A abolição da escravidão é desses eventos raros na



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A abolição da escravidão é desses eventos raros na 

história do país; divide águas, seja como fato, seja como símbolo. Em 

1988, centenário da Lei Áurea, houve uma troca de ícone e data come‑

morativa da liberdade africana no Brasil: do 13 de Maio para o 20 de 

Novembro, da liderança da princesa ao protagonismo dos cativos, de 

Isabel para Zumbi. Estudiosos e ativistas do movimento negro con‑

testaram a relevância da casa imperial para o fim da escravidão e res‑

saltaram a resistência dos escravos.

[1]  Este artigo resume minha tese de

livre‑docência, Flores, votos e balas: o 



movimento pela abolição da escravidão 

no Brasil, defendida na FFLCH‑USP,

em dezembro de 2012, e em vias de

publicação (Companhia das Letras,

no prelo). Agradeço aos comentários

de Angela de Castro Gomes, Antonio

Sergio Guimarães, Brasílio Sallum

Jr., José Murilo de Carvalho e Luiz

Werneck Vianna, da banca arguidora,

e às sugestões de colegas, quando da

O ABOLICIONISMO COMO  

MOVIMENTO SOCIAL

1

Angela Alonso



RESUMO

O  artigo  analisa  o  fenômeno  da  abolição  da  escravidão  no 

Brasil a partir de uma sociologia política relacional. De um lado, o abolicionismo é analisado como parte de uma dinâ‑

mica  que  envolvia  instituições  políticas,  espaço  público  e  clandestinidade,  arenas  nas  quais  se  travou  o  jogo  entre 

movimento, Estado e contramovimento escravista. De outro lado, a análise insere o movimento em seu contexto inter‑

nacional, apontando a apropriação do repertório de experiências abolicionistas estrangeiras por ativistas brasileiros. 

O objetivo é evidenciar a modernidade e a relevância do movimento abolicionista nacional para o processo político de 

abolição da escravidão.

PALAVRAS‑CHAVE:

 movimento abolicionista; repertório de confronto; 

contramovimento social.

ABSTRACT


This article investigates the abolition of slavery in Brazil from 

a political sociology approach. On one hand, it takes the phenomenon as part of dynamics encompassing political 

institutions, public space and grassroots, arenas in which happened the conflict movement, state and pro‑slavery coun‑

termovement. On the other hand, it places the movement as part of the contemporary international scene, showing how 

Brazilian  activists  learned  and  borrowed  from  the  international  abolitionism  repertoire.  The  aim  is  to  show  how 

modern the national abolitionist movement was and its impacts on the political process of abolition of slavery in Brazil.

KEYWORDS:

 movement for abolition of slavery; repertoire of contention; 

social countermovement.

NOVOS ESTUDOS  100 ❙❙ NOVEMBRO 2014    

115



116 O ABOLICIONISMO COMO MOVIMENTO SOCIAL ❙❙ 

 Angela Alonso

apresentação de versões preliminares

deste texto nos seminários Sociolo‑

gia, Política e História (PPGS‑ USP),

em 2012, e no Seminário da Casa do

Cebrap, em 2014.

 

Sou grata ainda às

observações de Fernando Limongi

e à assistência na pesquisa e no tra‑

tamento dos dados de Ana Carolina

Andrada, Viviane Brito de Souza e

Roger Cavalheiro.

A aura de “Redentora” era, de fato, exagerada; contudo, o deslo‑

camento de relevância da herdeira do trono imperial para o líder de 

revolta escrava solapou um fenômeno que não é uma coisa nem outra: 

o movimento social pela abolição da escravidão.

Movimento, como o de junho de 2014, irredutível a um grupo ou 

liderança, nem obra de escravos, nem graça de princesa. Este artigo 

retoma o movimento social abolicionista como objeto de estudos e o 

relê a partir de conceitos da sociologia política.

MEMÓRIA E HISTÓRIA

Quem primeiro explicou a abolição foram os abolicionistas. Seus 

discursos em efemérides, retrospectos na imprensa e memórias de‑

linearam fatos, líderes e datas capitais do abolicionismo. Joaquim 

Nabuco, em Minha formação, José do Patrocínio, em artigos (Cidade do 



Rio, 5/5/1889), Duque Estrada (1918) e Evaristo de Moraes (1924), 

embora reconhecendo predecessores, elegeram 1879 como o início do 

movimento antiescravista no Brasil.

A marcação está longe de ser neutra. De fato, o engajamento de 

muitos ativistas é dessa hora, são de 1880 dois importantes agrupa‑

mentos, a Associação Central Emancipadora e a Sociedade Brasileira 

contra a Escravidão, dominadas respectivamente por Patrocínio e Na‑

buco. Ambos começam suas narrativas em 1879 porque aí começaram 

seu engajamento: estreia do primeiro na direção da Gazeta da Tarde e do 

segundo no parlamento.

Nabuco foi o mais poderoso difusor do recorte. Em Um estadista do 




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