500 dias sem você



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“Outro dia, o amor passou por mim. Fingi que
não vi. Deixa o amor lá e eu aqui. Cedo ou
tarde, a gente se esbarra de novo. Estou em
uma fase em que posso dizer sem qualquer
peso na consciência ‘Calma, fica aí na sua,
coração. Vai chegar a hora de te dividir, mas,
agora, você é só meu’.”
248º dia
Se tomei a decisão certa só o tempo pra me dizer, mas eu ainda me lembro
das erradas que fiz. Lembro do desespero crescente de estar em mais um
relacionamento fadado ao fracasso, justificando meus esforços na frase “mas
nós nos gostamos de verdade”. O que era esse gostar, afinal de contas?
Lembro das promessas irracionais que eu recitava com a convicção de uma
criança que tenta evitar o castigo. Lembro que, dentro de mim, eu sabia o
quanto era patético pedir chances e mais chances sem qualquer possibilidade
de retorno. E, mesmo assim, não fazia nada para evitar.
Outro dia, o amor passou por mim. Fingi que não vi. Não me leve a mal, mas
eu já conheci muitos amores por aí. Distribuí oportunidades que certamente
sequer foram acatadas. Eu só queria que desse certo, tanto que deixei de lado
os pré-requisitos que, geralmente, nos poupam as dores. Até que entendi que
ceder faz parte, mas se submeter é loucura. Parece papo de alguém que já
perdeu a fé, que ainda está em busca de uma metade que sequer lhe falta. Não
é porque minhas prioridades mudaram que eu deixei de lado minhas
preferências.
Levei a vida inteira pra ser quem sou e já nem me espanto se amanhã me


reinventar outra vez. Eu vivo por mim, seguindo minhas vontades, desviando
dos meus medos, e aqui ou ali pegando um atalho da paixão à solidão. Já me
acostumei, inclusive, com a angústia de quando ambas se encontram e acabo
me vendo só mesmo ao redor de uma multidão. Mas hoje, sobretudo, respeito
meu tempo. Não dá pra se recuperar da noite para o dia, honestamente. Como
eu poderia fazer bem a alguém quando maltrato a mim?
A gente pensa que entende como isso funciona, mas se perde ainda mais a
cada pista. A gente acha que, por não fazer nada de errado, temos como
recompensa o gostar recíproco da pessoa a quem nos dedicamos. A gente, no
fundo, espera não ser aquela pessoa que gosta demais, aquela que nitidamente
estaria disposta a tudo, mas torcemos em silêncio para que tenhamos alguém
que seja capaz de fazer isso por nós.
Outro dia, o amor passou por mim. Fingi que não vi. Já cheguei a duvidar do
amor mais vezes do que gostaria. Sempre me pareceu uma equação falha em
que duas ou mais pessoas que se atraem procuram meios de se repelir. Já
acreditei que amor era também vivenciar o medo porque é impossível
conhecer tão bem a si mesmo, quem dirá quem temos ao lado. Ou seja,
quando não é um tiro no escuro? Às vezes, acho que eu e você não fomos
feitos para ficarmos juntos, e daí me pergunto: “será que alguém já foi?”
Quando olho à minha volta está todo mundo tentando se desvencilhar ou não
se apegar a uma relação. Temos medo, sim. Medo de sofrer, medo de não
sermos correspondidos, medo de ficarmos por baixo. Quem faz dar certo é
quem tem coragem. Quem engole a seco os riscos de um coração partido em
prol da união de vários cacos. Porque, no fim das contas, estamos mesmo
estilhaçados e procurando nos recompor ao menor sinal de compaixão alheia.
Não tem segredo, sabe? Se você quer viver esse grande amor, tem que morrer
de amores todos os dias. Daí é só uma questão de tempo encontrar quem
esteja disposto a enfrentar seus próprios medos por ti.
Outro dia, o amor passou por mim. Fingi que não vi. Deixa o amor lá e eu
aqui. Cedo ou tarde, a gente se esbarra de novo. E pode ser que eu acabe por
segurá-lo com as próprias mãos e tente não o deixar ir. Não seria a primeira
vez, aliás. E nem será a última. A gente sempre pode investir em alguém, dar
atenção para aquela vozinha que nos diz ao pé do ouvido “e se?”. Tudo é uma


questão de oportunidade e interesse. Estou em uma fase em que posso dizer
sem qualquer peso na consciência “Calma, fica aí na sua, coração. Vai chegar
a hora de te dividir, mas, agora, você é só meu”.



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