56 o que é mesmo um fato? Conceitos e suas conseqüências para o jornalismo Liriam Sponholz Resumo



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2642-Texto do artigo-5772-1-10-20100207
Os fatos no jornalismo
“Fatos, fatos, fatos” promete a revista alemã “Focus”, versão original da brasileira 
“Época”, nos seus filmes publicitários. “A verdade é como uma menina camponesa: é 
mais bonita sem maquiagem”, esclarece a revista (apud DOMBROWSKI, 1997, p. 39). 
Afinal, o que esta revista está prometendo? 
Em primeiro lugar, deve-se diferenciar entre fatos como matéria-prima e como pro-
duto do jornalismo. No primeiro caso, dizer que o jornalismo trabalha com fatos significa 
afirmar que ele trabalha com um recorte da realidade, com a perspectiva de um evento 
que serve como objeto de suas proposições. Neste sentido, Gomes (1993, p. 64) define 
notícias como textos dotados de sentido que falam de fatos (dimensão ontológica).
Genro Filho (1988) tem por sua vez uma postura indecisa com relação à existência 
dos fatos, definidos como “objetos das notícias”, como a menor unidade de significação. 


SPONHOLZ, Liriam. O que é mesmo um fato? Conceitos e suas conseqüências para o jornalismo. Revista Galáxia
São Paulo, n. 18, p. 56-69, dez. 2009.
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Eles seriam constituidos por um material objetivo, que existe independente do sujeito, 
mas ao mesmo tempo “sabemos que os fatos não existem previamente como tais” (GEN-
RO FILHO, 1988, p. 186). Isto se deve provavelmente à (con)fusão de dois conceitos 
diferentes de fatos – o de dados crus disponíveis no mundo exterior (ou realidade) e o 
do seu conhecimento.
Ao analisar os fatos como produtos do jornalismo, as definições ontológicas podem 
ser automaticamente eliminadas. A realidade produzida e oferecida pelo jornalismo ao 
seu público é a priori secundária. Voltando ao exemplo citado acima, a campanha pu-
blicitária da “Focus” revela mais sobre a função persuasiva ou de apelo no uso de “fatos” 
no jornalismo, do que sobre o conceito e sua relação com a verdade, como ela promete. 
Quando os editores da revista “Focus” prometem “fatos” para vender seus exemplares, 
eles se referem ao produto final do jornalismo. Embora o apelo possa levar (e provavel-
mente até vise) a uma equiparação do fato como aquilo que aconteceu com os “fatos” que 
a revista oferece, o que o leitor receberá é uma realidade secundária. Nenhuma notícia 
contém dados crus, mas sim proposições sobre a realidade. Por isso, Silva (2006, p. 25) 
define fato jornalístico como um texto formado por uma série de enunciados com valor 
proposicional sobre estados, dados e fatos da sociedade. 
Embora esta definição esteja correta no sentido de ressaltar o caráter de mediação dos 
fatos, ela não se ocupa com o tipo de relação (possível) entre uma proposição e a realidade. 
Tomando-se portanto em conta o nível de referência das proposições sobre a realidade 
(cf. Tabela 1), a discussão será sistematizada da seguinte forma:

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