A arte do encontro



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Encontro18.03.2020
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A arte do encontro

A vida é cheia de surpresas, não é mesmo? Algumas felizes, outras nem tanto, mas é esse inusitado que quebra a monotonia do cotidiano e nos faz sentir a nossa própria pulsação. E o mais interessante ainda, é quando percebemos que estamos pulsando junto com outras pessoas, no mesmo ritmo, na mesma frequência. O que é, simplesmente, maravilhoso! Com quase 30 anos de carreira, ganhei mais um presente da vida. Um encontro não programado com duas meninas que já passaram dos 70, mas com a vitalidade adolescente de quem ainda se apaixona. Uma é romântica, poetisa, compositora; a outra, aventureira, destemida, viajante; mas ambas com a mesma paixão pela vida. Paixão que contagia a todos que têm o privilégio de conviver com elas. E eu sou uma dessas pessoas privilegiadas. Em fevereiro de 2018, quando assumi a coordenação da Rádio Uerj, encarei um novo desafio profissional. Afinal, depois de tantos anos trabalhando com comunicação, tanto no serviço público como na iniciativa privada, nunca havia desenvolvido um projeto em rádio. A insegurança natural de quem enfrenta o desconhecido cedeu lugar para a euforia da aventura de desvendar um novo mundo: haja adrenalina! Mas, comecei cautelosamente. Ouvi os programas que estavam no ar e identifiquei como contribuir com eles. No entanto, um deles, particularmente, me despertou mais atenção – O Idoso em Foco. Um programa apresentado por pessoas mais velhas, que não eram profissionais de comunicação, trabalhando voluntariamente, voltado também para um público na mesma faixa etária. Achei a proposta muito interessante e, assim como fiz com os outros programas, revi sua linha editorial, buscando dar mais espaço ainda ao idoso contar sua história, suas conquistas e seus desafios. Coloquei tudo no papel, mas, até então, ainda não havia conhecido as minhas “âncoras”: Diva e Rosa. Como marinheiro de primeira viagem, tinha certo receio de entrar naquele mar – eu, nova na equipe, sem experiência em rádio, chegando e já propondo mudanças? Poderia soar pretensioso, arrogante. A Rádio Uerj, assim como toda a universidade, havia passado por um período muito difícil e tempestuoso. Depois de um longo período de escassez de recursos, salários atrasados, greves e muitas incertezas, o que promoveu uma descontinuidade na programação, começávamos a retomar nossas atividades e esse era o momento ideal para ajustar a rota e voltar a tocar o barco. Resolvi, então, arriscar. Ainda estava tomando pé da rotina e repensando os programas, quando recebo um telefonema. Do outro lado da linha, uma voz já conhecida por mim (afinal, já havia ouvido o programa). Era Diva, se apresentando e perguntando quando retornariam as gravações. Sua voz doce e fraternal deu o empurrão que faltava para colocar o barco no mar. Marcamos um encontro na rádio para nos conhecermos pessoalmente e combinarmos a retomada do trabalho. Ela se encarregou de avisar a sua companheira de estúdio e, no dia e hora marcados, lá estavam elas. Não sei bem como descrever esse encontro, acho que ainda não inventamos as palavras certas para traduzir determinadas emoções, mas posso dizer que foi um caso de “amor à primeira vista”. Desde o primeiro dia, nossa relação tem sido assim, envolta por muito afeto, muito carinho e respeito mútuo. Discutimos as pautas, trocamos ideias, nos emocionamos com as histórias de cada entrevistado, rimos e nos divertimos muito. A possível resistência à mudança logo se transformou em resistência às dificuldades do cotidiano que nos são impostas e em estímulo à superação. Esse estímulo vem servindo para mim não só profissionalmente, mas também em âmbito pessoal. Meu encontro com essas duas mulheres sensíveis e maduras, aconteceu justamente quando eu começava a repensar a minha história. Já nos 50, no climatério, surgiam algumas reflexões, como: “já vivi muito mais do que falta viver”, “será que ainda dá tempo para fazer tudo o que quero?”, “o que realmente é importante na vida?”, “vale a pena correr e trabalhar tanto?”, e por aí vai. O convívio com Diva e Rosa tem me mostrado não as respostas, mas a tranquilidade para reformular esses questionamentos, para viver de uma forma mais leve, sem querer ter o controle de tudo – o que é realmente uma ilusão. Obviamente, isso não ocorre de uma hora para outra, mas nas pequenas reações do dia a dia, quando nos damos conta de como a vida é para ser degustada, sentindo os sabores de cada momento. Estou aprendendo isso com duas mulheres (e a idade é só um detalhe), que vivem o hoje, o agora, e que fazem planos para o futuro também. Por que não? Estou aprendendo a não me preocupar se esse futuro é amanhã, daqui a um ano ou a uma década. Venho aproveitando as novas experiências, como a de coordenar uma rádio universitária, por exemplo, e tentando fruir cada momento. O nosso encontro – eu, Rosa e Diva – é uma dessas oportunidades. E tenho certeza, não foi por acaso. Que possamos viver mais, em todos os sentidos!


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