56 o que é mesmo um fato? Conceitos e suas conseqüências para o jornalismo Liriam Sponholz Resumo



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2642-Texto do artigo-5772-1-10-20100207
Definindo fatos
Fatos podem ser definidos tanto do ponto de vista ontológico, ou seja, daquilo 
que existe, como do ponto de vista epistemológico, daquilo que se conhece. A estas 
dimensões pode acrescentar-se ainda a dimensão comunicativa. 
“Fato” deriva do latim factum, particípio do verbo facere, que significa fazer. “Fato” 
designa portanto eventos ou acontecimentos que realmente aconteceram (Johnston, 
2004: 278), referindo-se ao seu status ontológico, e não a uma proposição.
Austin também entende os fatos como “alguma coisa no mundo”. Estes podem até 
ser objetos de uma proposição, desde que esta seja verdadeira, mas existem a priori. 
Analisando o desenvolvimento histórico do termo na língua inglesa, ele afirma até 
mesmo que é esta a concepção original:
“Fact” was in origin a name for “something in the world”, if we may take it that a past 
action or past actual event or occurrence is “something in the world”, and there is no 
reason whatever to doubt that it often still is so. (…) Any connexion between “fact” 
and “knowledge”, and still more between “fac” and “truth” (in particular the use of 
“a fact” as equivalent to “a truth”) is a derivative and comparatively late connexion. 
(AUSTIN, 1961, p. 112) 
Neste contexto, Langer (1933, p. 180), baseando-se em Wittgenstein, ressalta a ne-
cessidade de diferenciar entre a) a suposição de que o mundo real consiste de fatos e b) a 
de que uma proposição que copia a estrutura de um fato o expresse através da denotação 
direta dos seus constituintes nos respectivos constituintes da proposição. Uma declaração 
sobre uma coisa não pode ser a coisa em si. Assim como uma foto de uma montanha não 
é a montanha em si, uma declaração descritiva sobre um acontecimento não é o aconte-
cimento em si. Isto significa que toda proposição é uma figura, uma imagem de um fato, 
ou seja, algo mediado por um sujeito conhecedor. Esta proposição ajuda-nos a entender 
o acontecimento, mas não o duplica. Além disso, nenhuma proposição pode traduzir a 
realidade em todos os seus componentes, pois reduz a sua complexidade:


SPONHOLZ, Liriam. O que é mesmo um fato? Conceitos e suas conseqüências para o jornalismo. Revista Galáxia
São Paulo, n. 18, p. 56-69, dez. 2009.
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The confusion of existent things with their formulation in experience (...) has given 
rise to the idea that facts are both the actual constituents of reality, and the content of 
propositions (…) Events like things (…) can not be expressed, but only be referred to 
in a proposition. Facts are what propositions express. (LANGER, 1933, p. 184-186) 
Langer ressalta ainda que um fato é uma perspectiva de um evento. Tal perspectiva 
é expressa em uma declaração ou proposição, desde que esta seja verdadeira.
Walsh (1943) parte de uma concepção empirista para afirmar que a proposição 
sobre o fato nada mais é do que o seu equivalente epistemológico. Fato no sentido 
ontológico é a realidade, o ser, o dado bruto. Do ponto de vista epistemológico, o fato 
é “the acknowledgment of the reception of a content given to the volitional self from 
some source beyond” (WALSH, 1943, p. 649). 
O processo epistemológico de factualização inclui decisão, concretização, seleção 
e atualização. O fato, no sentido epistêmico, é o resultado da atualização da recepção 
dos estímulos vindos do mundo exterior. Ele decorre do processo ontológico de factu-
alização, que o precede lógica e temporalmente (WALSH, 1943).
Factualização epistêmica nem sempre resulta em uma equivalência do estímulo 
recebido ou dado cru em uma declaração ou proposição. Neste sentido, Walsh diferencia 
fatos no sentido epistêmico em primários e secundários, ou seja, entre uma proposição 
verdadeira, e uma proposição que se acredita ser verdadeira (WALSH, 1943, p. 650). 
A conseqüência desta visão do problema é que fatos (epistêmicos) podem ser falsos. 
Isto ocorre porque não há uma relação causa-efeito entre os fatos (dados crus) e 
as proposições sobre eles (cf. SILVA, 2006, p. 14). Isto impede, portanto, que se possa 
afirmar que a proposição sobre o fato seja o seu equivalente epistemológico, uma tra-
dução de dados crus em texto, como Walsh (1943) o faz.
O mais importante para a discussão proposta aqui é, no entanto, o fato como um 
tipo de declaração, um ato comunicativo. Daí advém o ditado atribuído a Aristóteles 
“Contra fatos não há argumentos” (KUHLMANN, 1999, p. 41). Esta declaração é fre-
qüentemente utilizada no jornalismo para “mostrar” que os fatos falam por si. A ideia 
– que assumiu um lugar central no jornalismo – é de que os fatos revelam a realidade 
em estado puro, sem a intervenção de um sujeito conhecedor (cf. MINDICH, 1998, p. 
107; SCHUDSON, 1977, p. 6). A frase de Aristóteles, no entanto, se refere originalmente 
a tipos de declarações diferentes, e não necessariamente ao status ontológico (o que 
existe) ou epistemológico (o que se conhece) dos “fatos”. 
Um argumento consiste na justificativa de uma afirmação, o que ocorre dentro 
de um processo comunicativo (KUHLMANN, 1999, p. 33). Nem toda afirmação exige 
uma justificativa. 
Partindo-se da teoria dos atos da fala, pode-se distinguir declarações assertivas ou 


SPONHOLZ, Liriam. O que é mesmo um fato? Conceitos e suas conseqüências para o jornalismo. Revista Galáxia
São Paulo, n. 18, p. 56-69, dez. 2009.
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representativas, diretivas, expressivas ou declarativas. Cada expressão da fala tem 
uma pretensão ou um objetivo diferente. Estas podem ser a verdade de constatações 
(declarações assertivas ou representativas), a correção de decisões práticas (como por 
exemplo no caso das declarações diretivas, dos conselhos ou orientações de ação), 
da veracidade ou sinceridade das expressões (declarações expressivas ou expressões 
de sentimentos), entre outras (KUHLMANN, 1999, p. 38).
Só declarações assertivas ou representativas (que serão chamadas aqui de des-
critivas) têm a pretensão de verdade. Ou seja, somente aquelas afirmações sobre o 
mundo exterior a nós podem ser avaliadas segundo a sua correlação com a realidade 
(cf. SEARLE, 1997, p. 58). Conseqüentemente, a única forma de refutar a declaração 
“A casa está pegando fogo” é através de verificação, e não de argumentação (cf. 
HABERMAS, 1981 I, p. 69). Já as frases “João pretende apagar o fogo” ou “João é um 
bom bombeiro” não são verificáveis, mas podem ser submetidas a um processo de 
argumentação. 
Encontra-se esta interpretação também em outras posições filosóficas. Popper 
diferencia neste contexto entre as funções descritiva e argumentativa da linguagem 
humana. Da primeira – segundo Popper – surge a ideia regulativa de verdade, ou seja, 
uma descrição que corresponde à realidade (POPPER, 2000, p. 53). Na psicologia 
social, esta discussão corresponde à sistematização dos diferentes tipos de tentative 

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