1984 Edição especial



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1984 - Edicao especial - George Orwell
07 - Cronograma de Julho 2022
UMA NAÇÃO ORWELLIANA?
Depois dos trágicos eventos de 11 de setembro de 2001, o romance de
Orwell continua aflorando, enquanto as pessoas tentam entender o atual
clima político em nossa nação. Muitos associaram o tema da guerra
perpétua no romance a aspectos da atual retórica política, o que sugere que
estamos envolvidos numa “guerra” que não tem um fim definido e pode ser
nada menos do que uma guerra contra o “mal” em si. Com esse inimigo
perpétuo, o que se sugere é: como não supor que a guerra precisa ser
perpétua, como na Oceânia, e que, de fato, apenas a Guerra é Paz?
Outros autores que discutem eventos recentes nos Estados Unidos têm
chamado a atenção para as questões orwellianas da história, da memória e
da verdade. Em “The Memory Hole” [O buraco da memória],
1
o
economista Paul Krugman, concentrando-se nas declarações do governo
Bush sobre o déficit orçamentário, recorre ao romance para acusar o
governo de reescrever retrospectivamente a história. Um mês depois,
Krugman voltou a evocar Mil novecentos e oitenta e quatro, citando a
linguagem enganosa do governo sobre a Previdência Social como um
exemplo clássico de “duplipensamento” e de “Novafala, a redefinição das
palavras para eliminar pensamentos desleais”.
2
Essas conexões merecem análise e debate. Mas há outro elemento
orwelliano no ar, algo mais insidioso e mais inquietante, creio eu, do que o
fato de os políticos mentirem (num clima de liberdade de expressão, em que
as mentiras podem ser desmascaradas publicamente). Embutida em alguns
grandes exemplos de retórica pública em reação ao Onze de Setembro, mas
radicada numa série maior de mudanças que remontam à Revolução Reagan
dos anos 1980, surge uma abordagem política das emoções em geral e da
compaixão em particular. Essa abordagem lembra muito o romance e o
projeto político apresentado ali: o projeto de extinguir a compaixão e as
formas complexas de amor e lamento pessoal que são suas fontes, e de
substituí-las por formas simples e despersonalizadas de ódio, agressão,
triunfo e medo. Expressões como “Eixo do Mal” e “Nova Guerra da
América”, bem como a frase de nosso presidente, “Eles começaram, nós


acabaremos”, condensam atitudes baseadas no unilateralismo e no
confronto que nos lembram, como um mau presságio, o estimado objetivo
de O’Brien. Somos implicitamente instados a não ver complexidades em
uma nação ou em sua história, a não ter emoções que reconheçam a
presença da pobreza, da miséria e da injustiça em nações distantes, ou
mesmo nossa possível cumplicidade na origem desses problemas. Só valerá
uma visão do mundo em termos de nós-eles, com o objetivo de atacar
qualquer um que ameace nossa “supremacia”. As emoções próprias a essa
visão de mundo são, de fato, como diz O’Brien, o medo, o ódio e o triunfo.
Às vezes, essas emoções podem ser acompanhadas — e, depois do Onze de
Setembro, certamente foram — de uma profunda compaixão pelos Estados
Unidos e pelo povo americano; mas mesmo essa compaixão tem seus
limites, como veremos adiante. E essa compaixão limitada pode se interpor
e impedir o reconhecimento da realidade de povos distantes.
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Retornarei
mais tarde a essas questões atuais; elas estão no centro do romance de
Orwell.
Mil novecentos e oitenta e quatro não trata apenas de mentiras e projetos
totalitários de dominação. Trata do fim dos seres humanos como os
conhecemos, da derrocada política do coração humano. Winston Smith é o
último ser humano. O gesto de proteção compassiva é o sonho no qual se
ancora sua humanidade. O motivo de orgulho de O’Brien não é apenas o
êxito do regime; é o fato de ter reformulado a natureza humana. Ora,
acredito que algumas coisas que Orwell tem a dizer a esse respeito são
equivocadas — baseando-se, por exemplo, numa distinção simplista entre a
esfera pública e a esfera privada, além de uma visão ingênua da sexualidade
(como mencionam outros críticos) como elemento instintivo e resistente à
moldagem social. Também creio e sustentarei que sua conclusão é sombria
demais e, mesmo nos próprios termos do romance, improcedente: o colapso
de Winston não é o colapso do humano como tal, condenando a todos nós,
mas o triste estilhaçamento de uma alma já perseguida e carregada de culpa
que nunca conseguiu encontrar perdão para seus desejos agressivos.
Podemos esperar mais de nós mesmos e de nosso futuro. Mas é melhor
ficarmos atentos.



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