500 dias sem você



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500-dias-sem-voce-1
“A gente se cansa de ter esperança, acredite.
Um dia, por causa de uma atitude que não foi
à altura de nossos sonhos, a gente desiste.”
30º dia
Estou escrevendo esta carta porque faz exatamente um mês que saí da sua
casa, e eu ainda lembro avidamente da nossa despedida. Eu ainda sinto uma
fisgada no peito toda vez que penso em você me abraçando, me pedindo
perdão sem nem saber por quê. O tipo de perdão que a gente implora à
própria consciência. O perdão embevecido de culpa. E você estava lá, com o
rosto colado ao meu, a respiração ofegante e o medo estampado na cara.
Você havia me perdido há tempos, aos poucos, aos gritos. Mas só agora via.
Essa situação é patética.
Eu, você e o mundo inteiro nos adaptamos às artimanhas do jogo da
conquista e cada vez que tentávamos ganhar um do outro nos perdemos de
nós mesmos ainda mais. Deixávamos de ser honestos um com o outro pra
calar as mentiras que talhamos no peito.
E sabe o que é pior? Eu não senti pena de você, mas de mim. Era eu quem te
esperava ligar na madrugada torcendo que quisesse me ver com qualquer
desculpa. Era eu quem que se doava por inteiro a ti; na cama, na alma, na
vida. Era eu quem engolia o choro pra te fazer sorrir, que não trazia os
próprios problemas à tona pra se dedicar a resolver os seus. Era eu aquela
pessoa que acreditava cegamente na importância da liberdade e escolhia estar
ao seu lado todos os dias. Era eu aquela pessoa que se deixou levar pelo
encanto de ser dois e desaprendeu a ser um. Aquela que, embora nunca
tivesse admitido, só queria a sorte de um amor tranquilo. Era eu quem te
esperou tanto, de tantas formas, em tantos planos, que se cansou. O tipo de
cansaço que não passa quando dorme. O cansaço das tentativas, da


insistência. Do apego. A gente se cansa de ter esperança, acredite. Um dia,
por causa de uma atitude que não foi à altura de nossos sonhos, a gente
desiste. Simples assim. E concretiza o ato com um suspiro brando. Decide
não viver mais à sombra do passado e, ainda que não queira aceitar, sente que
aquela história chegou ao fim. Sorte no jogo da conquista, azar no amor
verdadeiro.


“Amor é aquilo que a gente descobre quando
caminha ao lado de alguém. É, sobretudo,
parceria, e não só afeto.”
36º dia
Talvez demore mais que um mês, mas vai passar. Talvez me tire mais do que
a paciência e o sono. Talvez eu precise me afastar de tudo que me lembra
você, mas eu sei que vai passar. Talvez eu tenha que evitar qualquer assunto
que me traga a lembrança da sua voz em teimosia me chamando (e talvez eu
não consiga por algum tempo), mas um dia vai passar. Talvez, quando
acordar e me procurar, você se afunde no vazio da cama, mas vai se
acostumar. Talvez eu ainda tenha esperança de que seja você toda vez que
meu celular toca na madrugada, mas quando eu menos perceber, vai passar.
Tem dias que eu não consigo me lembrar porque acordo só depois de muito
tempo sonhando a dois e teu cheiro resiste impregnado ao lençol. Tem dias
que me perco cruzando vidas sem pedir licença e, sem me dar conta, faço o
caminho da sua casa. Tem dias que vomito as respostas que engoli pra
impedir uma discussão e percebo que sinto falta até de tê-las. Tem dias que
não me importo com quem você anda, para onde foi, com quem está, mas
torço de dedos cruzados pra que não me digam. Não posso me importar com
o que não sei.
Leio meu horóscopo, jogo cartas, decoro tua rotina e me apego aos
comentários de que teus olhos não desviavam de mim, mesmo quando seu
corpo inteiro me evitava. Já não sei há quanto tempo estou assim: esperando.
Esperando passar, esperando mudar, esperando aceitar e, por que não dizer?
Esperando você. Eu sei que vou superar, mas não sei se quero. Gostar de
você é tudo o que tenho de ti. No entanto, a cada dia percebo que amor não
deveria me consumir aos poucos, mas, sim, me preencher. Que não deveria


me deixar em um mar de angústia, mas em um mar de rosas. Que eu não
deveria ter dúvidas, mas confiança. E muita.
Talvez tivéssemos que ser mais do que fomos juntos e, mesmo assim, vai
passar. Talvez tudo tenha sido mesmo escrito e tenhamos sido rascunho ao
aguardo da arte final, mas eu sei que vai passar. Não temos como adivinhar
quem fica e quem passa, tampouco como impedir alguém de nos deixar.
Amor é a liberdade de ir e voltar quando quiser, mas merecer a estadia pelo
tempo que for. Nem sempre o que nos faz bem foi feito pra durar.
Amor não é aquilo que a gente cria enquanto diz gostar de alguém; isso é
apego. Amor é aquilo que a gente descobre quando caminha ao lado de
alguém. É, sobretudo, parceria, e não só afeto. Tem dias que a esperança me
leva a lugares onde o meu amor nunca andou. Talvez seja preciso parar de
procurar outras pegadas para seguirmos a trilha até o nosso próprio coração,
mas eu sei que um dia tudo isso vai passar.



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