500 dias sem você


parte, como pode esperar que um só lado suporte duas vidas?



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parte, como pode esperar que um só lado suporte duas vidas?
À medida que me tornei mais confiante quanto a mim, também me tornei
mais exigente. A primeira impressão não é a que fica, aliás, não tenho mais
treze anos para julgar o que não conheço. Minhas prioridades sempre irão
existir, mesmo que não sejam sempre as mesmas. Isso é normal. Ter opinião,
debatê-las e confrontar-se é uma das maiores e melhores experiências sobre o
amadurecimento. Mas hoje eu sei que amor tem que ser galgado, que é tolice


entregar o coração de bandeja para a primeira pessoa que aparentar ser o que
a gente quer, inclusive porque nem sempre quem a gente quer é a pessoa de
quem a gente precisa. Precisamos de quem lute por nós, de quem passe por
cima do orgulho, de quem não conte o tempo investido e não tenha receio de
fracassar. Acima de tudo, precisamos de alguém que saiba que a jornada
importa mais do que o final, alguém que entenda que amor verdadeiro é
muito melhor do que a fantasia do amor ideal.


“Eu aprendi que a saudade passa e que não
há necessidade de voltar atrás, aprendi que eu
sou singular e que você é como os demais. Eu
aprendi a me amar como você não foi capaz.”
234º dia
Tinha realmente algo de contagiante em sua risada que eu não conseguia
evitar imitar, você sabia. Parecia bobagem, mas era admiração. Eu tinha
fascínio por cada detalhe seu, eu te achava diferente da maioria. Mas era eu
quem me enganava.
Você me jurou a honestidade que nunca deu. E todos aqueles planos tão bem
desenhados não saíram da folha do papel. Eu te pedi fidelidade e você achou
que compromisso era esconder do coração o que os olhos não pudessem ver.
Você me ensinou a acreditar em farsas e a contestar verdades irrefutáveis. E
todo aquele jogo de palavras, por fim, fez sentido. E as mentiras que eu não
quis entender, de tão claras, me cegaram.
Fecho os olhos e ainda consigo te ver ofegante ao entrar no quarto, andando
de um lado para o outro, apontando para mim. Meu coração palpita. Quero te
abraçar. “Eu não sei como chegamos aqui”, tento dizer, mas você não ouve.
Acho que você grita, mas eu não te escuto. Falo sobre o tempo em que
éramos felizes na esperança de lhe fazer mudar de ideia, mas não há
ninguém. Sou a única pessoa no quarto. Abro os olhos e me pergunto quantos
anos eu vivi até o final desse dia.
De novo, lá está você entrando no quarto. Dessa vez, traz rosas na mão e um
humilde pedido de desculpas nos lábios. Deus sabe como eu quero te perdoar,
esquecer o passado, te conhecer outra vez. Por favor, não me deixe. Mas você


já foi. Sou a única pessoa na porta.
Consigo te ver fazendo careta para o sol que nos acorda cedo. Você me
abraça, me puxa pra perto, substitui meu cobertor. Sussurra promessas que
não pode cumprir ao pé do meu ouvido. Finjo dormir em seus braços
enquanto a luz que clareia seus olhos nos ilumina. Em paz, agradeço a minha
sorte pela eternidade nesse minuto, mas você não está mais aqui. Sou a única
pessoa na cama.
Eu quero ligar pra você, saber quando paramos de dar certo, quem definiu
que devíamos terminar. Quero ouvir da sua boca nas mais inimagináveis
línguas a certeza do fim. Quero voltar no tempo, desfazer os erros, refazer as
malas. Quero te tirar da sua realidade, te trazer dos meus sonhos. Quero
acreditar que tudo foi um engano e que vou acordar com seu bom dia de
novo, mas você não volta.
Repito tanto a cena do fim em minha mente que já nem sei mais quem
terminou. Ou quem eu sou. Tomo medidas drásticas: eu me desfaço das suas
esquecidas roupas, das superestimadas cartas. Eu me despeço de seus filmes,
de suas bandas e de seu perfume favorito. Desvio do quarteirão do seu
trabalho, ignoro a buzina de carros iguais ao seu. E se me vem à mente
alguma lembrança sua, eu me apego tanto que abuso.
Tenho que te confessar: eu esperei por tanto tempo uma ligação sua de
madrugada que aprendi a brincar de faz de conta e, pouco a pouco, o
esquecimento se tornou real. Eu não sou mais a mesma pessoa desde que
você se foi. Eu aprendi que a saudade passa e que não há necessidade de
voltar atrás, aprendi que eu sou singular e que você é como os demais. Eu
aprendi a me amar como você não foi capaz.


“Todo mundo tem alguém para quem não
consegue dizer não, e de quem tem que
aprender a se afastar para, enfim, descobrir
que só pode ter o amor que aceita receber.
E não se contentar em ser tão pouco para si
mesmo.”
@BENDITACUCA


241º dia
Todo mundo tem alguém para quem não consegue dizer não. Aquela pessoa
que, não importa o tempo que passar, ainda dá uma pontada certeira no peito
que te desnorteia. Aquela que pessoa que ao menor sinal de reaproximação já
te deixa com a boca seca e o coração disparado. A gente até que tenta pontuar
o mais rápido possível porque não demos certo, mas só conseguimos pensar
no quanto queremos, lá no fundo, que ainda dê. E ainda fantasiamos fazer
tudo pra isso acontecer, mesmo que nos falte coragem.
Estive com muitas pessoas em minha vida que nunca me deram certeza.
Pessoas que me escolheram, que quiseram estar comigo – e eu quis estar com
elas também, juro, você não sabe o quanto. Mas nunca me deram certeza. E,
eventualmente, essas dúvidas falaram mais alto que minha força de vontade,
que minha maneira racional de prever o que compensa, que minha mania de
esperar demais dos outros, e eu passei a me questionar se elas realmente me
mereciam.
Não que eu fosse melhor do que elas, pelo contrário. Em alguns casos, a
sensação que eu tinha era uma constante incapacidade de fazer alguém feliz à
altura. Tem de haver um equilíbrio que faça as atitudes e sentimentos soarem
naturais, simples, ainda que não o sejam por dentro, porque é isso que faz
com que andemos na mesma velocidade, sem surpresas pelo caminho, nem
ruas sem saída. Mas eu continuei tentando porque foi isso que eu aprendi a
fazer: insistir. Teve o lado bom, mas, mesmo assim, foi em vão. Sei disso
porque quando te conheci – e eu nunca imaginei que fosse você –, eu entendi
o que faltava nas outras e o que, como num passe de mágica, transbordava
em mim.
Você traduziu a esperança e a insensatez num só sorriso. Você esteve na
ponta da minha língua, no sopro da minha memória. Você foi o parâmetro de
certo e errado que definiu a minha lista mental de culpa e méritos. Depois de
você, eu sei o que faria de diferente; antes de você, eu sequer sabia quem era.
Todo mundo tem alguém que sempre vai mexer consigo. E que a gente fica
achando, porque tem mania de romantizar os términos, que aquela pessoa


seja o grande amor da nossa vida.
Mas isso está longe de ser uma coisa boa. Uma pessoa que te deixa com as
pernas bambas e traz à tona tanto sentimento do passado não pode ser alguém
que irá lhe fazer bem. Você me fez lembrar das minhas falhas, salientar os
meus defeitos e duvidar que o amor fosse mesmo capaz de superar qualquer
dificuldade. Simplesmente porque com você eu aprendi que só gostar não
basta, que nem todo esforço é recompensado, que, às vezes, não se faz
acontecer quando não é pra ser.
Ter certeza não é só uma escolha, não é só força de vontade, não é só esforço.
É como um sexto sentido que não nos deixa dúvidas de que vale a pena. De
que valerá a pena mesmo depois do fim. É uma espécie de gratidão e um
bocado de sorte. Porque é também o que a maioria das pessoas buscam e não
sabem, assim como eu não sabia: que pode existir alguém que nos carregue
tão seguramente que a gente sequer tema cair de cabeça.
Todo mundo tem alguém para quem não consegue dizer não, e de quem tem
que aprender a se afastar para, enfim, descobrir que só pode ter o amor que
aceita receber. E não se contentar em ser tão pouco para si mesmo. Porque
essa pessoa que nos deixa com o coração palpitando, com as mãos suando e
que a gente não consegue tirar da cabeça, definitivamente, não é a mesma
capaz de nos trazer paz.



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