1984 Edição especial


UM BRAÇO PROTETOR, UMA CÚPULA DE LUZ



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1984 - Edicao especial - George Orwell
07 - Cronograma de Julho 2022
UM BRAÇO PROTETOR, UMA CÚPULA DE LUZ
Um gesto persegue esse romance como persegue o espírito de Winston
Smith. Corriqueiro, diário, impensado, o gesto também é inapelavelmente
distante, e seu brilho é da matéria dos sonhos. Ninguém mais pode fazer
esse gesto. A política o destruiu.
É um gesto do braço: uma mãe envolve os filhos, protegendo-os do
perigo. Esse gesto é a primeira coisa que Winston registra em seu diário: no
meio de triunfantes filmes de guerra sobre o bombardeio no Mediterrâneo,
ele vê um bote salva-vidas cheio de crianças, prestes a ser bombardeado por
um helicóptero no alto — e no bote há uma judia, que envolve o filhinho
assustado nos braços e o protege, “como se achasse que seus braços iam
conseguir protegê-lo das balas” (p. 50). O registro no diário logo passa aos
sentimentos de ódio e triunfo, de maior aceitação, quando Winston aclama a
“tomada sensacional de um braço de criança subindo subindo pelo ar” (p.
50), mas o gesto persegue seu espírito, o que leva a seu sonho posterior
sobre o local luminoso.
O sonho posterior é um sonho de “sua vida inteira” (p. 211) — que
imagina se passar inteiramente dentro do peso de papel de vidro que ele
comprou do velho na loja. Esse peso de papel, uma “coisa arredondada e
lisa” (p. 141) que Winston ama por causa de sua beleza e inutilidade,
encerra dentro de si um pedaço de coral rugoso, “um objeto esquisito, cor-
de-rosa e espiralado que lembrava uma rosa ou uma anêmona-do-mar” (p.
141). No sonho, toda a sua vida está no interior daquele objeto mágico.
Dentro da cúpula, “tudo estava inundado de uma luz muito clara e suave”
(p. 211). Para Winston, o sonho da cúpula é compreendido no gesto, na
verdade consiste no gesto do braço que sua mãe fez, protegendo a ele e à
irmã, o mesmo gesto que a mulher judia fez tantos anos depois. Ao que
parece, foi “a última vez que viu a mãe” (p. 214), e horas depois o sonho
está “nítido em sua mente, sobretudo o gesto protetor com que a mãe
envolvera a filha com o braço — e que parecia conter todo o seu
significado” (p. 215).


Mas o peso de papel acaba se quebrando. O fragmento de coral, “uma
minúscula ondulação rosa que parecia um confeito de bolo” (p. 274), rola
pelo tapete. “Que pequeno, pensou Winston, que pequeno ele sempre fora!”
(p. 274). Seu fascínio pela beleza do objeto era uma armadilha, o velho que
o vendeu era membro da Polícia das Ideias. O peso de papel e o gesto do
braço no qual ele consiste são aniquilados, não só pelo Estado, mas, num
nível mais profundo, pela capacidade de traição e destruição do próprio
Winston. E o único “peito amoroso” que ele encontra, no final, é o amor ao
Grande Irmão.



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