A abóboda Alexandre Herculano



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CAPÍTULO III – O Auto 

 

Junto  a  uma  das  colunas  da  igreja  de  Santa  Maria  da 



Vitória  estava  levantado um  estrado,  sobre o qual se via 

uma  grande  e  maciça  cadeira  de  espaldar,  feita  de 

castanho,  e  lavrada  de  curiosos  bestiais  e  lavores:  era 

este o lugar onde el-rei devia assistir ao auto da adoração 

dos  reis.  No  mesmo  estrado  havia  vários  assentos  rasos 

para  neles  se  sentarem  os  fidalgos  e  cavaleiros  que  o 

acompanhavam. Defronte do estrado e colocado ao pé do 

arco da capela do fundador corria para um  

e  outro  lado  da  parede  um  devoto  presépio[1],  mui 

erguido  do  chão,  e  representando  serranias  agrestes,  ao 

sope  das  quais  estava  armada  uma  espécie  de  choca, 

onde  sobre  a  tradicional  manjedoura  se  via  reclinado  o 

menino Jesus, e de joelhos junto dele a Virgem e S. José, 

acompanhados  de  vários  anjos,  em  ato  de  adoração. 

Diante  da  cabana  corria,  no  mesmo  nível,  um  largo  e 

grosseiro cadafalso de muitas tábuas, para o qual, por um 

dos lados, davam serventia duas grossas e compridas  



25 

 

pranchas  de  pinho,  por  onde  deviam  subir  as 



personagens do auto.  

Tanto que el-rei saiu da porta do cruzeiro que  dá para a 

sacristia, encaminhou-se pela igreja abaixo, e veio sentar-

se  na  cadeira  de  espaldar,  conduzido  por  Frei  Lourenço, 

que com todos os modos de homem cortesão ofereceu os 

assentos rasos aos demais cavaleiros e fidalgos.  

Pela  mesma  porta  da  sacristia  saíram  logo  as  primeiras 

figuras do auto, que, descendo ao longo da nave, subiram 

ao cadafalso pelas pranchas de que fizemos menção.  

Estas primeiras figuras eram seis, formando uma espécie 

de  prólogo  ao  auto.  Três  que  vinham  adiante 

representavam a Fé, a Esperança, e a Caridade: após elas 

vinham a Idolatria, o Diabo, e a Soberba; todas com suas 

insígnias  mui expressivas e  a ponto; mas  o que enlevava 

os olhos da grande multidão dos espetadores era o Diabo, 

vestido  de  peles  de  cabra,  e  com  um  rabo  que  lhe 

arrastava  pelo  tablado,  e  seu  forçado  na  mão,  muito 

vistoso  e  bem-posto.  Feitas  as  vénias  a  el-rei,  a  Idolatria 

começou seu arrazoado contra a Fé, queixando-se de que 

ela  a  pretendia  esbulhar  da  antiga  posse  em  que  estava 

de receber cultos de todo o género-humano, ao que a Fé 

acudia com dizer que ab initio estava apontado o dia em 

que  o império dos  ídolos  devia acabar,  e  que  ela Fé  não 

era  culpada  de  ter  chegado  tão  asinha  esse  dia.  Então  o 

Diabo  vinha  lamentando-se  de  que  a  Esperança 

começasse de entrar nos  




26 

 

corações  dos  homens;  que  ele  Diabo  tinha  jus 



antiquíssimo de desesperar toda a gente; que se dava ao 

demo  por  ver  as  perrarias  que  a  Esperança  lhe  fazia;  e 

com  isto  careteava  com  tais  momos  e  trejeitos,  que  o 

povo  ria  a  rebentar,  o  mais  devotamente  que  era 

possível. Ainda que o Diabo fizesse de truão da festa, nem 

por isso a sua contendora, a Esperança, dava descargo de 

si com menos compostura do que a tão honrada virtude 

cumpria, dizendo que ela obedecia ao senhor de todas as 

coisas,  e  que  este  vendo  e  considerando  os  grandes 

desvarios  que  pelo  mundo  iam,  e  como  os  homens  se 

arremessavam desacordadamente no inferno, a mandara 

para  lhes  apontar  o  direito  caminho  do  céu;  e  por  aqui 

seguia  com  razões  muito  devotas  e  discretas,  que 

moveriam  a  devotíssimas  lágrimas  os  ouvintes,  se  a 

devoto riso os não movesse o Diabo com seus trejeitos e 

visagens, como, com bastante agudeza, reflete o autor da 

antiga  crónica,  de  que  fielmente  vamos  transcrevendo 

esta  verídica  histórica.  A  Soberba,  que  estava  impando, 

ouvidas  as  razões  da  Esperança,  travou  dela  mui  rijo,  e 

com  voz torvada  e  rosto  aceso, começou  de  bradar,  que 

esta  dona  era  sandia,  porque  entendera  enganar  os 

homens com vaidades de incertos futuros, e sustentá-los 

com  fumo;  que  pretendia  contra  toda  a  ordem  de  boa 

razão, que a gente vil houvesse igual quinhão no céu com 

os senhores e cavaleiros, o que era descomunal ousadia, 

e  fora  da  geral  opinião  e  direito,  indo  por  aqui 

discursando  com  remoques  mui  orgulhosos,  como  a 

Soberba  




27 

 

que  era.  não  sofreu,  porém,  o  ânimo  da  Caridade  tão 



descomposto razoar da sua figadal inimiga, e lho atalhou 

com tomar a mão naquele ponto, e notar que os filhos de 

Adão eram todos uns aos olhos do Todo-Poderoso; que a 

Soberba  

inventara as vãs distinções entre os homens, e que à vida 

eternal  mais  amorosamente  eram  os  pequenos  e 

humildosos chamados, do que os potentes, o que provou 

claramente a sua contraria com bastos textos das Santas 

escrituras,  de  que  a  Soberba  ficou  mui  corrida,  por  não 

ter  contra  tão  grande  autoridade  resposta  cabal.  E 

acabado o dizer da Caridade, um anjo subiu ao cadafalso, 

para  dar  sua  sentença,  que  foi  mandar  recolher  ao 

abismo a Idolatria, o Diabo e a Soberba, e anunciar às três 

virtudes que as ia elevar ao céu, onde reinariam em glória 

perdurável. Então o Diabo, fazendo horribilíssimos biocos, 

pegou  pelas  mãos  as  duas  companheiras,  e  fugiu  pela 

igreja  fora  com  grandes  apupos  e  doestos  dos 

espectadores.  Guiando  as  três  virtudes,  o  anjo  (por  uma 

daquelas  liberdades  cénicas  que  ainda  hoje  se  admitem, 

quando,  nas  vistas  de  marinha,  o  ator,  que  vem 

embarcado,  desce  dois  ou  três  degraus  das  ondas  de 

papelão  para  a  terra  de  soalho)  em  vez  de subir  ao  céu, 

como anunciara, desceu pelas pranchas, que davam para 

o pavimento da igreja, e caminhando ao longo da nave se 

recolheu  à  sacristia,  acompanhado  da  Fé,  Esperança  e 

Caridade,  tão  vitoriadas  pelos  espetadores,  como 

apupado fora o Diabo e as suas infernais companheiras.  



28 

 

Ainda  bem  não  eram  recolhidas  estas  figuras,  quando, 



pela mesma porta do cruzeiro, saíram os três reis magos, 

ricamente vestidos ao antigo, com roupas talares de fina 

tela, mantos reais, e coroas na  

cabeça.  Adiante  vinha  Baltasar,  homem  já  velho,  mas 

bem  disposto  de  sua  pessoa,  com  aspeto  grave  e 

autorizado, e com umas barbas, posto que brancas, bem 

povoadas:  logo  após  ele  vinha  o  rei  Belchior,  e  a  este 

seguia-se  Gaspar:  traziam  todos  suas  bocetas,  em  que 

eram guardados os preciosos dons, que ao recém-nascido 

vinham  de  longes  terras  ofertar.  Subindo  ao  cadafalso, 

disseram  como  uma  estrela  os  guiara  até  Jerusalém,  e 

como desta cidade, depois de mui trabalhado e duvidoso 

caminho, tinham acertado em vir a Belém, e com grande 

folgança  encontravam  aí  o  presépio,  para  fazer  seu 

ofertório,  o  que  em  verdade  era  coisa  mui  piedosa 

d'ouvir.  O  rei  Baltasar,  como  mais  velho  e  sisudo,  foi  o 

primeiro que ajoelhou junto do presépio, e com voz mui 

entoada, e depondo ante o menino seus presentes, disse:  

Santo filho de David,  

Divinal Salvador da triste raça Humanal,  

Que descestes lá do assento Celestial;  

Voz da glória imperador Eternal,  

Aceitai este ofertório não real,  

Pobre si.  

É quanto posso: não hei al.  

O que fora compridoiro  




29 

 

De auto tal  



Bem o sei.  

Andei mas vias,  

Por meu mal;  

Que dez dias prantei tendas  

De arraial  

Nas soidões fundas d'Arabia,  

Mui fatal.  

Meus camelos há tisnado Sol mortal;  

E um, de vento do deserto,  

Vendaval.  

O presente, que aí vedes,  

Pouco vale;  

É somente algum incenso Oriental;  

Que o tesouro que eu trazia,  

Mui cabal,  

Soterrou-mo a tempestade  

No areal.  

E  com  isto  o  venerável  rei  Baltasar,  depois  de  fazer  sua 

oração  em  voz  baixa,  ergueu-se;  e  o  rei  Belchior, 

ajoelhando e depondo a urna que trazia nas mãos ante o 

presépio, disse:  

Vindo sou Iá do Cataio  

A adorar-vos alto infante,  

Redentor: não me pôs na alma desmaio  

Ser de terra tão distante  

Rei, senhor!  




30 

 

E bem torva a minha lace:  



Minhas mãos tingidas são  

De negrura;  

Mas na terra onde o sol nasce  

Mais se cobre o coração  

De tristura;  

Porque o torpe Mafamede  

Sua crença mui sandia  

Mandou lá;  

E não há quem dela arrede  

Essa gente, que aperfia  

Em ser má.  

Real tronco de Jesse  

Mui fermoso, se eu pudera  

Vos levara;  

E convosco a vossa fé  

Os incréus eu convertera,  

E os salvara.  

Ora quero ver se peito São Jose,  

que é vosso padre ....  

Um  sussurro,  que  começara  no  momento  em  que  o  rei 

preto ajoelhou, e que mal deixara ouvir a precedente loa 

(obra  mui  prima  de  certo  leigo,  afamado  jogral  daquele 

tempo)  cresceu  neste  momento  a  tal  ponto,  que  o 

corista,  que  fazia  o  papel  de  Belchior,  não  pode, 

continuar,  com  grande  dissabor  do  poeta,  que  via 

murchar a coroa de louros, que neste auto esperava  




31 

 

obter.  O  povo  agitava-se,  e  do  meio  dele  saiam  gritos 



descompostos,  que  aumentavam  o  tumulto.  El-rei  tinha-

se erguido, e juntamente os demais cavaleiros e fidalgos: 

todos  indagavam  a  origem  do  motim;  mas  não  havia 

acertar com ela. Enfim, um homem rompendo por entre a 

multidão,  sem  touca  na  cabeça,  cabelos  desgrenhados, 

boca  torcida  e  coberto  de  escuma,  olhos  esgazeados, 

saltou para dentro da teia, que fazia um claro em roda do 

tablado.  Apenas  se  viu  dentro  daquele  recinto,  ficou 

imóvel, com os braços estendidos para o teto, as palmas 

das mãos voltadas para cima, e a cabeça encolhida entre 

os  ombros,  como  quem  cheio  de  horror  via  sobre  si 

desabar aquelas altíssimas e maciças arcarias.  

"Mestre Ouguet!—exclamou el-rei espantado.  

"Mestre  Ouguet!—gritou  Frei  Lourenço,  com  todos  os 

sinais de assombro.  

"Mestre  Ouguet!—repetiram  os  cavaleiros  e  fidalgos, 

para também dizerem alguma coisa.  

"Quem  fala  aqui  no  meu  nome?—rosnou  David  Ouguet, 

com  uma  voz  comprimida  e  sepulcral.—Malvados! 

Querem assassinar-me?! Querem arrojar sobre mim esse 

montão  de  pedras,  como  se  eu  fora  um  cão  judeu,  que 

merecesse ser apedrejado?! Oh meu Deus, salvai a minha 

alma!"—E depois  

de  um  breve  silêncio,  em  que  pareceu  tomar  fôlego:— 

"Não  vos  chegueis  aí!—bradou  ele.—Não  vedes  essas 

fendas  profundas  como  o  caminho  do  inferno?  São 

escuras: mas  



32 

 

através  delas  lá  enxergo  eu  o  luar!  Vós  não,  porque 



vossos  olhos  estão  cegos  ...  porque  o  vosso  bom  nome 

não se escoa por lá!... Cegos? não vós!... mas ele!... Ele é 

que  se  ri  e  folga  em  sua  orgulhosa  soberba!  Vede  como 

escancara  aquela  boca  hedionda;  como  revolve,  debaixo 

das  pálpebras  cobertas  de  vermelhidão,  aqueles  olhos 

embaciados!...  Maldito  velho,  foge  diante  de  mim!... 

Maldito,  maldito!...  Curvada  já  no  centro  ...  sentia-a 

escaliçar  e  ranger...  Estavas  tu  assentado  em  cima  dela? 

Feiticeiro!...  Anda,  que  eu  bem  ouço  as  tuas 

gargalhadas!... não há um raio que te confunda?.. não!"  

Dizendo isto, mestre Ouguet cobriu a cara com as mãos, e 

ficou outra vez imóvel.  

El-rei, os cavaleiros, os padres mais dignos, que estavam 

de  roda  do  estrado  real,  os  reis  magos,  os  populares, 

todos  olhavam  pasmados  para  o  arquiteto  que  assim 

interrompera a solenidade do auto.  

Um  silêncio  profundo  sucedera  ao  ruído,  que  a  aparição 

daquele  homem  desvairado  excitara.  Milhares  de  olhos 

estavam  fitos  nesse  vulto,  que  semelhava  uma  larva  de 

condenado  saída  das  profundezas  para  turbar  a  festa 

religiosa.  Por  mais  de  um  cérebro  passou  este 

pensamento:  em  mais  de  uma  cabeça  os  cabelos  se 

eriçaram  de  horror;  mas  dos  que  conheciam  mestre 

Ouguet  nenhum  duvidou  de  que  fosse  ele  em  corpo  e 

alma.  Que  proveito  tiraria  o  demónio  de  tomar  a  figura 

do  arquiteto  para  fazer  uma  das  suas  irreverentes 

diabruras?  Só  uma  suposição  havia,  que  não  era 

inteiramente  




33 

 

desarrazoada;  David  Ouguet  podia  estar  possesso,  em 



consequência de algum grave pecado; pecado que talvez 

tivesse  escondido  na  última  confissão,  que  fizera  na 

véspera de Natal.  

Isto  era  possível,  e  até  natural;  que  não  vivia  ele  a  mais 

justificada  vida.  Supor  que  endoudecera  parecia  grande 

despropósito;  porque  nenhum  motivo  havia  para  tal  lhe 

acontecer, quando merecera os gabos d'el-rei e de todos, 

por  ter  levado  a  cabo  a  grandiosa  obra  que  lhe  estava 

encomendada.  Estes  e  outros  raciocínios,  hoje  ridículos, 

mas  segundo  as  ideias  daquela  época  bem  fundados  e 

correntes,  

fazia  o  reverendo  padre  procurador  Frei  Joanne,  que 

tinha  vindo  assistir  ao  auto,  e  estava  em  pé  atrás  do 

estrado,  e  perto  de  Frei  Lourenço  Lampreia.  Revolvendo 

tais  pensamentos,  no  meio  daquele  silêncio  ansioso  em 

que  todos  estavam, não  pode  ter-se  que, pé  ante  pé, se 

não chegasse ao prior, e lh'os comunicasse em voz baixa, 

e ao ouvido.  

"Não vou fora disso:"—respondeu o prior, que, enquanto 

o outro frade lhe falara, estivera dando a cabeça em sinal 

de  aprovação.—"O  olhar  espantado,  o  escumar,  o 

estorcer  os  membros,  o  falar  não  sei  de  que  feiticeiro; 

tudo me induz o crer que o demónio se chantou naquele 

miserável  corpo,  como  vos  aventais.  Se  assim  é,  pouco 

juízo mostrou desta vez o diabo em vir com seus esgares 

e  tropelias  atalhar  o  mui  devoto  auto  da  adoração. 

Examinemos se assim é, eu vo-lo darei bem castigado."  



34 

 

Dizendo isto, Frei Lourenço chegou-se a el-rei, e disse-lhe 



o  que  quer  que  foi.  Ele  escutou-o  atentamente,  e  tanto 

que o prior acabou, sentou-se outra vez na sua cadeira de 

espaldar, e fez sinal com a mão  aos fidalgos e cavaleiros 

para que também se sentassem.  

Frei Lourenço, acompanhado de mais alguns frades, subiu 

pela  igreja  acima,  e  entrou  na  sacristia:  todos  ficaram 

esperando, silenciosos e imóveis como mestre Ouguet, o 

desfecho desta cena, que se encaixava no meio das cenas 

do auto.  

Tinham  passado  obra  de  três  credos,  quando,  saindo 

outra vez da porta da sacristia, Frei Lourenço voltou pela 

igreja abaixo, revestido com as vestes sacerdotais, chegou 

à  teia,  abriu-a,  e  encaminhou-se  para  mestre  Ouguet. 

Depois,  olhando  de  roda,  e  fazendo  um  aceno  de 

autoridade, disse:  

"Ajoelhai, cristãos, e orai ao Padre Eterno por este nosso 

irmão, tomado do espírito imundo."  

A estas palavras, rei, cavaleiros, frades, povo, tudo se pôs 

de joelhos. E ouvia-se ao longo das naves o sussurro das 

orações.  

Só mestre Ouguet ficou sem se bulir com o rosto metido 

entre as mãos.  

O prior lançou a estola à roda do pescoço do possesso, e 

queria atar os três nós do ritual; mas o paciente deu um 

estremeção,  e  tirando as  mãos  da  cara,  fez um  gesto  de 

horror, e gritou:  

"Frade  abominável,  também  tu  és  conluiado  com  o 

cego?"  



35 

 

"Não  há  duvida!—disse  por  entre  os  dentes  o  prior:—



mestre Ouguet está endemoninhado."  

Tirando  então  da  manga  um  pergaminho,  em  que 

estavam escritas várias coisas de doutrina, o pôs sobre a 

cabeça do mestre, fazendo sobre ele três vezes o sinal da 

cruz.  

David Ouguet  soltou então uma destas risadas nervosas, 

que  horrorizam,  e  que  tão  frequentes  são  quando  o 

padecimento moral sobrepuja as forças da natureza.  

"Cão tinhoso—bradou Frei Lourenço—espírito das trevas, 

enganador,  maldito,  luxurioso,  insipiente,  ébrio,  serpe, 

víbora,  vil  e  refece  demónio,  Enfim,  castelhano[2].  Em 

nome  do  criador  e  senhor  de  todas  as  coisas,  te  mando 

que repitas o credo, ou saias deste miserável corpo."  

Mestre Ouguet ficou imóvel e calado.  

"Não  cedes?!"—prosseguiu  o  prior—"Recorrerei  ao 

sétimo, ao mais terrível exorcismo. Veremos se poderás a 

teu  salvo  escarnecer  das  criaturas  feitas  à  imagem  e 

semelhança de Deus."  

Depois  de  várias  cerimónias  e  orações,  Frei  Lourenço 

chegou-se  ao  pobre  irlandês,  e  começou  a  repetir  o 

conjuro,  fazendo-lhe  uma cruz  sobre a  testa  a  cada  uma 

das seguintes palavras, que proferia lentamente:  

"Hel—Heloym—Heloa—Sabaoth—Helyon—Esereheye—

Adonay—Iehova— 

Ya—Thetagrammaton—Saday—

Messias—Hagios—Ischiros—Otheos— 

Athanatos—

Sother—Emanuel—Agla— 




36 

 

"Jesus!"—bradou  a  uma  voz  toda  a  gente  que  estava  na 



igreja.  

"Diabo!"—gritou  mestre  Ouguet;  e  caiu  no  chão  como 

morto.  

E houve um momento de angústia e terror, em que todos 

os corações deixaram de bater, e em que todos os olhos, 

braços e pernas ficaram fixos como se fossem de bronze.  

Um  ruído  semelhante  ao  de  cem  bombardas,  que  se 

houvessem disparado dentro do mosteiro, e que soara da 

banda  da  sacristia,  tinha  arrancado  aquele  grito  de  mil 

bocas,  e  tinha  convertido  em  estátuas  essa  multidão  de 

povo.  

Há  situações  tão violentas, que  se  durassem, a  morte  se 

lhes seguiria em breve; mas a providente natureza parece 

restaurar  com  dobrada  energia  o  vigor  físico  e  espiritual 

do  homem  depois  destes  abalos  espantosos;  e  então, 

melhor  que  nunca,  ele  sente  em  si  que,  posto  que 

despenhado,  não  perdeu  a  sublimidade  da  sua  origem 

divina.  A  reação  segue  a  ação;  e  quanto  mais  tímido  o 

individuo se mostrou, mais viva e a consciência da própria 

força,  que  depois  disso  renasce  com  o  destemor  e 

ousadia.  

Foi  o  que  sucedeu  a  D.  João  I,  aos  cavaleiros  do  seu 

séquito,  e  ao  povo  que  estava  na  igreja  de  Santa  Maria, 

passado  aquele  instante  de  sobrenatural  pavor.  A 

terribilidade da cerimónia que Frei Lourenço praticava; o 

ruído  inesperado  que  rompera  o  exorcismo;  o  grito 

blasfemo  do  arquiteto,  no  momento  de  cair  por  terra;  o 

lugar;  a  hora,  eram  coisas  que,  reunidas,  fariam  pedir 

confissão  a  uma  grande  manada  de  filósofos 

enciclopedistas, e que por isso, não é de admirar fizessem  




37 

 

uma  impressão  vivíssima  em  homens  de  um  século,  não 



só  crente,  mas  também  supersticioso.  Todavia  o  ânimo 

indomável  do  Mestre  d'Avis  brevemente  fez  cobrar 

alento a todos os que aí estavam.  

"É, em verdade, descomunal maravilha o que temos visto 

e  ouvido—disse  ele  com  voz  firme,  voltando-se  para  os 

que o rodeavam;—mas cumpre indagar d'onde procede o 

ruído que veio interromper o mui devoto padre prior no 

exercício  de  seu  ministério  tremendo.  Soou  esse 

medonho  estampido  da  banda  do  claustro:  vamos 

examinar  o  que  seja:  se  diabólico,  estamos  na  casa  de 

Deus, e a cruz é nosso amparo: se natural, que haverá no 

mundo 


capaz  de 

por  espanto 

em  cavaleiros 

portugueses?"  

Dizendo  isto,  el-rei  desceu  do  estrado,  e  encaminhou-se 

para  a  sacristia.  Os  cavaleiros  da  comitiva,  os  frades,  os 

três  reis  magos  (que  ainda  estavam  em  pé  sobre  o 

tablado) e uma grande parte do povo tomaram o mesmo 

caminho.  

El-rei  ia  adiante,  e  o  prior  era  o  que  mais  de  perto  o 

seguia.  Cruzaram  o  arco  gótico,  que  dava  comunicação 

para a sacristia: aí tudo estava em silêncio: uma lâmpada 

que  pendia  do  teto  dava  uma  luz  frouxa  e  mortiça,  e  a 

esta luz incerta e baça encaminharam-se para a porta do 

capítulo.  Ao  chegar  a  ela  todos  recuaram  de  espanto,  e 

um segundo grito soou, e veio morrer sussurrando pelas 

naves da igreja quase deserta:  

"Jesus!"  




38 

 

As  portas  haviam  estourado  nos  seus  grossíssimos 



gonzos, e muito cimento solto e pedras quebradas tinham 

rolado  pelo  portal  fora,  entulhando-lhe  quase  um  terço 

da altura. Olhando para o interior daquela imensa quadra 

não  se  viam  senão  enormes  fragmentos  de  cantos 

lavrados, de lacarias, de cornijas, de voltas e de relevos: a 

lua, que passava tranquila nos céus, refletia o seu clarão 

pálido  sobre  este  montão  de  ruínas  semelhantes  aos 

monumentos  irregulares  de  um  cemitério  cristão;  e  por 

cima  daquele  temoroso  silêncio  passava  o  frio  leste  da 

noite, e vinha bater nas faces turbadas dos que apinhados 

na sacristia contemplavam este lastimoso espetáculo. Dos 

olhos d'el-rei e de Frei Lourenço caíram algumas lágrimas, 

que eles debalde tentavam reprimir.  

A  abóbada  do  capítulo,  acabada  havia  vinte  e  quatro 

horas, tinha desabado em terra!  

 




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