1984 Edição especial



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1984 - Edicao especial - George Orwell
07 - Cronograma de Julho 2022
“SUGADAS PARA A MORTE”
Winston Smith não é um narcisista. De fato, ele nos é apresentado por
Orwell como o último ser humano, o último sobrevivente dos tempos de
antigamente. Winston entende as emoções trágicas; aprecia as obras
literárias trágicas que expressam e fortalecem essas emoções. E, no entanto,
é possível alquebrar Winston Smith. Ele acaba se rendendo ao amor ao
Grande Irmão. A meu ver, Orwell está sugerindo que Winston é um bom
exemplo de aspiração humana e, assim, seu destino corresponde ao destino
da humanidade, pelo menos sob a coerção aqui retratada. Orwell está
correto? Na derrota de Winston, realmente vemos a derrota da humanidade
como um todo ou vemos apenas a triste rendição de um homem muito
incompleto e infeliz?
Para responder a essa pergunta, examinemos o papel da culpa na vida de
Winston. Veremos, penso eu, que, embora o desenvolvimento de Winston
avançasse além das emoções narcisistas primitivas, mesmo assim era
interrompido num ponto crítico, deixando-o muito propenso ao retraimento
e ao colapso narcisistas.
Toda a vida de Winston é dominada pela culpa quanto ao papel que
desempenhou na morte da mãe e da irmã. Seu primeiro sonho no romance
se refere à morte delas:
Naquele momento a mãe estava sentada em algum lugar muito
abaixo dele com sua irmã mais moça no colo […]. As duas
estavam no salão de um navio que naufragava, de olhos fixos
nele, lá em cima, através da água que se turvava […]. Ele estava
fora, na luz, no espaço, enquanto elas eram sugadas para a
morte, e estavam lá embaixo porque ele estava aqui em cima.
Ele sabia e elas sabiam, ele via no rosto delas que elas sabiam
[…] simplesmente a consciência de que teriam de morrer para
que ele pudesse continuar vivo [...]. (pp. 71-2)
Esse sonho expressa um tipo particular de culpa: a culpa ligada à sua
liberdade, à sua capacidade de ação e à sua agressividade infantil. Winston


se pune reiteradamente por não ter amado a mãe da maneira adequada: “ela
morrera amando-o, quando ele era jovem e egoísta demais para poder
retribuir seu amor” (p. 72). Seu gesto egoísta, pegando o chocolate da irmã
mais moça, é perdoável num garotinho faminto. Mas ele mesmo nunca se
perdoou, em parte pelo puro azar de a mãe e a irmã terem sido levadas (para
a morte, presume-se) logo depois daquilo (p. 214). Ele estabelece
mentalmente uma ligação causal, ainda que irracional, entre os dois
episódios; como nunca mais voltou a vê-las, nunca encontrou uma maneira
de expiar ou de restaurar o grupo amoroso. Está, de fato, num “autoexílio
do peito amoroso” (p. 351). Não pode voltar a ele e, portanto, não
surpreende que recorra no final a um substituto disforme.
Orwell chama a atenção para o intenso amor erotizado de Winston pela
mãe e sua incapacidade de expiar a morte dela, como tema ubíquo em toda
a vulnerabilidade de Winston. O peso de papel, o objeto físico que ele ama
e que, no sonho bom, representa toda a sua vida, simboliza, em seu rosa
ondulante envolto em uma luz radiante, a carne materna. A água em que
mãe e filha soçobram é, talvez, uma imagem da passividade e da
sexualidade femininas, em contraste com a livre agressividade masculina
dele. Os ratos que parecem prestes a lhe devorar o rosto, o medo que acaba
por alquebrá-lo têm um poder que está intimamente ligado ao horror por
sua capacidade de traição e destruição. E o Café da Castanheira, onde
Winston vive o resto de sua vida desgraçada — aquele lugar onde “Sob a
ramada da castanheira/ Vendi você, e você a mim após…” (p. 347) —,
parece remeter à imagem de um menino abrigado entre os cabelos ou
mesmo os pelos púbicos da mãe, e a uma profunda culpa ligada a esse
amor. Ao mesmo tempo, lembremos que o poema original a qual remetem
esses versos é “The Village Blacksmith” [O ferreiro da aldeia], de
Longfellow, que após o primeiro verso, citado por Orwell, prossegue com:
“o ferreiro da aldeia se posta;/ O ferreiro, homem forte ele é/ com mãos
grandes e vigorosas”. Desse modo, a referência é, ao mesmo tempo, uma
referência à força masculina, ligando essa força à destruição e à traição —
ligação essa confirmada pela forma como Winston relembra seu gesto
egoísta — como o gesto de um menino forte e destemperado tirando algo de
duas mulheres fracas.
Em termos de desenvolvimento, como comentei, Winston não é
narcisista. Mas foi abandonado pelas fontes de amor e conforto num


momento crítico: bem na hora em que reconhece sua agressividade e sua
culpa, mas antes de encontrar uma maneira de obter a reconciliação e o
perdão. Todas as crianças que avançam além do narcisismo reconhecem em
algum momento que a mesma pessoa que amam é também a pessoa contra a
qual dirigiram a raiva e a agressividade. Não “o peito bom” e “o peito
mau”, mas uma pessoa inteira a quem amam e odeiam. Esse
reconhecimento da ambivalência costuma ser muito assustador, e as
crianças geralmente reagem a ele com um período de profunda tristeza e
lamento, quando se sentem incapazes de encontrar uma maneira de voltar
àquele mundo dourado em que outrora viviam ou, na verdade, uma maneira
de avançar para um novo mundo que não é dourado, mas, em certo sentido,
é melhor do que dourado, no qual existe moralidade e a culpa pode
encontrar perdão.
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Essa é, penso eu, a situação de Winston, expressa com tanta vividez em
suas fantasias recorrentes de um “lugar dourado”, um lugar de luz e
liberdade, e, ao mesmo tempo, em sua sensação de estar na luz só porque
outros estão se afogando. Ele não consegue encontrar um caminho que o
conduza a um mundo onde as pessoas aceitam mutuamente suas falhas e
aprendem a se desculpar e procurar perdão por suas palavras e ações
agressivas. (Não seria implausível designá-lo como o mundo do
liberalismo.) Portanto, fica extremamente vulnerável às forças destrutivas
dentro de si próprio e à destruição de sua personalidade a partir da ideia de
si mesmo como aquele que traiu e condenou outras pessoas. Em vez de se
entender como pessoa imperfeita, capaz de boas e más ações, capaz de
reparar o mal com o bem, ele fica entregue à sensação envolvente e
aterrorizante de uma maldade ilimitada em si mesmo — porque o objeto
clemente simplesmente desapareceu de sua vida. Ao contrário do paciente
de Kernberg que apresentei em epígrafe,
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Winston não tem objetos bons e
clementes dentro de si. Seus objetos bons estão mortos, mortos por causa de
seu egoísmo.
Assim, ele vive sempre à beira do colapso narcisista. Não admira muito
que O’Brien consiga maquinar esse colapso.
Por que Winston fica nesse estado? Em certo sentido, apenas por azar: a
mãe desapareceu justamente num momento crucial, antes de poder se tornar
agente de clemência e perdão e lhe mostrar como ser clemente consigo
mesmo. Mas cabe também mencionar a coerção política sob a qual passou


toda a infância. Na véspera do desaparecimento da mãe, ele se divertia
muito brincando com um jogo de tabuleiro, o Snakes & Ladders: é sua
lembrança feliz mais sólida. E, de fato, muitas vezes é num jogo
imaginativo que as crianças encontram uma saída da prisão da culpa e
chegam a um senso mais construtivo de reciprocidade e interação. Winston
nunca teve real oportunidade de aprender a jogar. E então a cultura da
Oceânia assume o controle, enviando continuamente mensagens de
narcisismo em vez de qualquer mensagem vinculada a uma cidadania moral
responsável, a tentativas de reparação e à consideração pelos direitos dos
outros. De modo que ele não tem nenhum esteio para seu senso frágil e
acuado de um eu.
Mesmo o senso trágico de Winston é, na verdade, muito incompleto.
Contém uma dor profunda e uma espécie de piedade pela mãe e pela irmã.
No entanto, a piedade está tão mesclada com a culpa e a aversão por si
mesmo que não chega a emergir plenamente como piedade por outro ser
separado. Pode-se dizer que só pode haver piedade em forma plenamente
desenvolvida onde há também clemência em relação ao eu: pois o eu
engolfado por um senso de sua profunda maldade nunca consegue chegar a
um reconhecimento suficiente dos sofrimentos do outro como outro.
Sugiro, então, que a fuga de Winston para o absoluto egoísmo e para o
completo narcisismo antitrágico, ao final do romance, não seja uma
inversão total. É um colapso ao qual sua personalidade sempre esteve
propensa. Um bom apoio da família e da sociedade poderia mudar o final;
mas ele é um frágil caniço incapaz de sustentar nossas esperanças para a
humanidade.
Orwell também pensava assim? Tenho minhas dúvidas. Há em Winston
muitos elementos que sugerem a tristeza do próprio George Orwell, demais,
talvez, para tomarmos o retrato de Winston como um indivíduo que deve
ser visto como exemplo falho e fraco da aspiração humana. Além disso, se
Winston fosse visto dessa maneira, o romance inteiro teria de ser
considerado profundamente estranho em sua construção: pois o que
poderíamos ou haveríamos de concluir do fracasso de um indivíduo que
deve ser visto ao longo de todo o romance como um ser peculiar, triste e
profundamente incompleto? Logo, sugiro que Orwell realmente pretendia
que Winston fosse um bom exemplo do espírito humano e das
possibilidades de criatividade e resistência de que esse espírito é capaz.


Quanto a isso, acredito que Orwell está totalmente errado. Se Winston,
como sugiro, é um menino triste que nunca teve verdadeira oportunidade de
se desenvolver como personalidade madura e bem-sucedida, então não
podemos concluir grande coisa de seu colapso. E se nenhuma civilização
teve sucesso tão pleno em seus projetos totalitários quanto a Oceânia do
romance, é em larga medida porque o espírito humano não se quebra tão
facilmente, porque artistas, pensadores e pessoas de todas as condições
resistem repetidas vezes às tentativas de alquebrá-los, criando subculturas
de resistência que mostram formas complexas de reciprocidade e piedade
trágica.



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