3 Joaquim Nabuco e o abolicionismo f perlato



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e  escravidão  no  Brasil  meridional:  o  negro  na  sociedade  escravocrata  do  Rio  Grande  do  Sul. São  Paulo: 

Difel, 1962.  

16

  GOMES,  Flávio  dos  Santos  Gomes.  A  hidra  e  os  pântanos:  mocambos,  quilombos  e  comunidades  de 



fugitivos no Brasil (séculos XVII-XIX). São Paulo: Ed. UNESP, 2005, p. 26. 

17

 SILVA, Eduardo. Entre Zumbi e Pai João, o escravo que negocia. Em: REIS, João José e SILVA, Eduardo 



(orgs.).  Negociação  e  conflito:  a  resistência  negra  no  Brasil  escravista.  São  Paulo:  Companhia  das  Letras, 

1989, p. 14. 




 

 

cultura, que influenciará decisivamente nas relações estabelecidas entre eles, seus senhores 



e a sociedade. 

 Os  novos  estudos  procuram  enfatizar  os  aspectos  multifacetados  da  resistência 

negra  durante  a  escravidão.  Os  cativos  reelaboraram,  reorganizaram  e  transformaram, 

sempre que possível, o universo em que viviam. As variadas formas de resistência escrava 

evidenciam que não somente “reagiam”, mas, pelo contrário, foram agentes históricos, que 

enfrentaram  processos  de  lutas,  conflitos,  acomodações,  enfrentamentos  e  confrontos.  As 

visões a respeito do que os cativos consideravam liberdade e daquilo que concebiam como 

escravidão devem ser buscadas no cotidiano das experiências escravas. Embora os senhores 

procurassem  controlar  sistematicamente  a  população  escrava,  os  cativos  buscavam 

modificar  seus  destinos,  alargando  seus  espaços  em  busca  de  autonomia  dentro  da 

escravidão. As estratégias de resistência eram constantemente ampliadas e reinventadas.

18

  



 Esta nova concepção de resistência contribuiu de maneira decisiva para a renovação 

dos estudos históricos. Porém, convém ressaltar que muitos destes estudos foram alvos de 

críticas,  como  aquelas  dirigidas  por  Jacob  Gorender,  que  acusa  estes  novos  trabalhos  de 

contribuírem  para  reabilitar  a  escravidão  e  a  visão  da  democracia  racial,  bem  como  da 

suavidade  das  relações  entre  senhores  e  escravos  presentes  na  obra  de  Gilberto  Freyre.

19

 



Embora  as  críticas  de  Gorender  sejam  por  vezes  exageradas,  acredito  que  seu  trabalho 

contribui para alertar acerca de aspectos importantes. Por mais que os estudos demonstrem 

a possibilidade de negociação por parte dos escravos, não podemos nos esquecer de que ela 

foi  desigual,  acontecendo  em  um  sistema  marcado  pela  profunda  disparidade  de  relações 

sociais  e  pela  violência.  Caso  as  relações  tivessem  sido  tão  suaves  como  alguns  estudos 

desejam  evidenciar,  não  viveríamos  até  hoje  em  um  país  tão  marcado  pela  discrepância 

econômica  e  social entre brancos e negros. Além disso, concordo com Michael F. Brown, 

que afirma que a hegemonia teórica do conceito de “resistência” nos últimos anos conduziu 

muitos  estudiosos  a  considerarem  os  mais  simples  atos  como  uma  resistência,  levando  à 

banalização do termo.

20

  

                                                 



18

 GOMES, Flávio dos santos. Op. Cit., pp. 30 – 32; 

19

 GORENDER, Jacob. A escravidão reabilitada. São Paulo: Ática, 1990. 



20

 BROWN, Michael. On resisting Resistance. Fórum. American Anthropologist. Vol. 98. No. 4. December, 

1996, p. 729-734. 



 

 

 É  fato,  contudo,  que  a  resistência  cativa  existiu  e  desempenhou  papel  importante 



para  a  contestação  do  regime  escravista.  Sobretudo,  após  1850,  quando  houve  uma 

ampliação  na  margem  de  autonomia  e  negociação  por  parte  dos  escravos.  Os  cativos 

nascidos  no  Brasil,  comercializados  através  do  tráfico  interno,  estabeleciam  com  rapidez 

alianças  e  reivindicações  antes  inacessíveis  aos  africanos.  A  maioria  dos  escravos 

envolvidos  neste  tráfico  estava  tendo  o  primeiro  contato  traumático  com  a  escravidão  e 

possuía  a  experiência  ou  informações  sobre  o  trabalho  em  outras  fazendas  e  com  outros 

senhores, desenvolvendo noções do que era “justo” ou “injusto”. Conforme destaca Sidney 

Chalhoub, o volumoso tráfico interprovincial trouxe consigo escravos com o sentimento de 

que  seus  direitos  haviam  sido  ignorados,  possibilitando  a  eles  resistirem  e,  até  mesmo, 

interferirem  no  rumo  das  transações  que  definiriam  seu  destino.

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  Isso  só  foi  possível 



através  da  resistência  escrava  e  do  aprendizado  gradual  dos  senhores  de  que  deveriam 

respeitar  alguns  direitos  dos  escravos  –  como  a  aceitação  dos  grupos  familiares  nas 

partilhas e vendas de cativos – com o risco de haver rebeliões.   

 A  transferência  constante  e  numerosa  de  cativos  através  do  tráfico  interprovincial 

trouxe  doravante  o  aumento  da  tensão  social,  sobretudo  nas  províncias  do  sudeste.  A 

proliferação dos quilombos assustava as autoridades brasileiras, na medida em que muitos 

deles  estabeleciam  relações  freqüentes  com  outros  setores  da  sociedade  envolvente.

22

    O 



medo  do  haitianismo  esteve  presente  no  Brasil  desde  o  ocorrido  em  São  Domingos, 

valendo ressaltar que tal sentimento aumentou diante do avanço das fugas e assassinatos de 

senhores e feitores no final do século XIX. Os temores do haitianismo misturavam-se com 

a preocupação frente às repercussões da Revolta dos Malês ocorrida em 1835 na cidade de 

Salvador, bem como o medo da existência de planos de revoltas articuladas entre escravos 

de  várias  partes  das  Américas  com  a  participação  de  abolicionistas  ingleses  e  emissários 

internacionais.

23

 



                                                 

21

 CHALHOUB, Sidney. Visões da Liberdade: uma história das últimas décadas da escravidão na corte. São 



Paulo: Companhia das Letras, 1990, p.75. 

22

  Sobre  quilombos  ver:  GOMES,  Flávio  dos  Santos.  A  hidra  e  os  pântanos:  mocambos,  quilombos  e 






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