, o príncipe precisava tê-los em seu baile.
Com  o  aceno  do  príncipe,  o  maestro  tocou  as  primeiras  notas  e  sua  esposa
começou  a  cantar,  ecoando  a  voz  por  todo  o  salão.  O  príncipe  avançou  para  a
pista  e  começou  a  dançar.  Seus  movimentos  eram  suaves  e  ensaiados,
aprimorados  por  anos  de  treino.  À  sua  volta,  moças  se  moviam  no  sentido
contrário, dançando de forma igualmente treinada e graciosa. De alguma forma,
porém,  elas  ficavam  ofuscadas  diante  dele.  A  presença  do  príncipe  era  mais
grandiosa que o próprio salão, sua aparência era a mais bela e sua frieza era mais
congelante que o vento e a chuva que uivavam lá fora.
A voz da diva havia acabado de subir para uma nota quase estridente quando o
príncipe  reconheceu  o  inconfundível  ruído  de  batidas  na  porta  que  levava  aos
jardins, um barulho que se sobrepôs à música e ao vento. Ele ergueu a mão e o
espetáculo parou de repente.
As batidas soaram mais uma vez. Por um instante, ninguém se moveu. Então
todas as janelas se abriram em um sopro violento, seguidas pela porta. A chuva
invadiu  o  salão  e  um  vento  poderoso  fez  as  velas  das  arandelas  ao  longo  das
paredes piscarem e se apagarem. O salão mergulhou na escuridão, e o príncipe
ouviu  seus  convidados  murmurarem  apreensivos.  Sob  a  luz  remanescente  dos
candelabros das mesas, o príncipe sentiu um misto de raiva e curiosidade ao ver
uma figura de capuz entrar pela porta escancarada. O estranho andava curvado,
apoiando-se com a mão trêmula em uma bengala nodosa. O visitante se afastou
do frio para se refugiar na calidez do salão. Quando a porta se fechou, a figura
misteriosa suspirou alto, claramente satisfeita por estar em um lugar onde ele —


ou ela — parecia imaginar que seria acolhido e estaria a salvo.
O pensamento não poderia ser mais equivocado.
Após se livrar do choque inicial, o príncipe sentiu a raiva subir-lhe o sangue.
Agarrando  um  candelabro  de  uma  mesa  próxima,  ele  disparou  pela  multidão,
empurrando  pessoas  para  fora  de  seu  caminho.  No  momento  em  que  chegou  à
porta, seu rosto estava vermelho, apesar das camadas de tinta facial. Ele viu que
o  visitante  indesejado  era  uma  velha  senhora  pedinte.  O  príncipe  se  erguia  por
sobre aquela figura curvada.
— O que significa isso? — reclamou ele em um rosnado.
A  velha  mulher  ergueu  o  rosto  com  um  olhar  esperançoso.  Segurando  uma
única rosa-vermelha, ela sussurrou com esforço:
— Estou procurando abrigo da tempestade. — Como se por um sinal, o vento
se intensificou a um nível extremo, uivando como uma besta raivosa.
O príncipe não se moveu.
Ele  não  se  importava  se  a  mulher  estava  molhada  e  com  frio,  afinal,  ela  não
passava  de  uma  mendiga  velha  e  abatida.  E,  o  que  era  ainda  pior,  estava
arruinando  seu  baile.  Outra  onda  de  raiva  fulminante  o  atingiu  quando  ele
constatou  a  feiura  em  meio  a  toda  aquela  beleza  que  havia  criado  com  tanto
cuidado e esmero.
— Saia daqui! — Ele gesticulou, ordenando que ela se retirasse. — Saia daqui
agora.  Você  não  pertence  a  este  lugar  —  disse  ele  enquanto  apontava  para  os
convidados elegantemente vestidos.
—  Por  favor  —  implorou  a  velha.  —  Estou  pedindo  abrigo  apenas  por  uma
noite. Sequer ficarei no salão.
A careta do príncipe piorou.
— Você não entende, sua velha? Este é um lugar para a beleza. — A voz dele
era  fria.  —  Você  é  feia  demais  para  o  meu  castelo.  Para  o  meu  mundo.  Para
mim.
A mulher pareceu se encolher conforme as palavras do príncipe a golpearam,
mas  ele  não  demonstrou  nenhum  remorso.  Sinalizando  para  o  mordomo  e  o
lacaio principal, ele ordenou que a mulher fosse escoltada para fora.
— Você não deveria se enganar pelas aparências — alertou a mulher enquanto
os servos se aproximavam. — A beleza se encontra dentro de…
O príncipe jogou a cabeça para trás e deu uma risada cruel.
— Diga o que quiser, bruxa, mas todos nós sabemos o que é belo. E você não
é. Agora vá!
Dando-lhe as costas, o príncipe começou a se retirar. Mas um engasgo de seus


convidados  o  fez  parar.  Quando  ele  se  virou  novamente,  seus  olhos  se
arregalaram.  Algo  estava  acontecendo  com  a  velha.  A  capa  surrada  e  o  capuz
pareceram envolvê-la em uma espécie de casulo até ela quase desaparecer. Então
um raio de luz irrompeu dela, cegando-o.
Quando  ele  recuperou  a  visão,  a  velha  pedinte  havia  sumido.  Em  seu  lugar,
estava a mais bela mulher que o príncipe já tinha visto. Ela flutuava, irradiando
uma  luz  dourada  deslumbrante,  similar  à  do  próprio  sol.  Imediatamente,  o
príncipe  soube  o  que  ela  era,  pois  já  havia  lido  sobre  o  assunto.  Ela  era  uma
feiticeira: uma maga que o submetera a um teste.
E ele havia falhado.
O príncipe caiu de joelhos e ergueu as mãos unidas pelas palmas.
— Por favor — disse ele. Era sua vez de implorar. — Sinto muito, feiticeira.
Você é bem-vinda em meu castelo pelo tempo que desejar.
A feiticeira balançou a cabeça. Ela havia visto o suficiente para saber que se
tratava de um arrependimento falso. O príncipe não tinha bondade ou amor em
seu  coração.  Sem  titubear,  a  maldição  passou  dela  para  se  arrastar  sobre  o
príncipe.
A  transformação  começou  naquele  instante.  O  corpo  do  príncipe  era
devastado  pela  dor.  Suas  costas  se  arquearam,  e  ele  gemeu  quando  o  corpo
começou  a  crescer.  Suas  joias  arrebentaram.  Suas  roupas  rasgaram.  Os
convidados do baile gritaram diante da visão de seu anfitrião e saíram correndo.
O príncipe se ergueu, tentando agarrar a mão de um homem que estava próximo,
mas, para seu horror, descobriu que sua própria mão parecia a de um monstro. O
homem saltou para longe e escapou, juntando-se aos outros.
Em meio ao caos, a feiticeira assistia tranquila à sua punição fazendo efeito. O
salão  logo  ficou  vazio,  exceto  pela  criadagem,  pelos  artistas  e  por  um  cão
solitário  que  pertencia  à  diva.  Eles  observavam  chocados  a  transformação  do
príncipe  se  completar.  Onde  antes  se  erguia  um  belo  homem,  agora  se
acovardava  uma  fera  horrível.  Mas  ele  não  foi  o  único  a  se  transformar.  O
restante do castelo e seus habitantes também não pareciam mais os mesmos. Eles
também haviam mudado…
Os dias viraram anos, e o príncipe e seus servos foram esquecidos pelo mundo
até  que,  enfim,  o  castelo  encantado  foi  isolado  e  trancafiado  em  um  inverno
perpétuo.  A  feiticeira  apagou  a  memória  da  existência  daquele  lugar  e  dos  que
viviam nele, até mesmo das mentes das pessoas que os amavam.
Mas  restava  uma  última  esperança:  a  rosa  que  ela  oferecera  ao  príncipe  era


encantada. Se o príncipe aprendesse a amar alguém e conquistasse o amor dessa
pessoa, quando a última pétala caísse, a maldição seria quebrada. Caso contrário,
ele estaria condenado a permanecer no corpo de uma fera para sempre.





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