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Estudos de Religião, Ano XXII, n. 35, 137-157, jul/dez. 2008

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Jacó, homem íntegro: reflexões exegéticas sobre Gênesis 25.19-34

Resumo


Em Gênesis 25.19-34 temos a introdução ao ciclo narrativo dos caps. 25"36, sendo, pois,

semelhante a 11.27"12.9; 12.10-20, em relação aos caps. 12"25. Aí se mencionam con-

teúdos similares ao cap. 27. As duas breves narrações em questão (25.19-26; 27-34)

apresentam-nos Esaú e Jacó no contexto de suas origens familiares. A redação desta

parcela de introdução deve ser de tempos próximos ao exílio, no exílio ou nos tempos

imediatamente posteriores; o conflito entre Esaú/Edom e Judá marca esta época, em es-

pecial no sul de Judá e no Neguebe. Estes nossos versículos fizeram-se necessários

possivelmente porque, à diferença do cap. 27, antigo e, em todo caso, pré-exílico, as

tensões entre ambos os povos tornaram-se conflituosas em torno das terras do sul

judaíta. Assim se entende por que a confrontação é núcleo (v. 23) da primeira “cena”

(v. 19-26)! E assim se entende também por que Jacó insiste de maneira tão metódica na

obtenção da primogenitura, enquanto Esaú pouco luta por si mesmo!

Palavras-chave:

 Gênesis 25.19-34 – Israel – Edom – Exegese – Narração.

Jacob, hombre integro: reflexiones exegéticas sobre

Génesis 25,19-34

Resumen

En Génesis 25.19-34 tenemos la introducción al ciclo narrativo de los caps. 25–36,

siendo, pues, semejante a 11.27"12.9; 12.10-20, en relación a los caps. 12–25. Ahí se

Jacó, homem íntegro: reflexões

exegéticas sobre Gênesis 25.19-34

Milton Schwantes*

*

Doutor honoris causa pela Universidade de Marburgo/Alemanha. Professor no Programa



de Pós-Graduação em Ciências da Religião da Universidade Metodista de São Paulo. Prin-

cipais publicações - Estudos e meditações em Amós,  Da vocação à provocação (sobre

Isaías). E.mail - milton.schwantes@metodista.br



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mencionan contenidos similares al cap. 27. Las dos breves narraciones en cuestión (25.19-

26; 27-34) nos presentan a Esaú y Jacob en el contexto de sus orígenes familiares. La

redacción de estos fragmentos introductorios debe ser de tiempos próximos al exilio, en

el exilio o en los tiempos inmediatamente posteriores; el conflicto entre Esaú/Edón y

Judá marca esta época, en especial en el sur de Judá y en el Negeb. Estos versículos se

hicieron necesarios posiblemente porque, a diferencia del cap. 27, antiguo y, en todo caso,

pre-exílico, las tenciones entre ambos pueblos se tornaron conflictivas en torno de las

tierras del sur judaíta. ¡Así se entiende porque la confrontación es el núcleo (v. 23) de la

primera “escena” (v. 19-26)! ¡Y así se entiende también el porqué Jacob insiste de manera

tan metódica por adquirir la primogenitura, mientras Esaú lucha poco por sí mismo!

Palabras clave:

 Génesis 25.19-34 – Israel – Edón – Exégesis – Narración.

Jacob, a fair man: exegetical reflections on Genesis 25,19-34

Abstract

In Genesis 25,19-34 we have the introduction to the narrative cycle of chapters 25-36,

which is accordingly similar to 11,27"12,9; 12,10-20 in relation to chapters 12-25.

Contents similar to those of chapter 27 are mentioned there. The two brief narratives in

question (25,19-26; 27-34) present us Esau and Jacob in the context of their family

origins. The redaction of these pieces of introduction must be from a period just before,

during or just after the exile; the conflict between Esau/Edom and Judah marks this

period, especially in Judea and the Negev. These verses of ours became necessary perhaps

because, different from chapter 27, which is ancient and in any case pre-exilic, the

tensions between the two peoples became conflictive over land in Southern Judea. Thus

one understands why the confrontation is the nucleus (v. 23) of the first “scene” (vv. 19-

26)! And thus one also understands why Jacob is so methodically insistent about

obtaining the primogeniture while Esau does not fight quite so intensely for himself!

Keywords:

 Genesis 25,19-34 – Israel – Edom – Exegetical methodology – Narrative.

Gênesis 25.19-34 assemelha-se a 11.27"12.20, à abertura das histórias de

Sara e Hagar, Ló e Abraão. Estes dois trechos abrem dois “livros”. Tais

aberturas nem sempre expressam o todo do que se lhes segue. Mas, em todo

caso, abrem novos conteúdos, o que também é o caso em 25.19-34; aqui

começam novos conteúdos, estes centrados em Esaú e Jacó.

No geral, tais inícios tendem a ser recentes. Diz-se que as introduções

são escritas no final. Seria também este o caso de nossa unidade? Em todo

caso, quem lê nossos versículos rapidamente percebe que lhes faltam vários

dos temas marcantes para as narrativas sobre Esaú e Jacó. Por exemplo, nem

se toca no tema dos filhos de Jacó, de Lia e de Raquel, que afinal têm em

vista as tribos israelitas. Também não se alude a que Esaú e Jacó vieram a ter




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relações fraternas (cap. 32). Pelo visto, nossa abertura para os caps. 26"36 é

seletiva em termos de temática.

Igualmente, não há de se esquecer que no cap. 27 o assunto de nossa

subunidade, em parte, é retomado. Mas o cap. 27 é bastante mais antigo que

a linguagem de nossa subunidade. Assim sendo, seus acentos de conteúdo por

igual são diferentes.

Vamos, pois, à tarefa. Afinal, para ir encontrando respostas na medida

do possível seguras sobre as questões arroladas precisamos ler os textos,

entender seus sentidos.

Tradução literal

1

19



E essas [são] as genealogias de Isaac, o filho de Abraão.

Abraão gerou Isaac. 

20

E era Isaac, filho de quarenta ano(s) ao tomá-la,



a Rebeca, filha de Batuel, o arameu de Padã-Aram, e irmã de Labão, o

arameu, para si, para mulher

2

.

21



E pediu Isaac a Javé especificamente por

3

 sua mulher: “eis, ela [é] es-



téril

4

”. E atendeu-o Javé; e Rebeca, sua mulher, engravidou. 



22

E lutavam

5

 os


filhos dentro dela, e ela disse: “Se [é] assim, por que isso

6

 [ocorre] comigo?”



E foi para consultar a Javé, 

23

e Javé lhe disse:



“Duas nações em teu interior,

 dois povos de teu ventre  se separarão.

E um povo será mais forte do que

7

 um



8

 povo.


1

Compare a tradução da Bíblia de Jerusalém, São Paulo, Paulus, 2002, p. 66 (2206 p.). Aqui

opto por uma tradução literal, mantendo inclusive a sequência da frase hebraica, que nor-

malmente inicia pelo verbo ao qual segue o sujeito, o que obviamente nos soa estranho.

2

Neste v. 20, estou mantendo a sequência da frase hebraica, o que a torna um tanto estranha



para nós. Mas há de ser bom dar-se conta de tais “in-apropriações” culturais que a expres-

são hebraica nos propõe.

3

Aqui le-nokah teria exatamente este significado: “especificamente por” (assim KBL [=



Ludwig Köhler e Walter Baumgartner, Lexikon in veteris testamenti libros, Leiden, E. J.

Brill, 1985, 1138 p.] p. 616b).

4

Veja 11.30, a respeito de Sara!



5

A raiz rss é seguidamente usada na profecia, onde configuram ações violentas contra pes-

soas socialmente espoliadas e agredidas. Aqui o verbo se encontra no hitpolel com o sig-

nificado de “empurrar um ao outro”.

6

A respeito de seh veja Wilhelm Gesenius e Ernst Kautzsch, Genesius’ Hebrew Grammar,



Oxford, Clarendon, 2. ed. 1966, 598 p. (= Gesenius-Kautzsch) § 136e: pretende dar des-

taque ao tema em foco.

7

Este qal de ’ms leva o sentido de “ser forte” (com a preposição min significa: “ser mais



forte do que”).

8

No sentido de “outro”.




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E o mais velho servirá ao mais novo.”

24

E se completaram seus dias de dar à luz. E, eis, gêmeos em seu inte-



rior! 

25

E saiu o primeiro: um avermelhado



9

, e todo ele como um manto de

pêlo

10

. E foi chamado Esaú. 



26

E depois saiu seu irmão. E sua mão [ia] segu-

rando no calcanhar de Esaú. E foi chamado seu nome Jacó.

E Isaac [era] filho de sessenta ano(s) quando eles nasceram.

 27

E ficaram adultos os meninos: e tornou-se Esaú homem hábil em caça,



homem do campo. E Jacó [tornou-se] homem íntegro, habitando tendas. 

28

E



amava Isaac a Esaú; eis que [apreciava] caça em sua boca. E Rebeca amava Jacó.

29

E cozeu Jacó um cozido, e entrou Esaú do campo, e ele [estava] esgo-



tado. 

30

E disse Esaú a Jacó: “Deixa-me engolir do vermelho, desse vermelho.



Eis que esgotado eu [estou].” “ Por isso, foi chamado seu nome Edom.” 

31

E



disse Jacó: “Vende-me antes

11

 tua primogenitura.” 



32

E disse Esaú: “Eis, eu

vou morrer; e o que aí me [servirá] uma primogenitura?” 

33

E disse Jacó: “Jura-



me, antes”. E lhe jurou e vendeu sua primogenitura a Jacó. 

34

E Jacó deu a



Esaú pão e cozido de lentilhas, e comeu, e bebeu, e levantou-se e foi, e des-

prezou Esaú a primogenitura.

Um novo “livro”

Os assuntos passam a ser novos; os caminhos de Sara já chegaram a seu

fim (cap. 23), por igual os de Abraão (25.7-11). Daqui para frente teremos

novos personagens: Esaú, Jacó e outros.

Aliás, no v. 19 é expressamente assinalado que teremos algo novo: “as

genealogias de Isaac”, as histórias da descendência de Isaac e de Rebeca.

Por isso, é bastante evidente que nossos versículos hão de ser uma in-

trodução; é a tarefa que lhes foi atribuída.

Aqui temos algo como um cabeçalho. As trajetórias dos personagens das

histórias anteriores tiveram, cada uma, seu encaminhamento: Hagar se fora para

o Egito; Ló e os seus, para Amon e Moabe; Sara e Abraão, para o túmulo;

Ismael e Isaac, para suas famílias. As cenas que agora se passa a apresentar têm

novos personagens, tais como Esaú, Jacó, Labão e outras e outros.

É verdade, mantêm-se Rebeca e Isaac, acentuadamente no cap. 26. Este

é um capítulo peculiar. A meu ver, é um tipo de “sobra”. Afinal, existem Rebeca

9

’admoni “ruivo”, “avermelhado” (< da raiz verbal ’dm “ser avermelhado” (no qal) > ’adam



“humanidade”!

10

Veja KBL p.15a e p.927b. – Há que considerar também que se‘ar significa “pêlo” e “ca-



belo”, e que se‘ar (a diferença está somente na vogal!) se aproxima muito de “Seir” (outro

nome para Edom, ao qual Esaú é relacionado; veja cap. 36).

11

Sobre este sentido de ka-yom veja KBL p. 373b. Veja v. 33.




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e Isaac, mas sem que uma coletânea própria lhes tenha sido dedicada. Ambos,

em parte, se encontram em meio aos caminhos de Sara e Abraão (18.1-16; 22;

24), e, em parte, aqui junto aos de Esaú e Jacó, contudo sem que se lhes tivesse

sido elaborada uma memória própria. Sim, nas histórias de Esaú e Jacó man-

têm-se tais “hóspedes”, como Rebeca e Isaac (cap. 26) ou Dina (cap. 34). Mas,

nem há que estranhá-lo em excesso, pois “as genealogias de Isaac” foram aco-

modadas a tradições do sul, de Judá. São, pois, de fato “hóspedes”, no caso de

judaítas, o que os difere de Sara e Abraão que são, eles mesmos, o próprio Judá!

Tais enfoques, porém, já nos levam para além de nossos versículos es-

pecíficos. Retornemos, pois, a eles. Continuemos tentando caracterizá-los.

“Manchetes”

Nestes versículos não são apresentados contos ou narrativas. O que

temos são alusões a conteúdos que ainda virão a ser detalhados. Nestes

versículos não se conclui ou se narra, mas se vislumbra, esboça, anuncia

aquilo que virá nos capítulos, no “livro” que se segue. Ora, em parte, o que

aqui se “anuncia” volta no cap. 27!

Quando designo estes caps. 25"36 de “livro”, penso na categoria do seper

hebraico: este conjunto literário menor ou maior com um tema específico.

Afinal, Gênesis 1"50, a rigor, não é um seper, mas um rolo. Um desses conjun-

tos literários que agrupam uma série de “livros” com temas similares, com

autonomia entre si. Neste sentido, designo nossos capítulos de seper (ou sefer).

Sendo, pois, um “livro”/seper próprio tem sua introdução ou cabeçalho

que prepara e descortina seus assuntos, sem, contudo, ir a grandes

detalhamentos, que é justamente a função das narrativas que se seguem.

Tento, pois, caracterizar os assuntos, as “manchetes” aludidas nesta

apresentação.

Comecemos por diferenciar os vv. 19-26 dos vv. 27-34, que têm certa

autonomia em relação aos primeiros, ainda que a estes estejam agregados.

Trata-se aí de duas unidades narrativas, digamos de dois “parágrafos”.

De início temos, nos vv.19-26, neste primeiro parágrafo, o título do

“livro”: “e essas [são] as genealogias de Isaac, o filho de Abraão” (v. 19a).

Coincide com os títulos de 2.4a (“genealogias dos céus e da terra”), 11.27

(“genealogias de Terá”) e 37.2 (“genealogias de Jacó”)!

Os vv. 19b e 20 remetem ao “livro” anterior, no específico a 18.1-16 (v.

19b) e ao cap. 24 (v. 20). Este v. 20, aliás, é um tanto “atropelado”, sem

redação lá muito cuidadosa. Em todo caso, estes vv. 19b e 20 parecem pres-

supor que já existe o livro de “Gênesis”, esta conexão entre as histórias de

Sara e Abraão e estas de Esaú e Jacó. Com estas anotações dos vv. 19b e 20

encontramo-nos, pois, no pós-exílio.




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Entendo que este v. 20 (“e era Isaac filho de quarenta ano(s) ao tomá-

la, a Rebeca… para si, para mulher”) obtém seu referente na frase final do v.

26 (“e Isaac [era] filho de sessenta ano(s) quando eles [= Esaú e Jacó] nasce-

ram”). Aliás, esta frase final do v. 26 há de pertencer à mesma redação do v.

20, sendo, pois, igualmente tardia. Em todo caso, estas duas frases sobre

Isaac, a do v. 20 e a do v. 26 final circundam o que se situa em seu meio, os

vv. 21-26a. Pode-se, pois, dizer que a menção de dados genealógicos, como

os dos vv. 20 e 26, enquadra, ao menos, um dos conteúdos relevantes nas

histórias de Esaú e Jacó.

Os vv. 21 até 26a poderiam ser chamados de fragmentos de narração.

Afinal, seu tempo verbal é narrativo (“imperfeitos consecutivos”: “e…”), se

bem que o conto não se desdobra. Permanece aos pedaços. No v. 21, o pe-

dido a Deus, a oração de Isaac, interrompe a esterilidade de Rebeca. Nos vv.

22 até 26a, o tema são os gêmeos. E este é tão vital que nós, leitoras e leito-

res, logo somos informados sobre eles, antes mesmo de Rebeca sabê-lo!

Enquanto Rebeca sofre sob as dores da gravidez, nós já sabemos tratar-se de

duas crianças. Mais que isso, ambas já estão a lutar as lutas de suas vidas,

como de modo destacado e em poesia o diz o v. 23! Este há de ser o

versículo central deste “parágrafo”. Os vv. 24 até 26a parecem explicar uma

vez mais as dores do v. 22: agora, novamente destacam que se tratava de

gêmeos, com marcantes diferenças entre um e outro. Os vv. 23 e 24-26a

parecem ser duas diferentes e paralelas respostas ao v. 22! No caso, a segunda

explicação poderia ser mais antiga que a primeira. Em todo caso, o v. 22

parece servir de encaminhamento para os dois enfoques, o do v. 23 e o dos

vv. 24-26a. A frase final do v. 26 encerra esta subunidade, como víamos, e

que iniciara com o v. 21.

O v. 21 referia-se aos meninos antes de nascer, à esterilidade de Rebeca.

Agora, os vv. 27-28 e v. 29-34 referem-se ao que segue, aos meninos enquan-

to “crescidos”. Este vem a ser nosso segundo “parágrafo”. Portanto, por um

lado a diferença entre os irmãos gêmeos vem se manifestando desde a gesta-

ção e seu próprio parto (veja v. 21-26a)! Mas, sua vida como pessoas “cres-

cidas” não altera as diferenças. Pois, por um lado, cada um dos meninos

mantém seus dons e suas peculiaridades, um como “hábil em caças” e outro

como “habitando tendas” (veja v. 27

12

). E, por outro lado “ e essa, sim, parece



ser a questão central nestes nossos versículos “, Rebeca e Isaac têm opções

12

Esta diferença que o v. 27 pretende expressar ainda carece de maior atenção. Veja as ex-



planações abaixo. Muitos comentaristas tendem a alterar o texto hebraico, o que obviamente

não convém!




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de amor diferentes em relação a seus dois gêmeos. Afinal, esta é propriamente

a razão dos conflitos a serem narrados. Neste sentido, este v. 28 é propria-

mente motivo para as cenas que hão de seguir!

Os vv. 29-34 emendam, pois, em v. 27 e v. 28! E é importante perceber

que este segundo “parágrafo” expressa a seriedade da situação de vida desses

irmãos gêmeos! Ora, o v. 27 “só” expressa as diferenças factuais da vida,

como estas, aliás, ocorrem entre irmãos e irmãs, quando cada qual segue

intuições próprias em sua vida e em suas tarefas. O v. 28 como que acelera

a crise; dá à diferença senso de confronto! O amor que põe mãe e pai em

desacordo faz-se fonte de discórdia!

Os vv. 29-34 o expressam e evidenciam. Neles há aspectos temáticos

próprios, como devemos destacar no delineamento dos conteúdos. Cá e lá,

inclusive, se lhes atribui autonomia em relação aos versículos anteriores, a v.

19-26(27-28)

13

. Mas, não convém que assim se proceda, porque estes



versículos finais do cap. 25 não têm autonomia de conteúdo

14

. Seu assunto



está integrado ao anterior. Assemelha-se, pois, aos “fragmentos” que consti-

tuem esta nossa unidade introdutória.

Os vv. 29-34 constituem uma cena. E nisso se assemelham aos vv. 19-

26. Lá também tivemos tais “fascículos”, tais breves cenas. A este estilo de

“manchetes” igualmente aderem, agora, os vv. 29-34. Neles não se esboça

uma narração completa, ainda que seu estilo seja narrativo, esteja no “imper-

feito consecutivo” hebraico (“e…”), mas se reúnem informações breves que

vão compondo este mosaico introdutório sobre Rebeca e Isaac e, em especial,

sobre Esaú e Jacó.

Tema dos vv. 29-34 é o cozido. De um lado há um marcante interesse:

é o que se dá com Jacó. De outro lado, Esaú está “esgotado” (v. 30). O in-

teresse prevalece sobre a fome, a necessidade! Esaú quer “engolir” (v. 30).

Para Jacó importa o que precede a este “engolir”; tudo depende do “antes”

(v. 31.33): a “venda” da primogenitura em troca do “cozido” (v. 29), “pão e

cozido de lentilha” (v. 34). E ele alcança seu objetivo, porque a exige em

troca, em “compra”. E também chega a seu alvo porque Esaú é pouco atento

13

Veja, Claus Westermann. Genesis 2. Neukirchen: Neukirchener Verlag, 1980. p. 501-507;



508-511 (720 p.) (Biblischer Kommentar Altes Testament, 1/2). Veja tradução ao inglês:

Genesis 12-36 - A Commentary. Londres: SPCK, 1986. 604 p.

14

Em sua origem, os vv. 27-34 podem ter tido tal autonomia. Esta narração pode ter sido



uma história autônoma sobre a relação entre caçadores e pastores, no sentido de uma

história sobre a origem das diferentes “profissões” (compare Gênesis 4). Isso é possível,

mas na sua atual versão nossos versículos já estão inseridos na introdução sobre Esaú e

Jacó. Veja a respeito Claus Westermann, Genesis 2, p. 508-509.




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ao tornar sua fome momentânea medida de todas as coisas (v. 32)! Afinal, ele

“desprezou a primogenitura” (v. 34)!

O assunto desta cena corrobora, pois, com o que o v. 23 já anunciara.

Os vv. 27-28; 29-34 não se encontram desconexos dos anteriores. Convém,

pois, que se os agregue, como segundo “parágrafo”, ao que inicia no v. 19.

Época de redação?

Temos, pois, algo como “manchetes” sobre Esaú e Jacó em 25.19-34.

Estas não são unidades literárias maiores, mas algo como “pré-anúncios” ou

fragmentos, ou ainda alusões a conteúdos, não sua explicitação narrativa, que,

aliás, justamente nesta nossa unidade dos caps. 26–36, tendem a ser minuci-

osos e longos. E qual seria esta época?

A questão, a rigor, é: estes nossos versículos introdutórios cabem nos

tempos próprios da redação das histórias de Esaú e Jacó? Afinal, julgo que,

com boa probabilidade, podemos dizer de modo geral que os caps. 26–36

provêm de tempos anteriores à destruição e anexação da Transjordânia e de

Israel/norte ao sistema de províncias assírias. Seria a introdução, isto é, 25.19-

34, também desses primórdios, ao menos antes da anexação da cidade de

Samaria, em 722 a.C.?

Convém que, antes de um posicionamento, voltemos a tentar caracteri-

zar nossa unidade. Dizíamos que seus dois “parágrafos” têm jeito de

somatória, de integração de informações diversas. Não me parece, pois, que

em tal súmula se devesse buscar um autor, mas uma redação. Tal redator ou

tais redatores não alinham uma narração, mas agrupam e agregam dados e

parcelas de informações interessantes para a função do trecho: dar a conhecer

alguns traços de quem passará a receber a atenção na literatura que segue.

Não se poderá dizer tudo e nem mesmo se deverá explicitar demasiadamente

em tais aberturas literárias, mas cabe-lhes aludir e indicar, principalmente

aquilo que interesse a esta redação.

E, de fato, ao ler deparamos com várias dessas informações, tão com-

pletas quanto fragmentárias. Há um título geral para a obra literária; expressa

algo, mas não muito em seu v. 19a. Seguem-se, nos vv. 19b-20, dados “bio-

gráficos”, genealógicos que, a rigor, provêm de uma perícope de outro “livro”,

de cap. 24, sobre Isaac e sobre Rebeca, pais e homenageados pelos persona-

gens deste novo seper: Esaú e Jacó. Daí resulta algo como uma narração ou

excertos de narrações nos vv. (20.)21-26a. Esta poderia parecer linear, mas

não é, como o v. 23 nos avisa, porque considera os personagens não indiví-

duos, mas povos, nações! As notas seguintes voltam a dar destaque a Esaú e

Jacó conquanto pessoas, indivíduos, com seus traços peculiares, em especial

o v. 27. Aí um, Esaú, é designado “hábil (em) caça”, e outro, Jacó, “homem




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íntegro”. Este tema da diferença física é realçado pelas opções diferentes de

pai e mãe em relação a seus dois filhos gêmeos no v. 28. Tal confrontação

retorna com destaque nos vv. 29-34, onde os gêmeos são marcados com

diferenças típicas e profundas. Portanto, quer-se destacar diferenças. De

acordo com nossos “fragmentos” de introdução, conflito e desavença seriam

a matiz das nossas histórias! Mas será realmente isso que se lê no que segue?

Quer dizer, nossos versículos pretendem dar um sentido ao que segue nas

“genealogias de Isaac”, mas estão eles realmente de acordo com a ótica deste

nosso seper/”livro”? Esta é a questão que, enfim, está em jogo quando se

busca localizar nossos dois “parágrafos”.

Ora, quem formula estes fragmentos como um cabeçalho conhece o

todo. Por conseguinte, não procuraria os autores de tais versículos em tempos

muito remotos. Pois eles conhecem aquilo que vão narrar. Situam-se, mais ou

menos, no final do processo de criação literária do “rolo”. Não quero dizer

que cada um dos conteúdos e cada uma das partes de nosso trecho sejam

recentes, mas que, por tendência, se esmeram em realçar aquilo que lhes

importa, em seus dias, quando constituem e consolidam o “livro”.

Penso recebermos inclusive um especial adjutório informativo destes

redatores para poder indicar em que tempos escreveram. Ora, Esaú e Jacó si-

tuam-se na Transjordânia. Relacionam-se com grupos sociais e tribais mais ou

menos vizinhos, dalém Jordão. Ao menos este é um de seus temários. Aliás,

este é o único destacado nestes nossos versículos introdutórios. Mas, no “livro”

este não é o único foco da atenção. Outros a ele se agregam, em especial a

relação de Jacó e Labão em terras norte-mesopotâmicas, em Harã, junto ao rio

Eufrates (caps. 28–31). Essa parcela temática aqui nem é aludida! Aliás, é

mencionada (v. 20), mas no caso de Isaac e Rebeca! O mesmo se dá com Betel

(veja cap. 28). Não há referência a ela! Igualmente estão ausentes do horizonte

temático narrações sobre o próprio território transjordânico, como as do rio

Jaboque ou das planícies em Manaaim. Enfim, as “manchetes” de 25.19-34 tão-

somente apresentam uma seleção dos assuntos dos caps. 26–36!

O que interessa mesmo a quem escreve estes nossos fragmentos é Esaú

e Jacó! Interessa na medida do conflito entre ambos, não na da solução de

seus desencontros (veja cap. 32)! E isso nos conduz a tempos pré-exílicos e

exílicos. Ora, nestes tempos dos séculos VI e VII, judaítas e edomitas foram

postos em radical confrontação, porque os edomitas, apoiando-se em assírios

e babilônios, expandem-se em direção ao oeste, ao Deserto de Judá e ao

próprio sul de Judá, forjando e consolidando uma voraz inimizade entre Judá

e Edom (veja nosso v. 30b! e a profecia de Abdias!). Nossa introdução de

25.19-34 respira estas experiências históricas, não transita por tempos mais

antigos quando a relação entre ambos era menos de lutas e mais de



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Milton Schwantes

complementação, ou, ao menos, quando Judá não era vítima de Edom/Esaú!

Nossa atual redação já está imersa nas desavenças entre os irmãos gêmeos.

Portanto, tendo a localizar nossos dois “parágrafos”, conquanto conjunto

literário, nestes tempos mais recentes, no século anterior ao exílio babilônico

ou em meio a ele!

Penso que se detecta facilmente tal linguagem recente, das imediações do

exílio, nos vv. 19 e 20 e também no v. 26b. É que ela tem sua origem no con-

texto literário de onde foram tomados. Conectam a nova narração a anteriores.

Mas também os vv. 21-22 têm sua origem nas novas formas de expres-

são que se vão fazendo típicas da Escritura. Penso nas orações e nos salmos

que justamente vão expressando não só, mas de modo peculiar, o senso re-

ligioso exílico, encabeçando, por isso, os Escritos, uma das literaturas típicas

do pós-exílio. Assim também me chama a atenção que os vv. 27; 28; 29 não

se encontrem em uma sequência muito acurada. Ora o v. 27, além de ser uma

anotação isolada sobre Esaú e Jacó, também é, claramente, o encaminhamento

para o que segue nos vv. 29-34. Enquanto isso, o v. 28 é de outra conotação

e tende a ter o cap. 27 em mente. Isso indica que esta tendência de nosso

cabeçalho de aludir a textos que lhe seguem é sua tarefa principal; estes

versículos querem introduzir, encabeçar, se bem que o façam para alguns

textos e não para outros, como já indiquei.

Contudo “ e é necessário que se agregue este “contudo” “ há aí também

memórias antigas. Há redatores mais recentes nestes nossos versículos, mas

neles nem tudo é redação exílica. Há também parcelas de textos que há tem-

pos estavam formuladas.

Indico para o v. 23, também porque ele, a rigor, nem cabe em seu con-

texto literário, pois, nele, trata-se de Esaú e Jacó como pessoas. No v. 23

enfoca-se a ambos como representantes de povos e nações em confronto.

Situa-se em tempos em que ambas, as descendências de Esaú e de Jacó, se

agruparam em Estados (a partir do século X a.C.

15

).

E, principalmente, aponto para os vv. 29-34, em que estamos em tempos



bem mais antigos, talvez os mais remotos de nossos versículos

16

. Acontece



que esses versículos têm suas peculiaridades em relação aos próprios conteú-

dos de nossa unidade de abertura da coleção. Tais especificidades realçam que

esses versículos são antigos. Aliás, convém que neste particular nos lembre-

mos de 11.27"12.9.

Podemos, pois, passar a dirigir nossa atenção aos conteúdos. Ao

direcionar-me por este caminho, convém recordar alguns marcos já estabe-

15

Claus Westermann, Genesis 2, p. 504, atribui o v. 23 a tempos de Davi.



16

Veja a respeito Claus Westermann, Genesis 2, p. 508-511.




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Jacó, homem íntegro: reflexões exegéticas sobre Gênesis 25.19-34

lecidos. Por exemplo, para os conteúdos será de destaque que eles, nesta

unidade introdutória de dois “parágrafos”, são seletivos; não introduzem o

todo das “genealogias” em questão, mas alguns de seus aspectos, significativos

para tempos exílicos e pós-exílicos. O desafio reside em pôr em diálogo os

conteúdos aqui mencionados com os tempos para os quais estão pensados.

Destaco o temário da primeira subunidade nos seguintes termos:

Irmãos gêmeos em luta e povos em confronto!

Conteúdos dos vv. 19-26

17

Esta primeira estrofe (v. 19-26) realça, em seu cerne, no v. 23, o conflito,



no caso entre povos. O v. 22 já se referia à luta. Por conseguinte, em seu

núcleo temático, a confrontação é o eixo, como a seguir iremos detalhar. Mas

vejamos primeiro os conteúdos postos ao redor destes núcleos temáticos.

É título de “livro” o que encabeça: “e essas [são] as genealogias de

Isaac” (v. 19a). E o que lhe segue (v. 19b-20) é como seu enfeite, retomado

no v. 26b. “Genealogias”, no hebraico, são a rigor “nascimentos” e “descen-

dentes”, pois na origem do substantivo (toledot, um plural) está o verbo “dar

à luz” (yld). Há que assinalar novamente para expressões similares à nossa,

não só em cabeçalhos de livros (11.27 e 37.2), mas também em capítulos com

listas genealógicas (5.1 e 36.1).

Assunto dos caps. 26–36 são Esaú e Jacó; mas conteúdo-símbolo são o

pai, Isaac e, de acordo com o v. 20, a mãe, Rebeca. Aliás, nas histórias de

Isaac, é dado destaque a Rebeca (cap. 24, 26 e 27, por exemplo). Isso há de

haver motivado seu destaque no v. 20. Enfim, aqui, neste ambiente, a vida de

filhos e filhas representa uma homenagem à mãe e ao pai. Nestes, aqueles se

sabem honrados.

Tal honra alcança Abraão, assunto de 25.1-18, o que terá influenciado

que haja sido destacado no v. 19. Tanto o título adiciona que Isaac é “o fi-

17

Menciono alguns comentários exegéticos especialmente interessantes para os conteúdos:



Hermann Gunkel. Genesis. 8. ed. Gotinga: Vandenhoeck & Ruprecht, 1969, p. 293-299

(509 p.); Gerhard von Rad. Génesis. Salamanca: Sígueme, 1988 (Biblioteca de Estudos

Bíblicos, 18); Hans de Wit. He visto la humillación de mi pueblo: relectura del Génesis

desde América Latina. Santiago: Amerinda, 1988, 289 p.; Karen Engelken. Frauen im Alten

Testament. Stuttgart: Verlag Kohlhammer, 1990, 255 p.; Athalya Brenner. A Feminist

Companion to Genesis. Sheffield: Sheffield Academic Press, 1993, 404 p.; Haidi Jarschel.

Gênesis 25 a 36: cotidiano transfigurado. São Bernardo do Campo: Universidade Metodista

de São Paulo, 1994, 164 p. (dissertação de mestrado); Haidi Jarschel. “Ventre, casa, terra

– Espaços da historiografia sexuada – Gênesis 25-36”, em RIBLA/Revista de Interpretação

Bíblica Latino-Americana, Petrópolis, Vozes, v. 23, p. 55-66, 1996.




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lho de Abraão”, quanto o v. 19b volta a realçá-lo. (Em ambas as passagens,

Sara fica “esquecida”, o que indica, ao menos, que estes redatores “ tardios!

“ têm sua atenção centrada no homem.) Para estes redatores/editores de

nosso cabeçalho, Abraão já é personagem de referência, nesse remoto pas-

sado. Isaac é seu continuador!

Aliás, o que este Isaac é, ele o é junto com Rebeca! O v. 19 “esqueceu”

mães e mulheres. O v. 20 as ressalta! Para entender Isaac, nosso redator

coloca Abraão de um, e Rebeca de seu outro lado! Em Isaac há espaço para

ambos. A frase que realça Rebeca é, em termos gramaticais, um tanto

atabalhoada, mas, enfim, é clara: este Isaac tem a marca de Rebeca. Aí está em

referência o cap. 24, mas também os vv. 27-34, nosso segundo “parágrafo”,

já o celebram: Rebeca tem opinião, posição e ação correspondente (veja cap.

27)! A que “Isaac” tem “para si, para a mulher” também o tem Isaac e seu

Jacó para si! Esta Rebeca introduz tensões nas “genealogias de Isaac”!

O v. 26b ainda é parte desta abertura de nosso primeiro “parágrafo”.

Realçaria que este versículo não diz que os irmãos gêmeos nasceram “para”

o pai Isaac, à semelhança do v. 19b. E também há que destacar que o casa-

mento de Rebeca e Isaac e o nascimento dos filhos estão separados por 20

anos! Mas, o v. 26b não dá explicitações maiores a respeito desses dados. Ora,

o que lhe interessa encerrar não são, a rigor, os vv. 19-20, mas os aconteci-

mentos que eles circundam: v. 21-22; 24-26a e, em especial, v. 23.

E, de fato, os vv. 21-22; 24-26a, de certo modo, podem ser lidos sem o

v. 23! Chama atenção que os vv. 21-22 (incluindo aí o começo do v. 23) vêm

marcados pela oração, mas que o mesmo não sucede com os vv. 24-26a. Os

vv. 21-22(.23) referem-se à gravidez, os vv. 24-26a à nomeação dos filhos. No

primeiro tema, a religião prevalece; no segundo, nem aparece!

Isaac “pediu” e “orou”. E o fez “especificamente por” (em favor de)

Rebeca. Trata-se, pois, de intercessão. O verbo hebraico para “pedir”/”orar”

praticamente só aparece em narrações, não em salmos. O conteúdo de pedido/

intercessão é uma queixa, um lamento sobre a condição de esterilidade de

Rebeca, com o que também fica explicado por que, depois de vinte anos de

casamento, não haviam nascido filhos a Rebeca e Isaac. (O assunto já esteve nas

histórias de Sara e Abraão, veja 11.30, e será retomado na história de Lia e Jacó,

Gênesis 29.31.) Javé “atendeu” a oração, ou, literalmente, “permitiu que se lhe

pedisse”; pois, afinal, a raiz verbal hebraica que traduzi por “pedir” (no qal

hebraico) é a mesma de “atender” (no nifal hebraico). Em consequência à

oração/intercessão e seu acolhimento por Javé, Rebeca “engravidou”.

Diante da esterilidade, desespero e lamentos marcaram a atitude de

Rebeca, no v. 21. Uma vez grávida, o sofrimento passa a ser outro (v. 22). É

que os filhos “lutavam”. Este verbo, no hebraico, expressa ações fortes, violen-



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Jacó, homem íntegro: reflexões exegéticas sobre Gênesis 25.19-34

tas e, em especial, brutais, como se mostra no uso profético da raiz em questão

(Oséias 5.1 e Amós 4.1). No “útero” de Rebeca a disputa entre “os filhos” era

desapiedada. Digo, no “útero”, porque o termo hebraico em questão (traduzido

no geral por “dentro de”) refere-se, aqui, especificamente a ele (confira v. 24).

Em todo caso, Rebeca não consegue dar conta dessa “luta”. Por isso protesta.

Digo protesta, porque é nesse sentido que entendo sua expressão “se [é] assim,

por que isso [ocorre] comigo?” (veja Jeremias 12.1-6; 17.12-18 e 20.7-18 e

Salmo 22). Ora, o lamento leva à consulta de Deus (veja Salmo 22.23: “me

responderás”!). Tal consulta poderia ocorrer junto a um santuário, mas por igual

pode dar-se junto ao “homem de Deus” (um levita ou uma profetisa ou um

profeta). E Javé responde, “diz”. Aqui, no v. 23, se usa “dizer”, porque os

conteúdos que seguem são de promessa. Mas antes de nos centrarmos nessa

resposta de Javé, no v. 23, que há de ser entendida como solução da inquietação

de Rebeca, no v. 22, darei atenção aos vv. 24-26a.

Afinal, a continuação narrativa apropriada aos vv. 21-22 não há de ter

sido o conteúdo do v. 23. De algum modo, no lugar do v. 23 deve ter havido

alguma resposta que se referisse diretamente àqueles “filhos” em luta. Mas o

que agora temos no v. 23 transcende em muito tal conteúdo mais imediato.

Portanto, vejamos antes os vv. 24-26a, que voltam a situar-se no patamar

narrativo dos vv. 21-22.

Nestes vv. 24-26a, o enfoque é diferente daqueles dos vv. 21 (a es-

terilidade) e v. 22 (a luta dos filhos). A atenção recai sobre os nomes dos

que agora são designados “gêmeos” (tomim). Também se alude brevemen-

te ao parto e se destacam as características diferentes de cada um, mas é

o nome o que importa.

Nascem “gêmeos”; no v. 22 eram chamados de “filhos”, pelos quais já

sabemos que eram dois (v. 23). Eles estavam “em seu interior”, no caso, no

“útero”. Aqui, o hebraico usa um termo distinto do usado no v. 22 (beten em

vez de qereb), sendo, porém, seu sentido o mesmo.

No parto (“e saiu”), cada um dos gêmeos apresenta características diversas

(v. 24-25). O primeiro (“o cabeça”) tem duas características físicas: “ruivo, e

todo ele como um manto de pêlo”. Esta característica de “ruivo” ou

“avermelhado”, a rigor, não aponta para Esaú (‘esav, no hebraico)

18

, mas para



o sentido do nome “Edom” (’edom), pois este nome, sim, tem a ver com a cor,

tanto terminologicamente quanto em razão das rochas avermelhadas que carac-

terizam as terras de Edom. Parece, pois, que o texto nem correlaciona o nome

Esaú, mas o outro e posterior nome das populações das montanhas em ques-

tão, os edomitas (’edom)! Mais uma vez, isso está a indicar que estes nossos

18

Falta-nos uma explicação etimológica do nome de Esaú!




Estudos de Religião, Ano XXII, n. 35, 137-157, jul/dez. 2008

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Milton Schwantes

versículos introdutórios são tardios – exílicos e pós-exílicos. A outra caracte-

rística a respeito de Esaú e/ou Edom, essa sim, poderá ser mais antiga: expressa

que seu corpo é especialmente peludo. A terminologia hebraica em questão

volta ao jogo de palavras: ora, “pêlo” (refiro-me à expressão: “todo ele como

um manto de pêlo”) é, em hebraico, se‘ar, que certamente representa um jogo

de palavras com Seir (se‘ir), um dos nomes dos territórios de Edom.

“Depois saiu seu irmão” (v. 26). A explicação de seu nome assemelha-se

ao que relaciona Esaú ao “avermelhado”. Pois, diz-se que “sua mão [estava]

segurando no calcanhar de Esaú”. Este “no calcanhar”, em hebraico, é ba-‘aqeb;

e assim teríamos uma alusão ao nome de ya‘aqob “Jacó”. Digo teríamos caso

esta explicação do v. 26 fosse antiga, o que visivelmente não é o caso, porque

em Oséias 12.3-4, do século VIII a.C.!, e em outras passagens ‘qb (e termos

similares) significam “enganar”. Por conseguinte, havemos de buscar uma ex-

plicação do nome de Jacó em sentidos mais antigos: entrementes nos é conhe-

cido o significado mais remoto do nome Jacó. Provém de ya‘aqob-’el no sentido

de “Deus queira proteger”

19

. Este significado mais remoto que o hebraico bí-



blico, em que o verbo ‘qb tinha o sentido de “proteger”, já era desconhecido

em tempos bíblicos. Por isso, os autores bíblicos ficam um tanto a vagar quan-

do tentam dizer o sentido de Jacó! O que temos em nosso v. 25 é uma signi-

ficação recente “ exílica ou pós-exílica “, de quando é esta nossa “introdução”.

E assim o primeiro “parágrafo” se fecha: v. 26a. Remete ao começo, aos

vv. 19b-20.

Falta-nos o v. 23, a resposta ou, em sua própria linguagem, o “dizer”. Aliás,

nesta sutil diferença do “responde”, que se esperaria no início do v. 23, para o

“dizer”, temos uma importante alteração de enfoque, pois, nos vv. 21-22 estáva-

mos na oração; com “dizer” passamos, a meu ver, à profecia. Pois, é com “dizer”

que a profecia começa suas palavras, em especial as que se referem ao futuro.

Não nos esqueçamos de que aqui, neste v. 23, está o centro do parágra-

fo, com poesia, em palavra/dito profético! Suas frases são três (não quatro!),

em repetições

20

. Penso que o auge está na terceira frase, por causa da menção



do “servir” do mais velho ao mais novo!

19

Veja KBL p. 390-391 (em especial, p. 391). Confira, ainda, Martin Noth, Die israelitischen



Personennamen im Rahmen der gemeinsemitischen Namengebung, Hildesheim, Georg

Olms, 1966, 260p. (= 1

a

 edição de 1928) (Beiträge zur Wissenschaft des Alten und Neuen



Testaments, 46); veja também Milton Schwantes. História de Israel – v. 1: Local e origens.

4. ed. São Leopoldo: Oikos, 2008, p. 66.

20

Quanto às repetições na poesia hebraica, confira meu ensaio: “Repetições e paralelismos –



Observações em um debate hermenêutico, exemplificado em Provérbios 10.1”, Revista

Eclesiástica Brasileira. Petrópolis: Vozes, v. 66, fasc. 263, p. 673-679, jul. 2006.




Estudos de Religião, Ano XXII, n. 35, 137-157, jul/dez. 2008

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Jacó, homem íntegro: reflexões exegéticas sobre Gênesis 25.19-34

Mas, antes de continuar nos procedimentos exegéticos, penso ser neces-

sário realçar, com destaque, que as histórias de Esaú e Jacó (nossos caps.

26"36) justamente não levam à ênfase que este v. 23 lhes dá. Seu encanto é

a cena de paz entre os irmãos, no cap. 32! Veja também o cap. 31! De jeito

nenhum se quer celebrar o serviço de “Esaú” a “Jacó”! De forma alguma!

Portanto, os redatores deste nosso parágrafo, em particular do v. 23, querem

atribuir esta significância às narrações. Este v. 23 é, pois, eminentemente, uma

linguagem sobre os conflitos exílicos e pós-exílicos com os edomitas!

Voltando, pois, a este v. 23, podemos ater-nos inicialmente à primeira frase,

ao v. 23a: “duas nações em teu interior, dois povos de teu ventre se separarão”.

Ao menos ainda temos aí palavras que recordam frases anteriores e

posteriores e delas devem ter sido tomadas, o que significaria que a poesia

deste v. 23 pode estar sob influência, ao menos em parte, do contexto lite-

rário imediato. Refiro-me a “em teu interior/útero” e “de teu ventre”, que se

encontram nos vv. 21-22. Mas os “filhos”/“gêmeos” que aí se encontram

entrementes são designados “nações” e “povos”/“tribos”. O primeiro dos

conceitos (goy) tem nitidamente um significado político como o nosso con-

ceito de “nação”. O termo ’umah aparece pouco; poderia tanto ser “tribo”,

“povo” ou até “nação”. Vê-se, pois, Esaú e Jacó conquanto países, monarqui-

as, como vieram a ser depois do século X a.C.; já não estamos em tempos

clânico-tribais. Ora, típico de tais entidades políticas é que “se separam”: cada

um por si e contra o outro, no que diferem radicalmente do tribalismo clânico

em que todos precisam colaborar uns com os outros, umas com as outras

para viabilizar a vida! Ainda que tais adversidades para a vida da descendência

de Esaú e Jacó sejam vislumbradas, o verbo que se usa nessa primeira frase

não é radical: tão-somente prevê que a vida de ambos “se abrirá”, “se sepa-

rará”. Nisso não se tem ainda signos de violência!

Também na segunda frase ainda não se chega à violência: “um povo

outro povo fortalecerá”. Aliás, uma frase de difícil tradução! Afinal, o verbo

“fortalecer” não tem ainda esta conotação de ação de um contra o outro. A

ênfase recai antes sobre o fortalecimento de um contra o outro.

O ápice está, pois, na terceira frase. Nela, tanto o verbo quanto o con-

teúdo são nítidos. Pois, nas duas frases anteriores, não se dizia quem será

mais forte ou como um povo fortalecerá o outro. Nessa terceira frase, o mais

novo se imporá sobre o mais velho, Jacó sobre Esaú. À luz disso há de se ter

que reinterpretar as duas anteriores, como sendo dois momentos preparató-

rios para o que se diz na última: a gradual confrontação em que passam a

viver Esaú e Jacó, no caso concreto, Judá e Edom. É possível. Mas, em todo

caso, a última frase anuncia, profeticamente, a superioridade de Judá (veja

Abdias!). E esta é expressa pelo verbo “servir”. Como entendê-lo? Ora, há



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Milton Schwantes

que afastar este termo “servir” de seu sentido feudal, porque é lá que ficou

marcado, no “serviço” que o servo feudal prestava a seu senhor e latifun-

diário. Este não é o sentido de “servo”/‘ebed. Seu significado também não

é, a rigor, “escravo”, como o de tempos gregos, neotestamentários e do im-

pério romano. Este “escravo”/‘ebed pressuporia escravidão de saque e de

compra, de apropriação de pessoas, de “peças”. Ora, um “servo”/”escravo”/

‘ebed é diferente, por exemplo, no Êxodo 1-15 (Deuteronômio 26.5-11) e no

exílio (em Dêutero-Isaías 42.1; 49.3, etc.). Um tal “servo”/”escravo”/‘ebed

é, na realidade, um trabalhador forçado, por tempo e tarefa

21

! É possível que



tal conceito sobre “servidão” temporária inclusive inclua o pagamento de tri-

butos exorbitantes (veja 1 Reis 12). Este é o “servir” do mais velho ao mais

novo, de Esaú a Jacó, em tempos exílicos de Edom a Judá.

Em tempos dos reinados de Davi e Salomão, em torno do ano 1000

a.C., Esaú/Edom foi conquistado e dominado (1 Reis 11.14-22). Mas não há

de ser a estes tempos que nossa introdução quer referir-se. Antes, ela diz

respeito, de fato, à situação em tempos exílicos ou pós-exílicos. E por estas

épocas nunca foi Edom/Esaú a parte dominada, mas a dominante. Por isso,

há que ler o v. 23 profeticamente: sua intuição é a da inversão do momento.

Aliás, é por isso que o v. 23 não é iniciado por “responder”, mas por “dizer”!

Pois, este é, como sabemos, o verbo da profecia!

O primeiro “parágrafo” está centrado na promessa profética da sobre-

vivência de Jacó/Judá em meio ao exílio, à dispersão, à fragilização, enfim, à

ocupação de parcelas de suas terras no Deserto de Beerseba e no sul de Judá

pelos edomitas. Nestes tempos, há que reacender a esperança, mas não por

último entender que Esaú/Edom também é irmão gêmeo! Nesta titulação

prevalecem as adversidades, mas nas histórias que seguem a cooperação e a

amizade irão se impor.

Jacó – íntegro! – Conteúdos dos vv. 27-34

No segundo “parágrafo” (v. 27-34), “os meninos” são adultos. O ver-

bo hebraico (gdl) expressa este “tornar-se grande/adulto”; prefiro traduzi-lo

aqui nestes termos, também porque a palavra hebraica para “menino”/na‘ar

caracteriza uma pessoa já adulta. E é o que combina com o todo de nossa

cena nos vv. 27-34. Esaú já é “homem”/’ix (v. 27).

21

Veja Carlos Arthur Dreher. O Cântico de Débora (Juízes 5) – Conflito social e teologia



num episódio da História de Israel. São Leopoldo: Escola Superior de Teologia, 1984, 178

p. (dissertação de mestrado); Maurice Godelier. Godelier – Antropologia, editado por

Edgard de Assis Carvalho e coordenado por Florestan Fernandes. São Paulo: Ática, 1981,

208 p. (Coleção Grandes Cientistas Sociais, 21); Ciro Flamarion Santana Cardoso. Socie-

dades do Antigo Oriente Próximo. São Paulo: Ática, 1988, 92 p. (Série Princípios, 47).



Estudos de Religião, Ano XXII, n. 35, 137-157, jul/dez. 2008

153


Jacó, homem íntegro: reflexões exegéticas sobre Gênesis 25.19-34

Isso significa que este já é o terceiro (ou quarto) momento de vida, em

que se enfoca os irmãos gêmeos. O primeiro fora quando ainda estavam em

gestação (v. 22-23). Depois foram enfocados como recém-nascidos (v. 24-

26a). E agora, nos vv. 27-34, como jovens adultos. A rigor, o v. 23 alcança-

os em sua trajetória adulta e de nação, se bem que em termos proféticos, pois,

de fato, ainda nem tinham nascido de acordo com este v. 23.

Na vida desses gêmeos adultos percebe-se, nos vv. 27-28, seu perfil de

vida, um distinto do outro, aliás como sói acontecer nas famílias. Um dos

assuntos muito comentados nas famílias é justamente este: como filhas e

filhos saem diferentes!

Esaú é um “homem”. Penso que isso se refere à sua condição social:

“homem” também indica que se tratava de pessoa livre, integral, na socieda-

de

22



. O mesmo conceito aparecerá em relação a Jacó (v. 27b). Esaú é “hábil

de/em caça”. Este é seu “conhecer” (yd‘): prático e de sabedoria. Por isso, é

“homem do campo”, o que aqui significa que vive nos campos. Quer dizer,

neste caso, “campo” (sadeh) não designa a roça, para o qual o hebraico usaria

outros termos, mas os campos abertos.

Jacó também é um “homem”, no sentido sociocomunitário acima refe-

rido. Ele é “íntegro” em suas relações sociais (tam). Este é seu valor maior,

por estar mencionado primeiro. A seu ganha-pão refere-se a segunda carac-

terização: “habitando tendas”, o que aponta para seu trabalho no pastoreio.

Trata-se de um seminômade da criação do gado pequeno (ovelhas e cabritos).

É óbvio que a simpatia do redator está com Jacó, que é pastor como seu pai,

Isaac, e como seu avô, Abraão. Afora isso – e principalmente  – é “íntegro”!

Esta sua integridade há de referir-se à sua vida toda (cap. 32!).

Há marcante diferença no trabalho (v. 27). E esta ainda vai aumentada

pela postura diferente de pai e mãe (v. 28). O pai, Isaac, “amava” Esaú; tinha-

lhe afeição pessoal. O verbo em questão (’hb “amar”), ainda que não seja

muito usado no hebraico, é marcante para identificar as relações pessoais.

Agrega-se a esta afeição profunda de pai para filho ainda um detalhe peculiar:

o de Isaac “[gostar/apreciar] caça em sua boca”, caça esta provida por seu

primogênito Esaú. Já de Rebeca se diz que “amava” Jacó, sem que a isso, à

semelhança de Isaac, fosse agregado algum dado a mais.

Há que ler este v. 28 em relação ao anterior, o v. 27. Trata-se, pois de

um aprofundamento da caracterização dos irmãos gêmeos. São o que são no

22

Veja a respeito Ernst Würthwein. Der ‘amm ha’arez im Alten Testament. Stuttgart:



Kohlhammer, 1936, 71 p. (Beiträge zur Wissenschaft vom Alten und Neuen Testament, 69);

Tércio Machado Siqueira. O povo da terra no período monárquico. São Bernardo do

Campo: Universidade Metodista de São Paulo, 1997, 195 p. (tese de doutorado).



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Milton Schwantes

que fazem e na relação de outros (no caso, mãe e pai) com eles. De ambos

os versículos se consolida, pois, a abertura à cena que segue.

Os vv. 29-34 têm, sem dúvida, conotação de trecho antigo, certamente

o mais antigo desta introdução. Sua narratividade bem que poderia alcançar

tempos pré-tribais, contextos bastante históricos destes nossos seminômades

das estepes transjordânicas. Mas, enfim, para afirmá-lo não temos muito mais

do que sua redação singela.

Convém que inicialmente se olhe para algumas estruturações da lingua-

gem. Chama atenção, por exemplo, no começo e no final, a ênfase sobre

verbos de ações narrativas. No começo, no v. 29, são dois os verbos que

identificam Jacó (“esquentou”) e Esaú (“entrou… esgotado”). Desta

contraposição vive a cena! E, em seu final, os verbos abundam: Jacó “deu”;

e Esaú “comeu”, “bebeu”, “levantou-se”, “andou”, “desprezou”. Uma ação

(de Jacó) confronta cinco (de Esaú)! Aquela uma ação de Jacó no começo

(“esquentou”) continuou a ser uma (“deu”). Uma ação de Esaú (“entrou”),

adjetivada (“esgotado”), resultou em cinco, sendo seu ápice “desprezou”. Pelo

visto, nosso “fragmento” de história está bem construído! Além disso, há que

observar que no decorrer da cena temos duas falas de lado a lado,

introduzidas, meio monotonamente, por “e disse”. Estas falas são pares!

Nelas não está o auge do conto; seu auge está nas ações, particularmente nas

de Esaú! Ainda que o trecho seja antigo, sua arte é primorosa!

Vejamos, agora, as várias parcelas do texto, que, no caso, tendem a ser

seus versículos. Em cena são novamente colocados os dois personagens,

agora adultos (v. 29). Jacó precede. São visualizados em sua condição do

momento. Jacó prepara “um cozido”, ou literalmente “cozia um cozido”. Tal

repetição enfatiza que só fazia aquilo. Esaú “entra”. Vem da lida em “campo

aberto”, e ainda desfocado porque “esgotado” e “cansado”. Um está centrado:

só “cozia um cozido”, o outro está atabalhoado, dispersivo. Um está centrado

na ação; o outro, girando no esgotamento. A disparidade não poderia ser

maior. Ou: Esaú entra em cena para perder!

As palavras de Esaú levam a tônica de sua própria condição (v. 30). Pede

para “engolir do vermelho, desse vermelho”. Suas palavras vêm carregadas pelo

esgotamento, como ele mesmo expressa. E é assim! Ora, veja, ele, Esaú, quer

“engolir”. Quase se poderia dizer “devorar”! E ao tentar caracterizar o que é

isso com que quer saciar-se, não consegue ir além “de si mesmo”; define-o

como “vermelho, desse vermelho”. Nem parece comida! E, de fato, o hebraico

está empreendendo um jogo de palavras: é que o tal “vermelho” é, em hebraico,

’adom, que tem relação com ’edom/Edom. É como se Esaú estivesse a devorar

a si mesmo, a seu futuro (considere-se que para o texto Esaú é Edom; veja o

próprio v. 36b!). Portanto, a proposta de Esaú está desfocada, esgotada!



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Jacó, homem íntegro: reflexões exegéticas sobre Gênesis 25.19-34

Jacó, porém, está centrado; em poucas e exatas palavras (v. 32) leva seu

interesse ao ponto: “vende-me antes tua primogenitura”. Cansaço e dissabor –

nem contam. Nada disso vale. Só há um foco: a venda/compra da

primogenitura, quer dizer, dos direitos inerentes a ela! Isso precisa acontecer

“como hoje”, “já”, “agora”, “antes”. No caso e no v. 33, “vender” não é pro-

priamente por dinheiro; é antes “negociar” ou “trocar”. Poucas e claras palavras!

Volta Esaú (v. 32). E fala… Mas suas palavras mais são tolices que signi-

ficados. De cara, já se vê caminhando para a morte: “eis, eu andando para

morrer!” Haja exagero e confusão. Nada que uma comidinha não pudesse

solucionar. Como em seus exageros se vê a caminho da morte, de nada vale um

direito de primogenitura. Afinal, já que a morte se achega, melhor é lançar tudo

fora para viver. É, se o caso fosse assim sério. Se não fosse a confusão da hora.

Presa fácil este Esaú “esgotado”, conturbado (v. 33)! E, novamente,

pouquinhas e exatas palavrinhas: “jura-me, antes”. À frase já falta o objeto,

a razão! Para o redator, o decisivo é o juramento. Nele culmina o episódio.

Se Esaú jurar, o episódio está encerrado. E ele jura! O juramento consiste em

“vender a primogenitura”, quer dizer, trocar os direitos da primogenitura. O

assunto está encerrado. A comida sela a “venda”, no caso a troca. Tratava-se

de “cozido de lentilha” (veja v. 29) “ nas palavras de Esaú, de “vermelho”/

’adom. Agrega-se-lhe, agora, ainda o pão, como alimento complementar, no

geral parte de toda alimentação naquelas terras. O alimento foi diminuído,

mas especificado e aumentado.

Cinco verbos caracterizam, no final, o “engolimento” de Esaú e sua

atitude: “e comeu, e bebeu, e levantou-se e foi, e desprezou… a

primogenitura”. A ação de Esaú é, pois, completa, cheia. Dois verbos se

referem a seu “engolir”: “comer” e “beber”. Outros dois, às ações subsequen-

tes: “levantou-se” e “foi”, no caso foi embora. E a última, a de maior impac-

to: “desprezou a primogenitura”! Ele entrou de modo atabalhoado em cena

e saiu no desprezo!

Concluindo

Certamente, estes versículos introdutórios nos apresentam um enfoque

sobre “as genealogias de Isaac” (caps. 26"36). Neste enfoque, prevalecem luta

e disputa. Tais conteúdos de desencontro efetivamente fazem parte das

memórias de Jacó, Lia e Raquel. Mas seu alvo contínuo é a paz, o encontro,

a superação das desavenças. Neste sentido, a abertura está em tensão com os

conteúdos do livro! Aliás, no segundo “parágrafo” da unidade já nem se

menciona Javé!

O v. 19a remete ao todo dos capítulos subsequentes (cap. 26"36). E os

vv. 19b-26 compõem um, e os vv. 27-34 o outro “parágrafo”. O primeiro




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vem marcado pela genealogia (veja v. 19b e 20; v. 26b). O segundo lança seu

foco sobre um episódio, quando os gêmeos são adultos.

Dois assuntos principais estão justapostos nesta introdução: v. 19-26 e v.

27-34. Trata-se de dois “parágrafos” cujos assuntos estão interligados. Uma das

marcas de conexão reside em que se foca os gêmeos em sua gestação, em seu

parto, em seu ser adulto e, se destacarmos o v. 23, em seu porvir. Destaque

mereceu o que se deu quando ambos eram adultos (v. 27-34), porque a troca/

”venda” da primogenitura alterou significativamente a trajetória de ambos.

Mas os séculos VI e VII a.C., de fato, respiram ares de profundo

desencontro entre Israel/Judá e Esaú/Edom. Sob esta realidade em torno do

exílio é que nossos versículos terão sido escritos. O livro de Abdias não deixa

de ser um de seus vizinhos.

Porém, há aí também memória antiga, selecionada de dentro dos pró-

prios textos das “genealogias de Isaac” ou presente na memória dos sucesso-

res de Jacó, de Israel, na Cis- e Transjordânia.

Jacó recebe a atenção. Afinal, descendentes seus são os que redigem o

texto. Mesmo assim este Jacó não passa a herói. Há senso crítico a ele (veja

Oséias 12.3). Ainda assim, ele, Jacó, é, à semelhança de Abraão, um justo, um

“íntegro”. Como Rebeca, a personagem teologicamente mais destacada: dela

brota a busca a Javé em oração. Veja também cap. 27!

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