56 o que é mesmo um fato? Conceitos e suas conseqüências para o jornalismo Liriam Sponholz Resumo



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2642-Texto do artigo-5772-1-10-20100207
releases (cf. BAERNS, 1985; SIGAL, 1973; no jornalismo brasileiro, cf. PEREIRA, 2004; 
PERUZZO, 2005; RESENDE, 2003). Baerns (1985) constatou, por exemplo, que mais de 
80% das notícias políticas originadas por press releases no Estado da Westfália do Norte 
(Alemanha) baseavam-se em uma única fonte.
Neste cenário, a busca da realidade acaba sendo substituída por estratégias para 
tornar uma proposição credível. Uma delas é o princípio de ouvir os dois lados. Embora 
este possa servir como uma estratégia de averiguação, ao confrontar-se diferentes versões 
sobre um mesmo acontecimento, ouvir os dois lados se tornou uma forma de legitimar 


SPONHOLZ, Liriam. O que é mesmo um fato? Conceitos e suas conseqüências para o jornalismo. Revista Galáxia
São Paulo, n. 18, p. 56-69, dez. 2009.
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a falta de um empenho maior na busca pela realidade, dando origem a um “jornalismo 
declaratório” (cf. RUBIM E COLLING, 2006, p. 69)
1
.
Para não se comprometer com o teor de realidade de uma declaração sobre um acon-
tecimento que não conseguiu averiguar, o jornalista deixa de referir-se ao acontecimento 
X e constrói a notícia a partir da declaração de uma fonte. Ou seja, a notícia não é mais 
X, mas sim “A diz que X”, mesmo que X seja falso (TUCHMAN, 1993, p. 79). No dia 
seguinte, pode-se ler nos jornais que o prefeito rebateu a crítica do candidato da oposição 
de que há falta de leitos hospitalares na cidade. Isto não ocorre por limitações epistemo-
lógicas, ou seja, pela impossibilidade de conhecer a realidade: O número de leitos bem 
como a demanda por estes poderiam ser averiguados segundo critérios intersubjetivos.
Transformar a declaração de uma fonte em notícia, no entanto, só funciona se a fonte 
for classificada como competente. Competência tem pelo menos dois significados: 1) a 
fonte tem a capacidade, o talento ou o saber acumulado sobre algo ou 2) a fonte recebeu 
a tarefa de fazer algo, é responsável por isso. No entanto, dentro da rotina jornalística, os 
dois são reduzidos a um único significado. 
Assim, o chefe da polícia é uma fonte competente para fornecer informações sobre 
as investigações de um crime. Isto não significa necessariamente que ele seja um bom 
policial ou a pessoa mais indicada para fornecer as informações corretas, mas sim que 
ele é a autoridade responsável pelo caso (cf. FISHMAN, 1980). Neste contexto, recorrer 
a uma instância oficial (como por exemplo a polícia, a justiça, o parlamento ou o gover-
no) para confirmar uma informação representa uma outra forma de produzir veracidade. 
Em entrevista a esta pesquisadora, um jornalista, correspondente de um jornal de 
circulação nacional em Brasília, fez um comentário emblemático neste sentido:
Tem fonte que você sabe que não é tão competente em algumas áreas, mas que para 
aquela matéria específica, ela é uma fonte importante. Tem outras fontes que você sabe 
que pode recorrer para qualquer matéria e tem fontes que você vai botar em on (citação 
com identificação do informante, L.S.) só para dar um molho na matéria, porque você 
sabe que aquela pessoa não tem capacidade nenhuma de ter uma análise crítica sobre 
a situação. Acontece muito de você pegar líderes de partido, que você sabe: aquele 
parlamentar não vai dizer nada que preste. Mas eu preciso colocá-lo na matéria pelo 
cargo que ele exerce.

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