1984 Edição especial



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1984 - Edicao especial - George Orwell
07 - Cronograma de Julho 2022
UM “AMBIENTE PROPÍCIO”?
Mesmo assim, há muitas coisas preocupantes. Se o romance não mostra de
maneira convincente que é possível alquebrar todo e qualquer ser humano,
por outro lado convence mais ao sugerir que muitos podem ser alquebrados.
Nossas personalidades sempre são frágeis, equilibrando-se delicadamente
entre exigências narcisistas que continuam se reafirmando e o
reconhecimento do valor e da dignidade dos outros. A moralidade e a
cidadania liberal são realizações que devem ser construídas e reconstruídas
constantemente; exigem o que Donald Winnicott chamou de “ambiente
propício”,
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tanto na família quanto no mundo social mais amplo. Assim,
faz sentido perguntar em que medida a cultura dos Estados Unidos oferece,
hoje, esse tipo de ambiente propício.
A cultura pública americana tem aspectos que apresentam riscos
permanentes, reforçando o narcisismo: uma ênfase excepcional sobre o
orgulho e o controle masculinos; uma tendência persistente em considerar
todas as ameaças à sua supremacia como obstáculos a serem removidos; a
sugestão de uma gratificação sem limites nem custos; a negação da
mortalidade e dos limites em favor da ideia de que podemos ser e fazer
qualquer coisa; a sugestão de que nem a idade e talvez nem mesmo a morte
hão de nos derrotar.
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Esses traços muitas vezes vêm acoplados, assim como na Oceânia, ainda
que não de forma tão extrema, a uma aversão ou mesmo a uma falta de
compreensão do trágico. Todo e qualquer obstáculo pode ser vencido — e
assim não existe uma verdadeira tragédia.
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 A forma clichê do faroeste, em
que o mocinho simplesmente acaba com os vilões, é uma forma antitrágica,
sem qualquer piedade real, sem lamento e nem mesmo ambivalência. Ela
incentiva a ideia de que o mal é simples e totalmente exterior, podendo ser
derrotado pela agressão pura e simples. A arte antinarcisista, por seu lado,
seria a arte que incentiva o desenvolvimento da capacidade de imaginar o
sofrimento dos outros, de ver a ambivalência em si e nos outros, de
observar de modo crítico e, mesmo assim, não inclemente as forças de
agressão em si mesmo e o dano que queriam causar ou causaram. A


tragédia grega era uma forma de arte antinarcisista. Povoava o espírito com
seres inteiros fazendo reivindicações distintas, pedindo-nos para imaginar o
sofrimento de seres distintos em circunstâncias criadas pelo destino e pela
maldade humana. Não temos arte trágica suficiente em nossas vidas.
Há estudos recentes sobre jovens, sobretudo rapazes, nos Estados Unidos
que reforçam a ideia de que o narcisismo é um perigo ao qual devemos ficar
atentos. Os psicólogos Dan Kindlon e Michael Thompson, no
impressionante livro Raising Cain,
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sobre garotos problemáticos na
adolescência, mostram a quantidade assombrosa de meninos que crescem
como analfabetos emocionais, incapazes de imaginar o sofrimento de outras
pessoas e, por conseguinte, incapazes de captar plenamente a alteridade
distinta dessas pessoas. Ao mesmo tempo, esses garotos também são
obtusos em relação a seu próprio mundo interior. Não reconhecem o medo e
a falta de controle que, sendo humanos, sentem continuamente, e costumam
canalizá-los para a agressão. Subjugar o outro é uma maneira de não
enfrentar o próprio desamparo. Kindlon e Thompson veem a atuação desse
narcisismo emocional na humilhação de outras crianças. Observam que ele
leva a relações brutas e exploradoras com mulheres, moldando-se por
fantasias masturbatórias de dominação e controle.
O livro mais recente de Kindlon, Too Much of a Good Thing,
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concentra-se na ligação entre a personalidade narcisista e uma cultura de
acumulação material. Os adolescentes em escolas de elite competem
exibindo roupas de grife, férias em caras estações de esqui, carros de luxo.
Humilham os meninos que não possuem essas coisas. Raramente parecem
entender que a vida pode conter valores de mais respeito pelos outros;
parecem nunca se orgulhar de realizar algum serviço importante de
utilidade pública ou de compromisso com a justiça.
Tais quadros nos contam apenas uma parte da história. É evidente que a
cultura americana também contém valores religiosos e seculares que
enfatizam o serviço ao próximo, o sacrifício e a filantropia, e que os
cidadãos americanos têm um sólido senso de justiça e de direitos civis,
valores liberais que exigem um senso de valor e dignidade de cada um.
Nossa cultura jurídica e constitucional encarna essas normas.
No entanto, os últimos vinte anos têm presenciado uma grande mudança
nos rumos do narcisismo. A era Reagan marcou o início de uma profunda
transformação na cultura política americana. Invocar a justiça e a equidade


saiu de moda; entrou na moda invocar o interesse próprio e a
competitividade. Hoje, a retórica da Grande Sociedade (e, antes, do New
Deal) parece distante, esquisita, dificilmente uma linguagem capaz de
mobilizar os americanos. Não porque os seres humanos não podem ser
mobilizados pelo ideal rooseveltiano de direitos econômicos e sociais para
todos e de libertação do medo e da necessidade. E sim porque os cidadãos
dos Estados Unidos se tornaram, em certa medida, diferentes dos seres
humanos que eram outrora, diferentes nos valores que lhes importam e no
que é capaz de motivá-los. “Pergunte-se se você está em situação melhor
neste ano em comparação ao ano passado”, disse Reagan no final de um de
seus debates com Walter Mondale. E a resposta de Mondale — que o bem-
estar tem muitos componentes, sendo um deles a equanimidade — caiu em
ouvidos moucos. Hoje, para começo de conversa, nenhum assessor
encarregado de escrever discursos, se quisesse conservar o emprego,
escreveria algo nessa linha.
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A guinada para o narcisismo se destaca não só na política interna, mas
também na política internacional. Os dois partidos são culpados. Grande
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