500 dias sem você



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“Sentir saudades não é querer de volta”
476º dia
Vi você com outra pessoa ontem. Olhei bem para vocês, dos pés à cabeça.
Pensei em como me viam. Eu estava impecável, sabia disso. Quis sentir
raiva, te juro. Procurei um defeito pra me apegar. Tentei pensar que havia
uma certa rivalidade entre nós: passado e futuro frente à frente. Ou que essa
pessoa contigo estava me xingando mentalmente e que isso me daria um
motivo para odiar, mas não consegui. Não fazia o menor sentido. Eu sei que
dividimos a mesma boca, a mesma cama, a mesma família. Será que você
conta as mesmas piadas ou evita pra não ter a chance de lembrar de mim?
Será que dividimos o seu peito ou só havia espaço pra uma pessoa? Acho que
isso cria uma certa intimidade entre dois estranhos. Temos uma vida em
comum que sequer é a nossa.
Quis sentir raiva, mas tudo o que senti foi uma espécie de gratidão. Eu sinto
saudades de você, mas não te quero de volta. Desejo de todo o coração que
você esteja bem. Mas não te quero próximo a mim. Eu sinto, sobretudo,
alívio por ter saído de um relacionamento que me puxava pra baixo.
Estávamos desgastados demais. Eu precisava da chance de me resgatar, de
acreditar que eu merecia ser feliz por inteiro com alguém que não me
deixasse dúvidas. Alguém por quem o esforço não parecesse um fardo,
alguém que fizesse valer a pena. E isso só aconteceria quando eu decidisse
seguir em frente, respeitando o passado que tivemos, mas sem deixar que isso
me definisse. Eu não tinha porque sentir raiva de vocês. Não fazia sentido. Eu
estava feliz demais com a esperança pulsando nas veias, com aquela
plenitude de ter feito a escolha certa. Não tem como eu me importar com sua
felicidade, eu tenho a minha de volta. Eu estou em paz.
Sentir saudades não é querer de volta. É sinal de que a relação foi boa, apesar
de tudo. De que eu ainda preservo os bons sentimentos, o desejo de que dê
tudo certo na sua vida. De que o amor sobrevive depois do fim como uma


brisa suave que preenche as lacunas entre nós dois, e não como uma
explosiva atração. Amor é o querer bem. Mas, definitivamente, não é querer
de volta. Quando eu gosto, eu luto. Quando a paixão me arrebata, eu persisto.
Mas quando eu amo primeiramente a mim, eu só quero ter sossego. E desejo
que você tenha o mesmo.


“Algumas pessoas que aparecem em nossa
vida são ritos de passagem, vêm pra nos
preparar para alguém que realmente
merecemos.”
@BENDITACUCA


482º dia
Eu já tive muito medo de entrar em crise. Veja só, que bobagem! Muitas
vezes, associamos crises aos aspectos ruins da nossa vida, ao que nos deixa
pra baixo ou a uma fase que sonhamos que passe o quanto antes. Mas crises
também representam transformações e mudanças que podem ser construtivas;
tudo depende da nossa própria receptividade. Houve um tempo em que eu me
queixava muito e, por coincidência ou consequência, mais coisas ruins me
aconteciam. Hoje, eu consigo perceber que eu não era uma espécie de ímã
para a negatividade, mas uma lente de aumento.
Eu já perdi tempo demais tecendo dificuldades e, como era de se esperar,
terminei em uma teia de obstáculos. As coisas não mudaram
surpreendentemente pra melhor, mas eu mudei. Porque precisei mudar,
porque cheguei ao meu limite e decidi não aguentar mais um pouco, e sim
fazer diferente. Eu me desfiz das minhas convicções e abracei oportunidades
que teria evitado antes. Parei de dizer afirmações ao meu respeito – boas e
ruins – e passei a dizer mais “sim”. Eu me permiti. Falhei, errei, sofri, mas
vivi como nunca antes. Estive por inteiro com todas as pessoas com as quais
me relacionei, me dediquei 100% a trabalhos que sequer valiam a pena. Fui
pura intensidade. Ou insanidade. Ou os dois. Mas não deixei de ser nem uma
pontinha de mim em todos os momentos.
Sem dúvidas, sei como é difícil aceitar o que não conseguimos entender,
passar uma borracha em páginas que escrevemos a próprio punho num
esforço gigantesco e, ao mesmo tempo, completamente irrelevante, de se
tornar alguém ou ter, esquecer e perdoar alguém. Também sei como é se
convencer de que merece o melhor pra não perder a cabeça e se culpar pelo
que – ou por quem – não deu certo. Sei o que é recomeçar do zero, do meio e
do fim, e acreditar que não foi em vão, porque não pode ser em vão. Porque
tem que valer a pena. E, mesmo assim, sentir que não valeu.
Essa é minha forma de abraçar a crise, de dançar com ela, de fazer amor com
a crise. Fui a crise dos pés à cabeça e descobri como vencê-la dentro de mim.
Tudo mudou porque eu mudei. Entendi que algumas pessoas que aparecem


em nossa vida são ritos de passagem, vêm pra nos preparar para alguém que
realmente merecemos. Às vezes, damos importância demais a elas ou a
objetivos de curto prazo; o medo da rejeição e do fracasso nos impede de
enxergar além das dificuldades. Não conhecemos pessoas por acidente, não
enfrentamos obstáculos por acaso, tudo tem o propósito de nos ensinar, ainda
que seja a não repetir o erro. Porque nem a melhor das intenções é capaz de
justificar algumas coisas. E também precisamos aprender a aceitar isso.
Porque temos que tirar leite de pedra, enxergar o lado positivo das
dificuldades, pensar que poderia ser pior (embora eu deteste essa premissa) e
não nos “vitimizar”, porque, afinal, estamos todos no mesmo barco, não é?
Sei como é se acostumar com uma vida pelas beiradas, reconhecer seu
potencial e, ainda assim, compreender suas limitações.
Às vezes, a gente só precisa acreditar que merece o tal do final feliz pra não
se acomodar. Ninguém jamais alcançou a felicidade de braços cruzados e pés
firmes no chão. Receber a crise, aceitar o que não podemos mudar e
agradecer quando aprendemos a superar. Quando estiver difícil, seja
resiliente. Quando passar, seja grato.



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