1984 Edição especial



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1984 - Edicao especial - George Orwell
07 - Cronograma de Julho 2022
enterradas se um número suficiente de pessoas se dedicasse a
isso […] reduzir a quantidade de latim ou grego na frase média,
banir as locuções estrangeiras e palavras científicas extraviadas
[…] jogar no lixo […] todas as palavras e expressões que
esgotaram sua utilidade. (Grifos nossos)
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“A ação consciente de uma minoria”, “[curar] a decadência de nossa
língua”, [banir] expressões estrangeiras”, “jogar no lixo […] todas as
palavras e expressões que esgotaram sua utilidade”
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— tudo isso, proposto
como uma espécie de solução provisória, se não “final”, para a língua
inglesa, deveria despertar sensações e imagens mentais bastante estranhas
em 1946, quando Orwell escreveu o ensaio.
Ora, antes que me acusem de “politicamente correto”, de ingenuidade
metafórica ou de incapacidade de perceber uma intenção paródica, digo
desde já que estou aqui não para demolir, mas para louvar Orwell. O que
proponho não é condenar seu imaginário de violência, e sim tentar entender
sua identificação narrativa com condições extremas. Na verdade, quero
sustentar que é justamente quando Orwell narra o mal que sua virtuosidade
se converte numa espécie de virtuosismo. É quando o proselitista descamba
para o paranoico a serviço da boa causa que Orwell mostra maior
criatividade e perspicácia. “Essa invasão de nossa mente por expressões
prontas (lançar os alicerces, realizar uma transformação radical)”, escreve
Orwell (como que demonstrando meu argumento), “só pode ser evitada se
estivermos constantemente em guarda contra elas, e cada expressão dessas
anestesia uma parte de nosso cérebro”.
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É essa vigilância constante que
requer que a cura da língua se dê pela ação de uma minoria, matando isso,
livrando-se daquilo, expulsando o “outro”. A imagem mental que formamos
sobre a figura orwelliana — como um estilo de escrita e como um gênero
de homem — é muito mais complexa do que a do honesto artífice de
palavras e coisas, o Homo faber, que chegou a nós como o virtuoso entre os
gênios mais demoníacos de nossos tempos — Joyce, Stein, Woolf,
Lawrence e Conrad, para citar apenas alguns.
Se Mil novecentos e oitenta e quatro trata do declínio da “boa sociedade”
na esteira da decadência e do engano do duplipensamento, levando a uma
espécie de paranoia controlada entre seus personagens e leitores, ele
também é, por seu lado, escrito de uma perspectiva quase paranoica. Não


chego ao ponto de dizer, como Raymond Williams, que o próprio Orwell
era tão pessimista e paranoico que se esquivou à responsabilidade de traçar
as filiações positivas e produtivas entre indivíduos e classes progressistas.
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Quero sugerir que o projeto de reformar o uso da língua demonstrando
incessante e reiteradamente as estruturas dúplices e redutoras do
duplipensamento e da Novafala não deixa de criar uma espécie de paranoia
no escritor, não na pessoa, enquanto elabora para si uma persona na
narrativa. Essa opinião é sustentada num ensaio de 1940, chamado “New
Words”, em que Orwell afirma que “qualquer ataque a uma coisa tão
fundamental como a língua, um ataque, por assim dizer, à própria estrutura
de nossas mentes, é uma blasfêmia e, portanto, um perigo”.
13
 E prossegue
afirmando que uma reforma da língua é, na prática, uma interferência na
obra de Deus e gera aquele tipo de crença paranoica e supersticiosa das
crianças, de “que o ar está cheio de demônios vingadores esperando para
punir a arrogância”.
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 Aliás, o paranoico favorito de Freud, o juiz Schreber,
presidente do Supremo Tribunal da Saxônia, possuía ambas, a arrogância e
a paranoia. Vale a pena citar sua descrição da “invenção” da língua
fundamental (Grundsprache), como precursora do método-na-loucura do
duplipensamento. Eis um trecho do que Schreber escreveu sobre sua
doença, em 1903:
As almas a serem purificadas aprendiam, durante a purificação,
a língua falada pelo próprio Deus, a chamada “língua
fundamental” [“Grundsprache”], um alemão algo arcaico, mas
ainda vigoroso, que se caracteriza principalmente por uma
grande riqueza de eufemismos (assim, p. ex., recompensa com o
sentido oposto, de punição, veneno por alimento, suco por
veneno, profano por sagrado etc.).
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O que Orwell descreve como “exercícios deliberados de

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