56 o que é mesmo um fato? Conceitos e suas conseqüências para o jornalismo Liriam Sponholz Resumo



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2642-Texto do artigo-5772-1-10-20100207
beliefs (descritivos, evaluativos ou prescritivos) (ROKEACH, 1968, p. 113). Os fatos 
seriam os beliefs do tipo descritivo.
Voltando-se à frase inicial, pode-se dizer portanto que o ditado “contra fatos não 
há argumentos” exige um complemento para que possa ser entendido em sua pleni-
tude: contra fatos só há a possibilidade de verificação. Pela falta deste entendimento, 
aqueles adquiriram na linguagem cotidiana uma função de apelo, segundo a qual o que 
é chamado de “fato” passa a ser tratado como natural ou óbvio (cf. MORETZSOHN, 
2007). Os “fatos” de Aristóteles são um tipo de declaração, um ato comunicativo.
Se os fatos existem independentemente da comunicação, ou seja, se eles têm um 
status ontológico próprio, isto tem sido objeto de muita discussão e remete ao debate 
sobre a existência de um mundo exterior e a possibilidade de conhecê-lo. Ericson 
define fatos neste contexto como um artefato das práticas comunicativas: “Commu-
nication does not stand apart form reality. There is not, first, reality, and then, second, 
communication about it. Communication participates in the formation and change of 
reality” (ERICSON, 1998, p. 84).
A conseqüência lógica desta postura seria a de que não há um objeto para nos-
sas declarações, opiniões, avaliações. É plausível pressupor-se, no entanto, de que 
declarações sobre o mundo exterior o descrevem, o julgam, o classificam, mas não 
necessariamente o inventam. Para tornar isto claro: a palavra “água“não inventa o 


SPONHOLZ, Liriam. O que é mesmo um fato? Conceitos e suas conseqüências para o jornalismo. Revista Galáxia
São Paulo, n. 18, p. 56-69, dez. 2009.
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objeto água, mas sim o descreve (cf. BAUMANN, 2002). 
Ainda quanto à dimensão comunicativa, fatos podem ser definidos como o oposto 
de juízos de valor (WALSH, 1943). Nesta perspectiva, um juízo de valor é uma decla-
ração ou uma hipótese evaluativa, como por exemplo “João é um bom bombeiro”. Ela 
se diferencia de um “fato” não só por não descrever e sim julgar algo, mas também 
porque a) não pode ser verificada ou testada intersubjetivamente e b) não pode ser 
avaliada segundo a escala falso/ verdadeiro (cf. GADENNE, 2006).
No entanto, “fatos” ou declarações descritivas, assim como juízos de valor, não 
são neutros e podem expressar valores.
A expressão de valores por meio de declarações descritivas ocorre tanto através 
dos conceitos contidos nestas quanto do contexto (GADENNE, 2006). O primeiro 
caso ocorre quando uma declaração descritiva contém conceitos que antes podem 
até ter sido meramente descritivos, mas hoje são carregados de julgamentos como, 
por exemplo, “aidético” ou “terrorista muçulmano”. 
O jornalismo, assim como as ciências sociais, busca substituir conceitos como 
estes por termos descritivos que ainda não tenham sido “ocupados” por valores. Mesmo 
assim, é praticamente impossível abdicar de todos os termos da linguagem cotidiana 
que tenham um componente de valor (cf. GADENNE, 2006). 
A segunda possibilidade ocorre na interpretação da declaração descritiva em um 
contexto. Assim, quando se diz “João chegou ao local do incêndio duas horas depois 
do primeiro pedido de socorro recebido pelo Corpo de Bombeiros”, esta declaração, 
embora descritiva, também expressa um julgamento. 
No jornalismo, declarações descritivas são até mesmo utilizadas propositalmente 
para expressar valores de forma mais persuasiva. Kepplinger explica este potencial de 
persuasão ao afirmar que „no conflito publicístico em torno do aborto, a constatação 
de que embriões de três meses são sensíveis a dor é muito mais eficiente do que a 
afirmação de que aborto no terceiro mês de gravidez é assassinato“ (KEPPLINGER, 
1994, p. 222). 
Em resumo, “fato” pode ser definido de maneiras diferentes, de acordo com o 
nível de referência (realidade ou proposição sobre a realidade), seu status ontológico 
ou epistemológico ou a sua função comunicativa (cf. tabela 1). Tais definições não se 
referem necessariamente ao mesmo objeto, de forma que independem uma da outra. 
Assim, uma declaração descritiva não é necessariamente verdadeira, ou seja, 
nem sempre corresponde à realidade. Para tornar isto claro, a declaração “A casa 
está pegando fogo” pode ser falsa. Em alguns casos, estas definições são até mesmo 
incompatíveis. Uma proposição sobre um acontecimento (definição epistemológica) 
não pode ser o acontecimento em si (definição ontológica). 


SPONHOLZ, Liriam. O que é mesmo um fato? Conceitos e suas conseqüências para o jornalismo. Revista Galáxia
São Paulo, n. 18, p. 56-69, dez. 2009.
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Tabela 1 - Fatos e suas Definições.
Evidentemente, a origem destes conceitos tem raízes temporais e espaciais. No en-
tanto, esta discussão não pode ser feita aqui, pois prejudicaria a clareza da apresentação 
do objeto a ser discutido e ultrapassaria o objetivo deste artigo.

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