500 dias sem você



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500-dias-sem-voce-1
“Eu aprendi a me aceitar: meu corpo, meu
rosto, meus gostos. Só eu entendo a bagunça
que carrego no peito. Não espero pela
aprovação de ninguém.”
284º dia
Eu tive que me recompor, sei disso. Foi como se toda a minha vida
começasse de novo naquele momento; já não lembrava quem eu era, o que
fazia pra me sentir bem, o que gostava de comer. Todas as minhas memórias
tinham o seu nome, minhas histórias se confundiam com as suas. Por isso
mesmo já cheguei a pensar que fôssemos um. Ledo engano. Se eu tivesse
sabido separar quem você era de mim, não teria me sentido metade quando
nos afastamos.
Eu conheço esse receio de que o ciclo recomece, o desespero contido de viver
em busca do final feliz e sempre dar de cara com inícios. A vontade de gritar
pro mundo: “Quando minha vez vai chegar?”. E de me perguntar: e se eu
tivesse saído de casa cinco minutos depois, e se eu tivesse sustentado meu
primeiro namoro até hoje, e se eu tivesse pintado o cabelo de vermelho…
Será que eu ainda estaria aqui? Quando foi que fiz do meu destino um
labirinto sem saída? “Já vi esse filme” é tudo o que eu penso a cada história.
Mas, então, percebo que já não confio com a mesma facilidade, não me iludo
com elogios falsos, não tento agradar quem não me acrescenta nada. Meu
ciclo de amigos está menor, porém indubitavelmente melhor. Eu aprendi a
me aceitar: meu corpo, meu rosto, meus gostos. Tenho a minha loucura, me
vejo do avesso, não me encaixo no correto. Recito falas ensaiadas do
rascunho de meu romance desfeito, apanho os sonhos que encontro pelo
caminho antes que endureçam. Só eu entendo a bagunça que carrego no
peito. Não espero pela aprovação de ninguém.


Nem sempre sei diferenciar a pessoa de quem eu preciso da pessoa que eu
quero ter, mas faço o melhor que posso. Quem vier terá que me aceitar por
inteiro; compartilho minha vida, sim. Mas me dividir? Não mais.
Nem sempre vou sorrir de alegria, nem sempre vou chorar de tristeza, mas
farei o que for possível para seguir em frente um dia de cada vez. A minha
maior motivação é o que tenho dentro de mim: minhas verdades secretas
sobre as razões que me levam a persistir. Temos que reconhecer nossos
defeitos, mesmo os piores deles, e aprender a nos perdoar. Então vou dormir
com a consciência tranquila, não porque venci o mundo inteiro, mas porque
todo dia enfrento meus monstros internos e ninguém sabe. Tenho que ser
gentil com os outros, respeitar mesmo o que não consigo entender. Cada um
sabe das batalhas que vence dentro de si.


“Depois que a gente entende a necessidade
da reciprocidade, fica mais fácil diferenciar
quem vale a pena de quem é perda de
tempo.”
@BENDITACUCA


291º dia
Parei de contar quantas vezes por dia decido te mandar uma mensagem e
perco a coragem quando vejo sua foto. E quantas vezes disco seu número e
pouso o dedo no ar antes de te ligar, mas desejo com todas as forças que o
Universo conspire para que esteja pensando em mim. Parei de listar seus
defeitos porque, ao invés de fortalecer sua ausência, isso fez com que eu me
acostumasse a eles e aprendesse a te aceitar.
A parte mais difícil é se conformar. Dói pensar que nem todo o esforço foi
capaz de manter alguém, que nem as mais sentimentais declarações fizeram
sentido para você. Mas depois que a gente entende a necessidade da
reciprocidade, fica mais fácil diferenciar quem vale a pena de quem é perda
de tempo.
Parei de dizer aos outros que ainda nos falamos para não ter que me justificar,
já que sequer sei por que insistia nisso. Parei de acreditar que ainda vamos
nos encontrar e ficar juntos de alguma forma; acho que antes disso acontecer,
eu mereço outra pessoa em seu lugar. Parei de me convencer que tivemos
algo especial, que você não foi só mais um número em minha extensa lista de
tentativas tolas.
É uma espécie de vergonha que se apodera da gente, primeiro dos erros mais
antigos, que depois vai se aprofundando nas discussões densas e nos
pensamentos que, quando foram ditos em voz alta, perderam a razão.
Sentimos vergonha não só de quem fomos, mas das pessoas por quem nos
submetemos a tanto e, por fim, das pessoas que nos tornamos.
Parei de tentar entender quando foi que paramos de dar certo; aconteceu aos
poucos ou de uma hora para outra? Parei de relembrar o quanto já fui feliz ao
teu lado; acho que desgastei minha memória, já não sei o que foi real e o que
foi criado. Eu parei de você, juro.
E se me vir na rua, por favor, não me pare. Tenho pressa de recuperar o
coração que já havia parado por ti.



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