56 o que é mesmo um fato? Conceitos e suas conseqüências para o jornalismo Liriam Sponholz Resumo


a. O jornalismo produz/oferece fatos?  b



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2642-Texto do artigo-5772-1-10-20100207
a. O jornalismo produz/oferece fatos? 
b. Que tipo de fatos o jornalismo produz?
c. Como o jornalismo produz fatos? 
Como a resposta a cada uma destas questões pressupõe uma definição clara de 
“fato”, a primeira questão determina a resposta das demais. A primeira pergunta pode 
ser formulada das seguintes formas:
a. O jornalismo trabalha com declarações descritivas?
b. O jornalismo não trabalha com juízos de valor?
c. O jornalismo trabalha com proposições verdadeiras?
d. O jornalismo trabalha com proposições consideradas verdadeiras?
Da análise destas questões advém a resposta sobre o tipo de fatos com o qual o 
jornalismo trabalha e como o jornalismo trabalha com cada um destes tipos.
Com relação às declarações descritivas, faz-se necessário levar em consideração 
o processo de produção jornalístico. Na fase da reportagem, o jornalista trabalha com 
hipóteses e na segunda fase, com declarações.


SPONHOLZ, Liriam. O que é mesmo um fato? Conceitos e suas conseqüências para o jornalismo. Revista Galáxia
São Paulo, n. 18, p. 56-69, dez. 2009.
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Quanto à reportagem, Stocking e LaMarca (1990) analisaram o uso de hipóteses 
por repórteres norte-americanos durante a produção das reportagens e concluíram que 
81% delas são do tipo descritivo. Em um levantamento sobre os métodos de reportagem 
de jornalistas brasileiros e alemães, também obteve-se um resultado parecido: 67% das 
hipóteses desenvolvidas pelos entrevistados eram do tipo descritivo (SPONHOLZ, 2008). 
Isto significa concretamente que a maior parte das questões que estes jornalistas investi-
gariam seria do tipo “se o prefeito inaugurou escolas na sua gestão” (e não “se a política 
educacional do prefeito é boa”).
Jornalistas, no entanto, não se restringem a “fatos” nem na fase da reportagem, nem 
na redação. Seixas (2000) examinou a cobertura jornalística sobre a votação da emenda 
permitindo a reeleição para presidente da República em 1997 nos jornais brasileiros 
de circulação nacional. A autora aponta para a falta de clareza na separação entre de-
clarações descritivas (“fatos”) e juízos de valor. Assim, a Folha de S. Paulo noticiou que 
„a Convenção Nacional do PMDB, realizada ontem em Brasília, derrotou o governo de 
Fernando Henrique Cardoso ao aprovar uma recomendação contra a reeleição” (apud 
SEIXAS, 2000, p. 7). Pode-se avaliar neste caso intersubjetivamente se houve uma derrota? 
Até que ponto e com quais critérios?
Se neste caso, o teor “factual” é discutível, há outros em que Seixas constata clara-
mente o uso de declarações evaluativas e prescritivas, como por exemplo os “conselhos” 
dados no texto do jornal “O Globo”:
Na caça aos indecisos, o Planalto terá que centrar fogo nas bancadas de São Paulo, Minas 
e Goiás para aprovar a reeleição. Em São Paulo, reduto de Paulo Maluf, o PPB mostrou 
ser fiel a seu principal cacique e vai dar trabalho ao Governo: 44,4% da bancada de São 
Paulo vão dizer “não”, contra 31,7% a favor. O jeito vai ser investir nos que disseram 
não ter decidido, que são 11 dos 63 deputados ouvidos e nos quatro que não quiseram 
falar. (apud SEIXAS, 2000, p. 19) 
O estudo de Seixas aponta não somente para o fato de o jornalismo não trabalhar 
somente com declarações descritivas ou fatos (no sentido comunicativo), como também 
para o papel relevante dos juízos de valor no noticiário político.
A diferença nas definições daquilo que se denomina como fatos também traz conse-
qüências para os estudos científicos da área. A noção de fatos como o oposto de juízos de 
valor tem sido analisada dentro das ciências da comunicação sobretudo pelos chamados 
estudos de news bias (cf. entre outros DONSBACH, 2001; ROTHMAN, 1992). Nestes 
estudos, os pesquisadores focam nos valores do jornalista e veem a sua opinião pessoal 
como o principal obstáculo na mediação da realidade através do jornalismo.
O fato de não trabalhar unicamente com declarações descritivas, no entanto
não significa que jornalistas inventem aquilo que escrevem. Se, por um lado, uma 


SPONHOLZ, Liriam. O que é mesmo um fato? Conceitos e suas conseqüências para o jornalismo. Revista Galáxia
São Paulo, n. 18, p. 56-69, dez. 2009.
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correspondência entre a realidade e um juízo de valor não pode ser verificada, uma 
declaração descritiva não é necessariamente uma proposição verdadeira.
Como já foi discutido aqui, se uma declaração corresponde à realidade ou não, isto 
é um problema de verificação. Esta verificação é limitada tanto do ponto de vista episte-
mológico quanto por questões materiais bem claras no caso do jornalismo. O primeiro 
se refere à impossibilidade de se alcançar a verdade, já analisada exaustivamente por 
Popper (1984), restando somente a possibilidade de aproximar-se da realidade ao testar 
as próprias hipóteses ou suspeitas de forma cada vez mais rigorosa. 
Por este motivo, parece ser mais produtivo analisar se o jornalismo trabalha com 
proposições consideradas verdadeiras ao invés de discutir se elas são de fato verdadeiras. 
Enquanto a primeira questão se refere à veracidade, a segunda envolve um problema de 
verdade (cf. SIEP, 2000).
O problema da veracidade pode ser analisado de duas formas, dependendo de quem 
deve considerar as proposições verdadeiras, o jornalista ou o seu público. No caso do 
jornalista, uma resposta afirmativa seria dizer que o jornalista trabalha com proposições 
que ele supõe serem verdadeiras. No segundo caso, o público pressupõe que a propo-
sição é verdadeira.
Ambas as respostas abrangem problemas diferentes da mediação da realidade através 
do jornalismo: o primeiro fala da busca do jornalista pela realidade, ou seja, contém a 
ideia do empenho de buscar a verdade. Trata-se, portanto, de um problema de objetivi-
dade, de adequação à realidade (cf. SPONHOLZ, 2003). No segundo caso, o jornalista 
produz proposições para que o público as considere verdadeiras. Esta é uma questão de 
credibilidade (cf. SEIDENGLANZ E SPONHOLZ, 2008).
Indícios sobre até que ponto o jornalista se empenha em buscar a realidade são for-
necidos pelos estudos de news making (cf. entre outros Tuchman, 1993; Fishman, 1980) 
e as análises de determinados fatores de influência, como os estudos sobre as fontes 
jornalísticas (BAERNS, 1985; SIGAL, 1973). 
Segundo estes estudos, a investigação jornalística tem sido limitada pelas rotinas de 
produção de tal forma que a maior parte das notícias publicadas tem como origem press 

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