A advocacia no Brasil



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História da advocacia no Brasil * 

 

Sérgio Sérvulo da Cunha 

 

 

 



 

 

1.  



 

 

O maior achado do sociólogo francês Jacques Lambert, ao escrever um livro sobre 



o Brasil, está no seu título: “Os dois Brasis”.  A distinção que ele aí sublinha, entre dois países contidos num 

só  (um  país  rural,  inculto,  de  um  lado;  um  país  urbano  e  civilizado  de  outro),  aparentemente  reproduz  a 

mesma que se tem em mente ao dizer que o Brasil é uma Belíndia (Bélgica + Índia), com a qual já se assinala 

a  riqueza  (capitalismo,  industrialização)  de  um  lado  e  a  miséria  (analfabetismo,  carência  de  serviços 

públicos, exclusão) de outro.  

 

  



 

 

Entretanto,  às  principais  ou  mais  populosas  cidades  brasileiras  hoje  –  entre  elas 



São  Paulo,  Rio  de  Janeiro,  Brasília,  Belo  Horizonte,  Manaus,  Fortaleza,  Recife,  Salvador,  Curitiba  –  onde 

vivem  milhões  de  pessoas,  dificilmente  se  aplicariam  as  categorias  descritivas  das  cidades  européias 

implicadas  no  termo  “burguesia”,  assim  como  dificilmente  se  aplicam  as  categorias  marxistas,  quando  a 

partir da revolução industrial enxergam no proletariado urbano um exército industrial de reserva.  

 

  

 



 

A  dicotomia  mais  compreensiva  dessa  realidade,  aquela  que  a  atravessa  desde 

suas origens até hoje, encontra-se a meu ver na distinção entre duas perspectivas: de um lado aquilo que eu 

chamo a perspectiva do poder, e, de outro, aquilo que eu chamo a perspectiva do vivente.   

 

  

 



 

A  respeito  da  perspectiva  do  poder  –  a  perspectiva,  por  exemplo,  de  Martim 

Afonso de Souza – a par dos registros sobre a psicologia dos primeiros colonizadores que ao Brasil chegavam 

à  esperança  de  um  dia  retornarem  ricos  a  Portugal,  são  raras  as  observações  constantes  dos  estudos 

brasileiros  de  antropologia.  O  poder  é  a  língua  culta,  o  diploma  universitário,  a  herança  greco-romana,  o 

Estado, o cheque especial; o poder, em resumo, é apolíneo.  

 

  

 



 

Todavia, a consciência oficial ignora-se a si mesma na medida em que, tomando-

se pela totalidade, não reconhece a existência de uma perspectiva do vivente. Isto significa não que o saber 

oficial ignore o vivente, mas que o vivente não é sujeito do saber oficial.    

 

  

 



 

Ao  pesquisar  a  administração  dos  primeiros  municípios  brasileiros,  diz  o 

historiador: “Para tentar entender quem era ‘homem bom’, comecemos por eliminar quem não era. Não era 

‘homem bom’, em primeiro lugar, índio, negro, judeu, ou quem quer que possuísse sinal de, como se dizia 

então, ‘sangue infecto’.  Em segundo lugar, não era ‘homem bom’ quem trabalhasse com as mãos. Sobrava 

o que?  Os proprietários, os funcionários.” 

1

  



 

  

 

 

Como os assim chamados “homens bons” não se ocupavam do trabalho, quem o 

fazia  eram  os  índios,  “agricultores,  operários  da  construção,  transportadores.  Nesta  última  qualidade, 

                                                 

*  Texto  preparado  para  o  Congresso  da  Deutsch-Brasilianische  Juristenvereinigung  e.  V.,  realizado  em 

Potsdam em novembro de 2005. 

 

1

 Roberto Pompeu de  Toledo, A capital da  solidão (uma  história  de São Paulo  das origens a  1900), Rio de 



Janeiro, Objetiva, 2003, p. 122. 





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