500 dias sem você



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500-dias-sem-voce-1
“Mais vale estar só do que imerso em um
amor de faz de conta.”
262º dia
Uma coisa que ninguém me disse é que histórias de amor são uma grande
fábula, salpicadas de dúvidas compostas em vírgulas. Sendo assim, eu tinha
pressa.
Troquei meu cachorro quente de posto de gasolina por sua comida orgânica.
Minha manhã de ressaca no sábado pra assistir desenho animado e comer a
pizza congelada do dia anterior ao seu lado. Você preferia feijoada no
domingo e eu uma boa leitura na beira do mar, mas já haviam me dito que eu
não encontraria alguém que fosse exatamente tudo aquilo que eu queria, que
eu deveria me moldar, fazer concessões e me doar também. Talvez eu tenha
levado ao pé da letra, mas antes isso do que levar um pé na bunda, eu
pensava. Ignorei qualquer falta de afinidade, compatibilidade e objetivos em
comum. Para fazer dar certo era preciso mais emoção do que razão, eu
acreditava nisso.
E se você adorava, eu fazia o que quisesse de mim. Você me via como um
projeto, pronto pra ser moldado – e mudado. E o pior era que eu me
contentava em ser o fantoche com o qual você quisesse brincar. Chamava
isso de cuidado.
Mas não fui completamente vítima nessa história. Pra falar a verdade, eu
gostava mais do que devia de bater no peito e dizer que te tinha. Esse mútuo
sentimento de posse me fazia sentir ser parte de algo maior, algo melhor do
que já havia experimentado. Eu desfrutava o doce sabor da aceitação: ser um
casal. O termo composto me garantia a entrada em qualquer grupo social.
Levei um tempo pra aceitar que, na verdade, a minha primeira paixão foi pela


nomenclatura, pela fantasia que eu havia criado de que precisava de alguém.
Os seus planos para uma vida a dois não eram os mesmos que os meus. Eram
seus, eram você, e não eu. “Nós” não conjugava mais meu coração.
Sabe, eu jamais voltei a ser a mesma pessoa, mas tenho me tornado, até
então, uma versão melhor de mim: verdadeiramente livre. Eu me encontro a
cada esquina, em cada peça de roupa que havia escondido no fundo do
armário, na melodia das músicas que eu canto alto, mesmo em público. Não
me encabulo com os olhares de espanto por desfrutar de um jantar em minha
própria companhia. Estou aprendendo a me bastar. O que eu venho
descobrindo ainda não pode ser nomeado nem mensurado e, infelizmente,
tampouco dividido. É preciso ser vivido. Mais vale estar só do que imerso em
um amor de faz de conta.


“Sou livre para ser quem eu quiser, sem os
meios – e as metades – para justificarem meu
final feliz.”
269º dia
A ansiedade sempre foi meu calcanhar de Aquiles. O que quer que não fosse
como eu gostaria era engolido por uma avalanche de palavras que resumiam
um afogamento sádico de “foi melhor assim”. Quem, além de mim, poderia
me convencer disso, afinal de contas? Eu procurava conforto nas estatísticas
em que os outros se expunham e me esquecia de que nem toda margem de
erro é rasa.
Segui à risca o ditado que diz que um amor cura o outro. Emendar o coração
me parece ser melhor do que esperá-lo sarar. Eu tinha pressa. Me preocupava
tanto com o futuro que meu presente se tornava passado em uma fração de
segundos. Presunção demais para acreditar em frases de autoajuda e covardia
demais para admitir. Como resultado, me forcei a ter relações que não me
pertenciam com um modelo aprimorado de felicidade pairando sob meus
planos. Eu pensava que sabia o que estava fazendo e que meu equilíbrio
emocional caminhava na mesma velocidade dos meus passos largos. Ou do
meu desespero para te esquecer.
Não vou mentir. Depois que eu me acostumei a ter você, encarar a vida só foi
como enxergá-la unilateralmente. Meio cinza, meio termo. Às vezes, sinto
falta até mesmo de ter quem teime e discorde de mim. E a primeira sensação
pós-término não é tão libertadora quanto dizem. Eu não tinha a menor ideia
do que fazer com tantos pensamentos aleatórios que não podiam mais ser
compartilhados.
Era vazio. Eu acreditava que todo relacionamento era uma espécie de posse


de personalidade, gostos, opiniões; sem estar em uma relação, eu nada seria.
Então, o quanto antes, tentei outra vez. Importava-me tão pouco com quem
eu estava que não conhecia mais a mim. Eu já havia perdido o controle. Eu
tinha pressa e não sabia a hora de parar. Atropelava todo descontentamento a
dois com a certeza de que tudo – e qualquer coisa – era melhor do que ser
um. Relutava em acreditar que um coração inteiro se faz em milhares de
pedaços enquanto eu pudesse driblar o sofrimento.
Não sei dizer em que momento cruzei a tênue linha do cansaço sob o medo,
mas eu já não suportava me procurar em outros corpos. Em frente ao espelho,
só o que eu via era desespero. Se doar sem ver a quem não é o mesmo que
ceder por alguém. Um nos divide. Outro nos multiplica. O tempo deveria
passar em mim, e não por mim, porque, independentemente dos obstáculos, o
amor costuma vir para quem decide ficar. Não adianta se perder em tantos
abraços, atar nós e desfazer os laços se ainda se alimentam expectativas em
sentimentos efêmeros. Se nem eu sabia onde estava, como podia esperar que
o amor me encontrasse?
Agora ando com essa saudade de você para me lembrar porque foi bom, lado
a lado com a solidão para me lembrar porque acabou. Uma não existe sem a
outra e eu não existo sem as duas. Ter consciência de minhas fraquezas
sustenta minhas qualidades. Sou livre para ser quem eu quiser, sem os meios
– e as metades – para justificarem meu final feliz.


“Tive notícias suas ontem e, a princípio,
isso acabou comigo. Mas isso foi ontem.
Hoje, não. E se amanhã doer, vou repetir:
‘Hoje, não. Hoje eu vou cuidar de mim’.”
@BENDITACUCA


277º dia
Tive notícias suas ontem. Não pedi por elas, mas tive quando menos
esperava. Ironia do destino pra testar minha fé, aposto. Ontem aquela dor já
cicatrizada me formigou por dentro numa pontada fina e profunda que subiu
até o céu da boca, e eu contive um grito de socorro. Já tive vontade de
perguntar por você, mas só de pensar que estava feliz sem mim, paralisava.
Não era egoísmo, era medo de aceitar que você já tinha seguido em frente.
Já imaginei por horas a fio um reencontro nosso sem querer e decorei o
diálogo que nunca tivemos. Já desejei que você precisasse de mim pra
qualquer coisa, por menor que fosse, porque eu moveria o mundo pra realizar
por ti e talvez ganhasse você de volta pra mim. Já supliquei aos céus que
colocassem outras pessoas em minha vida e o Universo me ouviu, mas todas
elas eu comparei a ti e, aos poucos, perdi a esperança. Ninguém chegou tão
perto de mim quanto você. Talvez porque eu tenha te permitido.
Nunca magoei ninguém de propósito, assim como, diversas vezes, sei que
não tinham a intenção de me ferir também. É que eu sempre senti demais, me
doei demais. Não caibo em pessoas rasas; eu transbordo. Amor, pra mim,
sempre foi uma questão de profundidade: cair ou não de cabeça. E eu caio,
quebro a cara, me machuco, porém levanto, mesmo cambaleante, ponho um
pé depois do outro, ergo o peito e sigo em frente. Nem sempre consigo
manter o equilíbrio, mas não desisto de tentar.
E até ontem eu estava bem, eu juro. Encontrei o ritmo do meu caminhar,
perdi a pressa, decidi andar a favor do tempo e não esperar uma cura
milagrosa. Mas ouvir sobre você e, pior, perceber a forma como isso me
afetou me deixou na dúvida se havia te superado. E, sinceramente, eu acho
que não. No entanto, assim como você, eu fiz uma escolha. Dessa vez, por
mim. Doeu, confesso. Ontem eu tive a sensação de que estava perdendo a
chance, e talvez a última, de você. Mas entendi que nada entre nós havia
mudado, o que me martirizava era apenas a esperança que eu cultivava por ti.
Ontem eu morri um pouquinho por dentro porque andei engolindo meu
próprio veneno. Dei poder de mandar em minha vida ao meu coração e me


tornei refém do meu psicológico.
Tive notícias suas ontem e, a princípio, isso acabou comigo. Mas isso foi
ontem. Hoje, não. E se amanhã doer, vou repetir: “Hoje, não. Hoje eu vou
cuidar de mim.”



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