A abóboda Alexandre Herculano


CAPÍTULO II – Mestre Ouguet



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CAPÍTULO II – Mestre Ouguet 

 

Uma das inumeráveis questões, que, em nosso entender, 



eternamente ficarão por decidir, é a que versa sobre qual 

dos  dois  ditados—voz  do  povo  e  voz  de  Deus—ou—voz 

do povo e voz do diabo—seja o que exprima a verdade. E 

indubitável  que  o  povo  tem  uma  espécie  de  presciência 

inata,  d'instinto  divinatório.  Quantas  vezes,  sem  que  se 

saiba como ou porquê,  




16 

 

corre voz entre o povo, que tal navio saído do porto, tão 



rico  de  mercadorias  como  de  esperanças,  se  perdeu  em 

tal dia e a tal hora em praias estranhas. Passa o tempo, e 

a voz popular realiza-se com exação espantosa. Assim de 

batalhas;  assim  de  mil  fatos.  Quem  dá  estas  notícias? 

Quem as trouxe? Como se derramaram? Mistério é esse, 

que  ainda  ninguém  soube  explicar.  Foi  um  anjo?  Foi  um 

demónio?  Foi  algum  feiticeiro?  Mistério.  Não  há,  nem 

haverá, talvez, nunca, filósofo que o explique; salvo se tal 

fenómeno é uma das maravilhas do magnetismo animal. 

Esse meio ininteligível de dar solução a tudo o que se não 

entende, é acaso a única via de resolver a dúvida. Se o é, 

aí damos mais um osso a roer aos físicos do magnetismo.  

Foi  o  caso:  quando  a  cavalgada,  de  que  fizemos  menção 

no  fim  do  antecedente  capítulo,  vinha  descendo  a 

encosta sobranceira a planície do mosteiro, entre o povo 

que  estava  dentro  da  igreja,  impaciente  já  pela  demora 

do  auto,  começou-se  a  espalhar  um  sussurro,  que  cada 

vez  crescia  mais:  o  motivo  dele  não  era  fácil  sabê-lo: 

nenhuma  novidade  ocorrera;  ninguém  tinha  entrado  ou 

saído.  De  repente  toda  aquela  multidão  se  agitou, 

remoinhou  pela  igreja,  e  principiou  a  borbulhar  pelo 

portal  fora,  como  por  bico  de  funil  o  líquido  deitado  de 

alto.  Tinham  sabido que  el-rei  chegava, e  todos  queriam 

vê-lo  descavalgar,  porque  D.  João  I,  plebeu  por  herança 

materna, nobre por ser filho do D. Pedro I, rei eleito por 

uma revolução, e confirmado por cinquenta vitórias, era o  




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mais  popular,  o  mais  amado,  é  o  mais  acatado  de  todos 



os  reis  da  Europa.  Vinha  montado  em  uma  possante 

mula,  e  assim  mesmo  em  outras  os  fidalgos  e  cavaleiros 

de  sua  casa.  Trazia  vestida  sobre  a  cota  uma  jorneia  de 

veludo carmesim, monteira preta, e nebri em punho, em 

maneira de caçada. Chegando à porta do mosteiro, onde 

o  esperava  já  Frei  Lourenço  com  parte  da  comunidade, 

apeou-se  de  um  salto,  e  com  rosto  risonho  e  a  mão  no 

barrete,  agradeceu  sua  cortesia  e  amor  aos  populares, 

que gritavam apinhados à roda dele: —-"viva D. João I de 

Portugal:  morram  os  castelhanos!"—grito  absurdo,  mas 

semelhante aos vivas de todos os tempos; porque o povo, 

bem como o tigre, mistura sempre com o rugido de amor 

o bramido que revela a sua índole sanguinária.  

Por  baixo  daquelas  soberbas  arcadas  desapareceu 

brevemente  el-rei  da  vista  da  multidão,  que  tornou  a 

sumir-se  no  templo  para  ver  o  auto,  que  não  podia 

tardar.  

"Mui  receoso  estava  que  vossa  real  senhoria  nos  não 

honrasse  nosso  auto;  porque  o  sol  não  tarda  a  sumir-se 

no  poente:—dizia  Frei  Lourenço  a  el-rei,  a  cujo  lado  ia 

para o guiar ao seu aposento.  

"Bofe,  mui  devoto  padre  prior,  que  por  pouco  estive  a 

ponto  de  ter  que  levar  a  vossos  pés  mais  uma  mentira 

com os outros pecados, que me não falecem, se amanhã 

me quisesse confessar ao meu antigo confessor:—tornou-

lhe el-rei sorrindo-se.  

 



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"E  certo  estou  de  que  entre  todos  os  pecados  de  que 



teríeis  de  vos  acusar,  este  não  fora o menos  grave,  e  de 

que  eu  muito a  custo absolveria  vossa mercê:—retrucou 

o  prior,  que  tinha  aprendido  ainda  mais  depressa  as 

manhas cortesãs no paço, do que a teologia no noviciado 

da sua ordem.  

"Mas  para  onde  me  guiais,  reverendíssimo  prior:—disse 

el-rei,  parando  antes  de  subir  uma  escada,  para  a  qual 

Frei Lourenço o encaminhava.  

"Ao vosso aposento, real senhor; por que tomeis alguma 

refeição, e repouseis um pouco do trabalho do caminho."  

"Não foi grande o feito, para tomar repouso:—acudiu el-

rei:—que  de  Santarém  aqui  e  uma  corrida  de  cavalo; 

muito mais para quem, em vez de cota de malha, arnês e 

braçais, traz vestidos de seda. Despi-los-ei bem depressa, 

já  que  el-rei  de  Castela  quer  jogar  mais  lançadas,  e  não 

vieram a conclusão de tréguas o Mestre de Santiago com 

o  Condestável.  Mas  vamos,  meu  doutíssimo  padre; 

mostrai-me  a  casa  do  capítulo,  a  que  mestre  Ouguet 

acabou de pôr seu fecho e remate. Onde está  

ele? Quero agradecer-lhe a boa diligência."  

"Beijo-vos  as  mãos  pela  mercê:"—disse  mestre  Ouguet, 

que,  sabendo  da  chegada  d'el-rei,  e  certo  de  que  ele 

desejaria  ver  aquela  grande  obra,  tinha  corrido  ao 

mosteiro, e estava entre os da comitiva:  

—"Se quereis ver a casa do capítulo, vamos para a banda 

da crasta."—Dizendo isto, sem cerimónia  




19 

 

tomou a dianteira, e encaminhou-se ao longo de um dos 



cobertos  do  claustro.  David  Ouguet  era  um  irlandês, 

homem mediano em quase tudo; em idade, em estatura, 

em  capacidade  e  em  gordura,  salvo  na  barriga,  cujos 

tegumentos  tinham  sofrido  grande  distensão,  em 

consequência da dura vida que a tirania do filho d'Erin lhe 

fazia padecer havia bem vinte anos.  

Desde  muito  moço  que  começara  a  produzir  grande 

impressão no seu espírito a invetiva do apóstolo contra os 

escravos do próprio ventre; e para evitar essa condenável 

fraqueza resolvera trazê-lo sempre sopeado. não lhe dava 

tréguas; se em Inglaterra o fizera muitos anos vergar sob 

o  peso  de  dez  atmosferas  de  cerveja,  em  Portugal 

submetia-o  ao  mais  fadigoso  mister  de  canjirão 

permanente.  Mortificava-o  assim,  para  que  não  lhe 

acudissem  soberbas  e  veleidades  de  senhorio  e 

dominação.  De  resto  David  Ouguet  era  bom  homem, 

excelente homem: não fazia aos seus semelhantes senão 

o mal absolutamente indispensável ao próprio interesse: 

nunca  matara  ninguém,  e  pagava  com  pontualidade 

exemplar ao alfaiate e ao merceeiro. Prudente, positivo, e 

prático  do  mundo,  não  o  havia  mais:  seria  capaz  de  se 

empoleirar sobre o cadáver de seu pai para tocar a meta 

de qualquer desígnio ambicioso: com três lições de frases 

ocas  dava  pano  para  se  engenharem  dele  dois  grandes 

homens de estado. Tendo vindo a Portugal como um dos 

cavaleiros  do  duque  de  Lancastre,  procurou  obter  e 

alcançou a proteção da  

 



20 

 

rainha D. Filipa, que, havendo Afonso Domingues cegado, 



o  fez  nomear  mestre  das  obras  do  mosteiro  da  Batalha, 

mostrando  ele  por  documentos  autênticos  ter  na  sua 

mocidade subido ao grau de mestre na sociedade secreta 

dos obreiros edificadores.  

Esta  é  em  breve  resumo  a  história  de  David  Ouguet, 

tirada  de  uma  velha  crónica,  que,  em  tempos  antigos, 

esteve  em  Alcobaça  encadernada  em  um  volume 

juntamente  com  os  traslados  autênticos  das  Cortes  de 

Lamego,  do  Juramento  de  Afonso  Henriques  sobre  a 

aparição  de  Cristo,  da  Carta  de  feudo  a  Claraval,  das 

Histórias de Laimundo e Beroso, e de mais alguns papéis 

de  igual  veracidade  e  importância,  que  por  pirraça  às 

nossas glórias provavelmente os castelhanos nos levaram.  

O lanço da crasta, fronteiro ao coberto por onde ia el-rei, 

estava ainda por acabar. Apenas D. João I entrou naquele 

magnifico  recinto,  olhou  para  lá,  e  voltando-se  para 

mestre Ouguet, disse:  

"Parece-me  que  não  vão  tao  aprimorados  os  lavores 

daquelas arcarias como os destas. Que me dizeis, mestre 

Ouguet?"  

"Seguiu-se  à  risca  nesta  parte—tornou  o  arquiteto—o 

desenho  geral  do  edifício,  feito  por  mestre  Afonso 

Domingues;  porque  seria  grave erro  destruir  a  harmonia 

desta  peça:  mas  se  vossa  merce  mo  permite,  antes  de 

entrardes  no  capítulo  tenho  alguma  coisa  que  vos  dizer 

acerca do que ides presenciar." 

 



21 

 

"Falai  desassombradamente:—respondeu  el-rei—que  eu 



vos escuto."  

"Tomei a ousadia—prosseguiu mestre Ouguet—de seguir 

outro desenho no fechar da imensa abóbada que cobre o 

capítulo: o que achei na planta geral contrastava as regras 

da  arte,  que  aprendi  com  os  melhores  mestres  de 

pedraria. Era até impossível que se fizesse uma abóbada 

tão  achatada,  como  na  primitiva  traça  se  delineou:  eu, 

pelo menos, assim o julgo."  

"E  consultastes  o  arquiteto  Afonso  Domingues,  antes  de 

fazer  essa  mudança  no  que  ele  havia  traçado?—

interrompeu el-rei.  

"Por  escusado  o  tive:—replicou  David  Ouguet.—Cego,  e 

por  isso  inabilitado  para  levar  a  cabo  a  edificação, 

teimaria  que  o  seu  desenho  se  pode  executar,  visto  que 

hoje  ninguém  o  obriga  a  prová-lo  por  obras.  Sobra-lhe 

orgulho: orgulho de imaginador engenhoso. Mas que vale 

isso  sem  a  ciência,  como  dizia  o  venerável  mestre 

Vilhelmo  de  Wykeham?  Menos  engenho  e  mais  estudo, 

eis do que havemos mister."  

"Dizendo  isto  o  arquiteto,  metera  ambas  as  mãos  no 

cinto,  estendera  a  perna  direita  excessivamente 

empertigada, e com a fronte ereta volveu os olhos solene 

e lentamente para os circunstantes.  

"Mestre  Ouguet—acudiu  el-rei  com  aspeto  severo—

lembrai-vos  de  que  Afonso  Domingues  é  o  maior 

arquiteto português. Não entendo de vossas distinções de 

ciência  e  de  engenho:  sei  só  que  o  desenho  de  Santa 

Maria da Vitória causa assombro a  




22 

 

vossos próprios naturais, que se gabam de ter no seu país 



os  mais  afamados  edifícios  do  mundo:  e  esse  mestre 

Afonso,  de  quem  vos  falais  com  pouco  respeito,  foi  o 

primeiro arquiteto da obra que a vosso cargo está hoje."  

"Vossa  merce  me  perdoe:—tornou  mestre  Ouguet, 

adocicando  o  tom  orgulhoso  com  que  falara.—Longe  de 

mim  menoscabar  mestre  Domingues:  ninguém  o  venera 

mais  do  que  eu;  mas  queria  dar  a  razão  do  que  fiz, 

seguindo as regras do mui excelente mestre Vilhelmo de 

Wykeham, a quem devo o pouco que sei, e cuja obra da 

catedral  de  Winchestria  tamanho  ruído  tem  feito  no 

mundo."  

Com  este  diálogo  chegou aquela  comitiva  ao  portal,  que 

dava  para  a  casa  do  capítulo:  Frei  Lourenço  Lampreia, 

como  dono  da  casa,  correu  o  ferrolho  com  certo  ar  de 

autoridade,  e  encostado  ao  umbral  cortejou  a  el-rei  no 

momento de entrar, e aos mais fidalgos e cavaleiros que 

o acompanhavam. Mestre  

Ouguet,  como  pessoa  também  principalíssima  naquele 

lugar,  colocou-se  junto  do  umbral  fronteiro,  repetindo, 

com  aspeto  sobranceiro-risonho,  as  mesuras  do  mui 

devoto padre prior.  

Quando  el-rei  entrou  dentro  daquela  espantosa  casa, 

apenas  através  da  grande  janela  que  a  alumia  entrava 

uma  luz  frouxa,  porque  o  sol  estava  no  fim  de  sua 

carreira, e o teto profundo mal se divisava  

sem  se  afirmar  muito  a  vista.  Mestre  Ouguet  ficara  a 

porta, mas Frei Lourenço tinha entrado.  



23 

 

"Reverendo  prior—disse  el-rei  voltando-se  para  Frei 



Lourenço—vim tarde para gozar desta maravilhosa vista: 

vamos ao auto da adoração, e amanhã voltaremos aqui a 

horas de sol."  

E seguiu para a banda da sacristia, cuja porta lhe foi abrir 

o prior.  

Mestre Ouguet entrou na casa do capítulo, quando já os 

últimos  cavaleiros  do  séquito  real  iam  saindo  pelo  lado 

oposto, caminho da igreja. Com as mãos metidas no cinto 

de  couro  preto  que  trazia,  e  a  passo  mesurado,  o 

arquiteto  caminhou  até  ao  meio  daquela  desconforme 

quadra.  O  som  dos  passos  dos  cavaleiros  tinha-se 

desvanecido;  e  mestre  Ouguet  dizia  consigo,  olhando 

para a porta por onde eles haviam passado:  

"Pobres  ignorantes!  que  seria  o  vosso  Portugal  sem 

estrangeiros,  senão  um  país  sáfaro  e  inculto?  Sois  vós, 

homens  brigosos,  capazes  dos  primores  das  artes,  ou 

sequer de entendê-los?.. Lá vão, lá vão os frades celebrar 

um  auto!  não  serei  eu  que  assista  a  ele;  eu  que  vi  os 

mistérios  de  Coventria  e  de  Widkirk!  Miseráveis 

selvagens,  antes  de  tentardes  representar  mistérios  fora 

melhor  que  mandásseis  vir  alguns  irmãos  da  sociedade 

dos  escrivães  de  paroquia  de  Londres  [1],  que  vos 

ensinassem os verdadeiros momos, ademanes e trejeitos 

usados em semelhantes autos."  

Mestre  Ouguet  estava  embebido  neste  mudo  solilóquio, 

em  louvor  da  nação  que  lhe  dava  de  comer,  e  o  que 

deveria pesar-  



24 

 

lhe ainda mais na consciência, da nação que lhe dava de 



beber,  quando  erguendo  casualmente  os  olhos  para  a 

maciça abóbada, que sobre ele se arqueava, fez um gesto 

de indizível  

horror,  e  como  doido  correu  a  bom  correr  pela  crasta 

solitária, apertando a cabeça entre as mãos, e gritando a 

espaços:  

"Oh, mal-aventurado de mim!"  

 




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