A abóboda Alexandre Herculano



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oleum perdidi."  

"Não  falta  quem  tarda:  el-rei  não  quebrará  a  palavra  ao 

seu antigo confessor. O que quero é que todos os noviços 

e coristas, que têm de fazer suas representações no auto, 

estejam  a  ponto  e  vestidos,  para  ele  começar  logo  que 

sua senhoria chegue."  

"Nada receeis; que tudo está preparado: do que duvido é 

de que comecemos, se por el-rei houvermos de esperar."  

O  frade  mais  velho  fez  a  estas  palavras  um  sinal  de 

impaciência,  e  sem  dar  resposta  ao  seu  pirrónico 

interlocutor,  



 

estendeu  outra  vez  o  gasnate  para  a  banda  da  estrada, 



fazendo  com  a  extremidade  do  hábito  uma  espécie  de 

sobrecéu para resguardar os olhos dos raios do sol, que, 

já  muito  inclinado  para  o  ocidente,  batia  de  chapa  no 

portal onde os dois reverendos estavam altercando.  

Porém,  meio  descoroçoado,  o  dominicano  logo  abaixou 

os olhos: nem o mínimo vulto se enxergava no horizonte; 

e  neste  abaixar  de  olhos  viu  o  cego,  que  estava  ainda 

assentado sobre o fuste da coluna.  

Para  escapar  talvez  às  reflexões  do  seu  companheiro,  o 

reverendo bradou ao velho:  

"Ó  lá,  mestre  Afonso  Domingues,  bem  aproveitais  o 

soalheiro! não vos quero eu mal por isso; que um bom sol 

de  inverno  vale,  na  idade  grave,  mais  que  todos  os 

remédios de longa vida, que em seus alforges trazem por 

aí os físicos."  

Dizendo  e  fazendo,  o  reverendo  desceu  os  degraus  do 

portal, e encaminhou-se para o cego.  

"Quem  é  que  me  fala?—perguntou  este,  alçando  a 

cabeça.  

"Frei  Lourenço  Lampreia,  vosso  amigo  e  servidor, 

honrado mestre Afonso. Tao esquecida anda já minha voz 

em vossas orelhas, que me não conheceis pela toada?"  

"Perdoai-me,  mui  devoto  padre  prior:—atalhou  o  velho, 

tenteando  com  os  pés  o  chão  para  erguer-se,  no 

momento em que Frei Lourenço Lampreia chegava junto 

dele seguido do seu confrade Frei Joanne, procurador do 

mosteiro:—perdoai-  



 

me



!  Foi-se  o  ver,  vai-se  o  ouvir.  Em  distância,  já  não 

acerto a distinguir as falas."  

"Estai  quedo;  estai  quedo,  mestre  Afonso:—disse  Frei 

Lourenço, segurando o cego pelo braço:—O indigno prior 

do mosteiro da Vitória não consentirá que o mui sabedor 

arquiteto  e  imaginador  Afonso  Domingues,  o  criador  da 

oitava  maravilha  do  mundo,  o  que  traçou  este  edifício 

doado  pelo  virtuoso  de  grandes  virtudes  rei  D.  João  à 

nossa  ordem,  se  levante  para  estar  em  pé  diante  de 

pobre frade..."  

"Mas  esse  religioso—interrompeu  o  cego—é  o  mais 

abalizado teólogo de Portugal, o amigo do mui excelente 

doutor  João  das  Regras,  e  do  grande  Nun’Álvares,  e 

privado e confessor d'el-rei: Afonso Domingues é apenas 

uma  sombra  de  homem,  um  troço  de  capitel  partido  e 

abandonado no pó das encruzilhadas, um velho tonto de 

quem já ninguém faz caso. Se vossa caridade e humildosa 

condição vos movem a doer-vos de mim e a lembrar-vos 

de  que  fui  vivo,  não  achareis  n'isso  muitos  de  vossa 

igualha."  

"De  merencório  humor  estais  hoje:—disse  o  prior 

sorrindo.—Não  só  eu  vos  amo  e  venero:  el-rei  me  fala 

sempre de vós em suas cartas. não sois cavaleiro de sua 

casa?  E  a  avultada  tença  que  vos  concedeu  em  paga  da 

obra  que  traçastes,  e  dirigistes,  em  quanto  Deus  vos 

concedeu vista, não prova que não foi ingrato?"  

"Cavaleiro!?"—bradou  o  velho—"Com  sangue  comprei 

essa  honra!  Comigo  trago  a  escritura."—  Aqui  mestre 

Afonso,  



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puxando com a mão tremula as atacas do gibão, abriu-o e 



mostrou duas largas cicatrizes no peito.—"Em Aljubarrota 

foi  escrito  o  documento  a  ponta  de  lança  por  mão 

castelhana:  

a essa mão devo meu foro, que não ao Mestre d'Avis. já 

lá vão quinze anos! Então ainda estes olhos viam claro, e 

ainda  para  este  braço  a  acha  d'armas  era  brinco.  El-rei 

não  foi  ingrato,  dizeis  vós,  venerável  prior,  porque  me 

concedeu  uma  tença!?—Que  a  guarde  em  seu  tesouro; 

porque ainda às portas dos mosteiros e dos castelos dos 

nobres se reparte pão por cegos e por aleijados."  

Proferindo estas palavras, o velho não pode continuar: a 

voz  tinha-lhe  ficado  presa  na  garganta,  e  dos  olhos 

embaciados  caíam-lhe  pelas  faces  encovadas  duas 

lágrimas  como  punhos.  A  Frei  Lourenço  também  se 

arrasaram  os  olhos  d'água,  Frei  Joanne,  esse  olhou  fito 

para  o  cego  durante  algum  tempo  com  o  olhar  vago  de 

quem  não  o  compreendia.  Depois  a  ideia  da  tardança 

d'el-rei e da tardança do auto, que entrando pelas horas 

de  cear  e  dormir  iria  fazer  uma  brecha  horrorosa  na 

disciplina  monástica,  veio  despertá-lo  como  espinho 

pungente.  Começou  a  bufar  e  a  bater  o  pé,  semelhante 

ao corredor brioso do livro de Job e da Eneida. Entretanto 

o  arquiteto  havia-se  posto  em  pé:  um  pensamento 

profundamente  doloroso  parecia  reverberar-lhe  pela 

fronte  nobre  e  perturbada,  e  houve  um  momento  de 

silêncio. Por fim segurando com força a manga do hábito 

de Frei Lourenço, disse-lhe:  


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