500 dias sem você



Baixar 0.66 Mb.
Pdf preview
Página6/38
Encontro01.08.2022
Tamanho0.66 Mb.
#24418
1   2   3   4   5   6   7   8   9   ...   38
500-dias-sem-voce-1
“Se foi amor, não importa quando, ainda será
outra vez.”
57º dia
A maioria das coisas em que acreditamos sobre relacionamentos vem daquilo
que lemos ou, sei lá, assistimos na sessão da tarde de domingo. Ninguém nos
puxa no canto e diz “Olha só, isso é ficção. Eu sei que te dá esperança, mas
não é real. A realidade exige muito mais esforço e paciência do que caberia
em uma mera trilogia.” E é pior ainda quando ouvimos as narrações de
amores perfeitos daqueles que estão próximos à gente. Mas nenhum deles
teria coragem de nos contar o que realmente passou pra poder encarar uma
vida a dois. Inclusive porque, honestamente, muitas dessas pessoas também
estão diariamente engolindo suas inseguranças, respirando fundo e dando
segundas, terceiras, quartas chances. E a gente só escuta a parte boa. Por isso
que se comparar aos outros é uma tremenda injustiça conosco, porque das
nossas histórias nós sabemos de tudo, não podemos ignorar a parte ruim. É
autoboicote.
Se você me quisesse, eu teria ficado. Se você me quisesse, eu teria respeitado
o seu tempo; eu não tenho essa pressa. Se você me quisesse, eu teria tido
paciência com sua insegurança, compreensão com suas falhas. Teria sido o
colo para seu pranto até torná-lo brando. E se chegássemos ao fim
novamente, ao menos, teríamos esgotado as chances de dar certo. Mesmo
errados, mesmo cansados. Sem desistência, sem reticência.
Não parece patético acreditar que aconteça de alguma forma especial? Que
pessoas estejam destinadas a ficarem juntas? Mas ninguém nos diz e, por
causa disso, ainda acreditamos que não está nas nossas mãos fazer acontecer.
Acontece que, embora nos exija por inteiro, compomos ainda só metade de
um desejo. Se um dos dois não se empenha, sequer enxerga o esforço do
outro. Quero dizer, quando uma pessoa quer terminar e a outra insiste, então


todas as suas boas intenções se tornam abuso. Deixa de ser carinho pra se
tornar hostilidade, invasão do espaço.
Sou um emaranhado de pecado, sonhos, traumas e recomeços. Me dou por
inteiro, dou tudo. Ou nada. Não acho que seja preciso durar, mas é preciso
valer a pena. Mas todos os dias quando eu acordo me dá um desespero por ter
que aguentar mais um dia inteiro. Você disse que não queria me perder, mas
agiu como se não se importasse em me encontrar. É terrível a sensação de
não saber o que foi real ou o que foi inventado.
Se você me quisesse, eu teria feito por ti o que ninguém jamais fez por mim.
Mas nem todas as promessas valem a pena quando temos que convencer
alguém a não partir. A gente tem que saber reconhecer quando não é mais
bem-vindo na vida do outro. Se não tem reciprocidade, o que resta pra
insistir? Convencer alguém a nos querer é, sobretudo, estúpido. Não é amor,
mas a falta dele. Se foi amor, não importa quando, ainda será outra vez.


“De que outra forma eu saberia que foi amor
se você não fosse saudade? Foi você. E depois
de você, amor não foi por mais ninguém.”
64º dia
Pra mim, nunca foi saudade. Foi você. E, depois de você, a saudade não foi
mais ninguém. Eu tentei me afastar, juro. Mas eu sabia que dessa vez seria
diferente, ia doer de verdade. Sabia que não ia conseguir te esquecer da noite
para o dia, que dividiria contigo meus sonhos mesmo quando a cama
estivesse vazia. Eu sabia que tudo estava prestes a mudar; a cor do céu, o tom
da música. Sabia que, se você me bagunçasse por dentro, eu levaria um
tempão para pôr cada coisa em seu lugar; a começar pelo coração que passou
a chamar de lar onde você estava. Eu sabia que, depois de você, eu teria
medo de me envolver novamente ou pior, medo de correr o risco de sentir por
outro alguém o mesmo que por você.
Não acho justo, sabe? Não foi destino, não foi sorte, não foi o tempo. Foi
você. Como eu poderia atribuir a qualquer pessoa o que você fez comigo? Eu
podia ter me afastado, eu sei, mas não quis. Vê se me entende: quando
alguém nos faz sentir medo pela primeira vez é exatamente dessa pessoa
quem precisamos, de quem nos desafia.
Enquanto a vida ensina a ser forte, é quem temos ao lado que nos ensina a
sermos corajosos. Depois de você, não sou mais a mesma pessoa. E nem ligo.
Não tenho vontade de saber onde eu estaria se não tivesse te conhecido, devo
quem sou a quem fomos.
Não me cabem arrependimentos. Na verdade, só gratidão. Eu amei, eu lutei e
eu sofri, mas no fundo, fiz tudo isso por mim, e não por você. Sempre quis
saber como era perder a cabeça por alguém, perder o sono e a vergonha.


Abraçar a intimidade de suas vidas em um só passo, preencher lacunas
inteiras de afeto e respeito e subestimar o espaço-tempo contido na
intensidade da distância. Foi uma escolha inteiramente minha, não nossa.
Pensando bem, talvez esse tenha sido o erro, faltou plural. Amor no singular,
se não for próprio, se conjuga com a dor. Mas, se quer saber, eu faria tudo de
novo. Aliás, eu faria tudo por só mais uma vez.
Se eu tivesse pensado em ti, lembraria de todas as vezes em que soube que
teríamos fim e te pouparia bastante tempo. Mas aí, também perderíamos
todos os beijos, as reconciliações e os apelos. Não me leve a mal, fui mesmo
egoísta. Eu te queria tanto para mim que transformei todo último abraço em
recomeço. Sei que passei do ponto, sou um exagero ambulante. Sempre fui.
Antes de você, eu confundia a solidão com a liberdade e, hoje, sigo em frente
em companhia das nossas lembranças, agora tão minhas. Não é que seja
melhor, mas é o mais perto que tenho de você. Acho que até já me acostumei,
sabe? De que outra forma eu saberia que foi amor se você não fosse saudade?
Foi você. E depois de você, amor não foi por mais ninguém.


“Pior do que a ausência é a insistência sem
reciprocidade.”
@BENDITACUCA


71º dia
Tem dias em que ainda acredito que não vai passar, mesmo contradizendo
tudo o que já vivi, a malícia do tempo e a veracidade da minha memória. Tem
dias que já se tornaram meses, e eu ainda te cito como se tivéssemos nos
falado ontem. Tem dias em que sinto vergonha por todos aqueles em que
pensei ter gostado antes de você. Nada se compara. A gente tem que se
acostumar a perder alguém antes de se preocupar em mantê-lo, porque a
decisão de partir não é nossa. A maioria das pessoas vai simplesmente passar
pela gente. Só devemos nos importar com aqueles que decidem ficar por nós,
independentemente do quanto seja difícil. Eu não sabia disso, agora eu sei.
Eu me afastei de você enquanto te amava, e sei que era amor porque a
distância não diminuiu o sentimento. Mas eu tive que escolher a mim, porque
pior do que a ausência é a insistência sem reciprocidade. Enquanto eu
continuo pensando em como estaríamos hoje, se você sente minha falta como
eu sinto a sua, se você se imagina nos melhores e piores momentos comigo
ao lado ou se você se lamenta por ter me perdido, minha vida está passando e
a sua está seguindo em frente. Sem mim.
Nunca senti uma sensação tão incômoda em toda a minha vida quanto a
saudade. Sério. É um aperto no peito tão forte, uma vontade desesperada de
sair correndo, de fugir daquilo, de fugir de você ou de mim e das
consequências que eu não quero suportar, de fugir das minhas escolhas.
Ninguém está esperando que eu me recupere, que enterre o passado e sacuda
a poeira de memórias já gastas. Ninguém vai me lembrar do tempo que eu
perdi enquanto aguardava o melhor momento para te superar. Eu tive que
começar de algum lugar, tirar forças de dentro de mim. E, sobretudo,
entender que terminar não é um fardo, e sim uma decisão.
Eu poderia estar com você, sim. Acontece que eu mereço muito mais do que
você tinha a me oferecer. Guardo a saudade no bolso e estampo um sorriso no
rosto. O amor não é como a maioria dos outros sentimentos. Tem o lado
ruim, aquele que dói e nos muda para sempre. Eu não sabia disso, mas agora
eu sei.



Baixar 0.66 Mb.

Compartilhe com seus amigos:
1   2   3   4   5   6   7   8   9   ...   38




©historiapt.info 2023
enviar mensagem

    Página principal