500 dias sem você



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500-dias-sem-voce-1
“Dar um tempo é adiar a decisão de ir ou de
ficar. Só maltrata a gente.”
43º dia
“Nós demos um tempo”, foi o que eu disse aos curiosos de plantão que
solicitaram um relatório de como estávamos. Pois é, eu menti. Só se dá um
tempo quando se esgotam as tentativas e a gente tenta preservar intacta a
lembrança daquele amor. Eu me dei conta de que dia após dia me agarrava a
um bom momento, em que qualquer faísca de carinho me acendia a esperança
de um recomeço, assim como transbordava em mim a frustração com uma
mera gota de desavença. Uma mágoa que no início não resistia até o final do
dia passou a me tirar o sono. Dar um tempo é um claro pedido de socorro ao
Universo para que tenha compaixão e alinhe nossos caminhos novamente
lado a lado. Mas o tempo não espera a gente se recuperar.
Dar um tempo é resistir ao fim, mas é preciso haver um desfecho para que
possamos nos reinventar. É imaturidade achar que podemos voltar a ser o que
éramos. Não só não podemos como não devemos. Temos que procurar
evoluir, nos redimir por nossos erros, consertar nossas falhas. Do passado só
nos serve o aprendizado. Que façamos por onde sermos melhores e
despertarmos o mesmo em alguém, mas que não tentemos nos manter iguais,
ainda que o igual seja bom. “Bom”, depois de um tempo, não é o suficiente
pra ninguém. Dar um tempo é dizer nas entrelinhas que é preciso descobrir
como lidar com a própria vida antes de incluir mais alguém.
Quando se dá um tempo é porque já se perdeu a paciência, a capacidade de se
colocar no lugar do outro, e não há mais nada pra dar. A gente prefere
acreditar que o tempo cura, que vai levar a dor embora assim como a trouxe.
Mas se todo desafeto é consequência, precisamos de um espelho pra nos
enxergar, e não do relógio pra sarar. O tempo se esgota, mas o amor não tem
prazo de validade. Se não podemos garantir um “pra sempre”, quem dirá que


uma pausa repentina que não deixa o disco arranhado. É ingenuidade
acreditar que assim não vai machucar tanto, que perder aos poucos é melhor
do que sair da nossa vida de uma vez. Dar um tempo, mas reprimir as
tentativas, é puro desperdício. Às vezes, é um ato de covardia de quem não
sabe como se despedir.
Em alguns casos, pode ser libertador, pois te dá a oportunidade de repensar as
suas escolhas, pôr a cabeça no lugar do coração e se perguntar para onde está
indo. Se a força de vontade for latente e recíproca, o tempo vai passar, mas o
amor vai permanecer intocável. Já em outros, é um capricho em que se espera
que algo surpreendente aconteça sem que seja preciso se esforçar para isso.
Como se fosse responsabilidade do destino alinhar seu fuso horário ao do
outro. Quando os ponteiros só marcam as mágoas a gente precisa ajustar o
passo para que o caminho faça sentido.
Dar um tempo é adiar a decisão de ir ou de ficar. Só maltrata a gente. Dói; e o
pior é que não sabemos quando a próxima foto, mensagem ou ligação vai nos
fazer voltar ao tempo em que éramos felizes. Só se dá um tempo quando
muito já foi dado a alguém que não soube aproveitar. Pensando bem, eu não
menti coisa nenhuma. Eu dei um tempo pra me enganar.


“Nem sempre acaba quando termina. Já
aprendi que alguns “adeus” são mais longos
que outros.”
50º dia
Vontade louca de fazer as pazes contigo e apagar essa merda de orgulho que
me inflama o peito. Que raiva eu sinto de mim agora! E de você. E de tudo no
mundo por não ser como poderia. Como eu queria. Dói, e o pior dessa dor é
que eu não quero suturá-la com ninguém. Quero deixá-la assim: aberta,
exposta. Do jeitinho que ela é, porque ainda é o mais perto que eu me sinto
de você. Vivo com minhas verdades entaladas na garganta. Eu queria um
palco, um picadeiro, o mundo inteiro para expor minha alma mutilada.
Não lembro o que eu estava assistindo antes de selar meus olhos com tuas
lembranças. Ou seriam criações minhas? Sei que estava tudo bem, tranquilo.
E eu sentia aquela paz que me rompe o peito, que me descontrola a falar a
qualquer pessoa com quem eu cruzar na rua que eu te encontrei, que você
existe. Talvez eu tenha mesmo inventado isso.
Acordei e você não estava ao meu lado, nada estava bem. Tentei me lembrar
do que antes me mantinha com esperança. Tentei me lembrar de onde eu
tirava forças. Não consegui. Procurei por alguma mensagem sua e não tinha,
uma ligação recente que não existia. E toda a rigidez que eu havia galgado, e
todo o sentimento que eu havia petrificado, eu vi se desfazer na minha frente.
Bem na minha frente; na tela impassível do meu celular que só me alerta do
tempo que faz que não nos vemos, das nossas fotos que se tornaram velhas,
da nossa música que nenhuma rádio ousa mais tocar. Guardo tudo.
Venho escrevendo pra ti de partes em partes. A cada dia, uma nova história.
Mas não importa o quanto eu escreva e quantos dias se passem até que elas


cheguem ao fim, serão sempre minhas, e não nossas.
Sabe, sempre que eu termino um relacionamento tem uma coisa que me
inquieta muito. Não sei ao certo dizer o que é e, às vezes, penso que seja
rejeição. Puro e claro sentimento de rejeição, de “menos um”, entende? Ou de
“quando vai chegar a minha vez?” Mas a verdade é que eu não consigo
definir o que seja. Nem por que está lá dentro, latente e ardendo. De uma
forma difícil de compreender, até mesmo de se sentir. Sinto angústia de
mudar algumas coisas. Como um adeus.
Mas eu não sei o que tínhamos, o tipo de relação que você me dava não me
saciava. Era muito pouco; não valia a pena. Por isso, as brigas, os choros, os
términos e o fim. Inevitável, sabia? Eu sabia.
Agora reprimo no peito a saudade. Ela é traiçoeira, sei disso também. Só
consigo me lembrar dos nossos bons momentos, da sua mania de lamber o
lacre do iogurte como se fosse parte do prazer de comê-lo. Do seu irritante
azar de sempre, sem exceção, desatar o lençol, luva da cama, simplesmente
por se deitar. E agora, vendo-a impecável, me desmorono em lágrimas a fim
de preencher seu vazio. Mas a melhor parte era seu cabelo bagunçado de
todas as manhãs, que denotava a rotina de nossas noites em claro.
Reprimo no peito a saudade. Ela é traiçoeira, sei disso. Por isso, me despeço
da tua lembrança mais uma vez. Quem sabe é a última. Eu me policio a dizer
qualquer coisa a seu respeito. Nem sempre acaba quando termina. Já aprendi
que alguns “adeus” são mais longos que outros.



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