1984 Edição especial


parte de uma “minoria de um”, mas há também a percepção de que é



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1984 - Edicao especial - George Orwell
07 - Cronograma de Julho 2022

parte de uma “minoria de um”, mas há também a percepção de que é
preciso haver pelo menos dois em qualquer luta pela “verdade”; e que


dentro de cada um é provável que hajam tensões dialógicas internas daquela
espécie que W. E. B. Du Bois chamou de “consciência dupla”.
Uma das estranhas assimetrias da condição humana é nosso desejo de nos
relacionarmos no nível do inconsciente, com projeções, fantasias e
estratégias defensivas e de compensação. O processo dialógico mostra a
qualidade da alteritas, aquele princípio da “alteridade” que, certa vez,
Hannah Arendt definiu como a “paradoxal pluralidade de seres únicos”.
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Queremos acesso a nós e aos outros nos níveis em que somos menos
acessíveis e mais vulneráveis. Nosso desejo de sociabilidade brota muitas
vezes de uma intimidade baseada na ininteligibilidade. E nossa necessidade
de afirmar a simples virtude humana da afeição — sentir pelo outro — e da
filiação — ser parte do outro — requer que agucemos nossa imaginação e
nossos instintos para “ler” a opacidade dos outros, para ir além da superfície
significante. Winston tem uma esperança ou uma “crença secreta”, como
diz ele, de que a ortodoxia política de O’Brien não é impecável: “Em seu
rosto ainda era possível notar o arrebatamento, o entusiasmo delirante” (p.
308). E, de maneira igualmente irresistível, somos levados a perguntar: essa
é uma crença sobre si mesmo que Winston projeta em O’Brien? E por que é
uma crença secreta? O que há de tão irresistível no rosto de O’Brien que
não pode ser descrito? Winston tem apenas uma mera esperança vazia,
como descobriremos mais tarde? Por que não se encontra nenhuma imagem
concreta, mental, que represente essa sensação? Quando O’Brien tenta
dobrar Winston, convencendo-o de que sofre de distúrbios mentais, ele
procede atacando o que o próprio Winston confessara antes a si mesmo,
como seu credo íntimo: “O fato de ser uma minoria, mesmo uma minoria de
um, não significava que você fosse louco. Havia verdade e havia inverdade,
e se você se agarrasse à verdade, mesmo que o mundo inteiro o
contradissesse, não estaria louco” (p. 267). Longe de buscarmos entender e
reagir às intenções e objetivos do ato de fala, temos de nos lançar em uma
forma de interpretação intersubjetiva que opera por meio daqueles signos
gestuais e figurativos da linguagem que precisam ser interpretados como se
houvesse uma espécie de “inconsciência” operando em seu interior.
O’Brien é louco mau? É um trapaceiro? Está mentindo ou encenando um
jogo? Winston precisa fazer essas perguntas para garantir sua própria
sobrevivência, mas elas não se resumem a meras questões de interpretação
de texto ou ao astuto cálculo do caráter e da estratégia de jogo do outro. São


dialógicas num sentido ao mesmo tempo autoindagador e interlocutório:
convidam-nos a enfrentar nosso próprio “esquecimento do ato de
esquecimento”, a tentar “superar”, mesmo que de modo incompleto e
imperfeito, nossas próprias repressões e projeções a fim de “ler” a mente do
outro e a maneira como manter ou esconder suas crenças até mesmo de si
próprio.
Isso não é invasão de privacidade. É a aceitação das complexas
negociações psíquicas que acompanham nossas interações e enunciações.
Essas “determinações inconscientes” talvez nem sempre se encaixem em
explicações racionais ou sensatas, mas isso não significa que não possam
ser representativas do caráter ou da personalidade em sentido público, ou
que não sejam úteis para as finalidades do diálogo democrático. O objetivo
de subsumir todos os outros eus ao Ego Ideal do Grande Irmão é,
justamente, encerrar o debate sobre o sentido e o ser que está no cerne do
discurso da condição dialógica. É o que o próprio Orwell aponta em “Os
princípios da Novafala”, apêndice a Mil novecentos e oitenta e quatro:
“Palavras concisas e de sentido inequívoco” como "Socing", "bompensar"
ou "papaproleta", eram recomendadas porque provocavam “um mínimo de
ecos na mente do falante. […] A intenção era transformar a fala, sobretudo
quando o assunto não fosse ideologicamente neutro, em algo tão
independente quanto possível da consciência” (pp. 363-4, grifo nosso). O
que apresentei como o desejo atenuado, mas inequívoco, de Winston de
estabelecer uma relação dialógica seria visto como tentativa de restaurar no
processo de fala o debate em curso sobre a “consciência”. Se se
conseguisse, seria possível retirar a mordaça verbal redutora do
“vocabulário A”, imposto às pessoas comuns entregues aos afazeres do
cotidiano:
Todas as ambiguidades e nuances de sentido haviam sido
expurgadas […] [assim] os vocábulos desta classe se limitavam
a sons curtos, exprimindo, cada um delesum conceito de
compreensão clara e simples. Teria sido praticamente impossível
usar o vocabulário A com propósitos literários ou em discussões
políticas e filosóficas. (p. 357)


A liberdade prevista pelo discurso dialógico é, ao mesmo tempo, frágil e
irresistível: é uma disputa sobre a qualidade e a igualdade da consciência;
fica evidente na revisão e na representação da realidade; está presente nos
usos da ambiguidade e das nuances de sentido. Uma perspectiva dialógica
sugere que a pessoa tem capacidades, habilidades e qualidades —
conscientes e inconscientes — que acolheriam a lógica imaginativa e
futurista da justiça poética, pois ela nos põe em contato com a “paradoxal
pluralidade de seres únicos”. Mas o que são essas formas paradoxais de
justiça poética?
Talvez uma história sobre porcos capazes de se entregar aos jogos de
poder que os regimes políticos consideram como área reservada
exclusivamente à inteligência humana — isso certamente converteria os
porcos em seres únicos e os seres humanos em animais paradoxais. Ou
talvez se encontre justiça poética na tentativa de escrever a história do
futuro, Mil novecentos e oitenta e quatro, como se já tivesse ocorrido em
1949, de modo que o novo também era velho e o que pensávamos saber
ainda estava por vir. Nessa trama temporal, a História é abafada pela
fantasia e a Ficção é permeada de fatos. Juntas, elas criam uma “paradoxal
pluralidade”, uma espécie de duplifalar que não hesita em condenar a ficção
e a história a um diálogo em que ambas têm dificuldade em recuperar o que
há de único em suas vozes ou o que há de singular em suas visões.


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