500 dias sem você



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“Se pudéssemos ser estranhos outra vez, eu
faria diferente. Mas não podemos. E eu sei que
se você voltar para a minha vida agora e me
machucar de novo, a culpa terá sido minha
por permitir sua entrada. É por isso que sigo
em frente.”
255º dia
Um dia desses pensei que a saudade fosse me matar. Ela me perseguiu a noite
inteira como um predador insaciável. Você não sabe o quanto foi exaustivo
reviver essa história até em sonho. Mas resisti e não te dei nenhuma pista de
como me senti. Por um lado, tive certeza de que não conseguiria fugir da
saudade por muito tempo, por outro lado, tive convicção de que já havia
escapado do pior. Cedo ou tarde eu iria esquecer, pois já não colecionava
nenhum fardo seu. Eu me achava livre de ti, como um rato engaiolado numa
roda se acha dono de si. Mas aí não sei o que te deu na cabeça e você veio
atrás.
Se pudéssemos ser estranhos outra vez, eu não teria pressa, não te
pressionaria a ser quem eu queria, mas sim quem você quisesse ser pra mim.
Se pudéssemos ser estranhos outra vez, eu teria te alertado para não me testar,
o tiro sairia pela culatra. Eu adoro um desafio. Eu teria te dito como você me
faz sentir e não teria fingido desinteresse. Se pudéssemos ser estranhos outra
vez, eu acreditaria em recomeço, em segundas chances, em páginas em
branco. Mas não podemos, porque eu ainda lembro como começou. Aliás, eu
ainda lembro porque terminou.
Toda vez que eu olho pra você eu sei por que te amo, assim como sei por que


te odeio. Eu não consigo esquecer nem qual é o seu sorvete favorito. Eu
mudei muito, você também, mas o sentimento não. Ele ainda coleciona
nossos beijos, ele ainda planta esperança por onde passa na fé de que você
colha em seguida. Se pudéssemos ser estranhos outra vez, eu faria diferente.
Mas não podemos.
Quando uma história termina mal acabada, deixa lacunas em branco que
preenchemos com nossas expectativas porque temos a sensação de que
poderíamos ter feito mais. E a cada vez que nos decepcionamos ou iludimos
com as relações seguintes, lembramos daquela – a que poderia não ter
acabado – pra nos apegar e até nos culpar por não termos dado certo com as
outras.
Imagina que, quando você é criança, tem seu desenho favorito. Naquela fase,
tudo tem um tom diferente, encantador. Você cresce e continua achando que
ama aquele desenho porque ele esteve presente em boa parte da sua vida,
porque ele te fazia sentir bem e, sobretudo, porque ele acabou de uma hora
pra outra. Mas se você chegar a assisti-lo de novo, vai perceber que ele não
tinha nada de especial, melhor ou diferente dos desenhos que passam hoje em
dia. Ou de qualquer outro desenho. E você se desencantaria, se decepcionaria
ou simplesmente cairia em si que ele só foi especial porque você se lembrava
dele assim. E não porque, de fato, era especial de alguma forma, entende?
O que eu quero dizer é que, quando a relação se estende por muito tempo,
tendemos a folclorizar as lembranças. O lado bom é ressaltado, a saudade
aperta, a gente chega a esquecer como foi que deu errado. E o fato de ter sido
mal acabado, de ter deixado tanto espaço pra palpites sobre o porquê e o fim,
é o que torna nossa relação, no máximo, ímpar. O desafio é entendermos que
algumas perguntas ficarão sem resposta mesmo. Isso significa que a
obrigação de ficar em paz, perdoar e esquecer é exclusivamente nossa. E,
francamente, ninguém quer ter tamanha responsabilidade, especialmente
sobre seus fracassos. Logo, a maneira mais fácil de nos livrarmos da culpa é
colocando-a no outro.
Não adianta vir atrás agora. Você não me quer de verdade, mas está com
medo de me perder definitivamente, portanto o desespero falou mais alto. Se
pudéssemos ser estranhos outra vez, eu faria diferente. Mas não podemos. E


eu sei que se você voltar para a minha vida agora e me machucar de novo, a
culpa terá sido minha por permitir sua entrada. É por isso que sigo em frente.



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