1984 Edição especial


Partido. Talvez, afinal, os boatos sobre a existência de vastas conspirações



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1984 - Edicao especial - George Orwell
07 - Cronograma de Julho 2022

Partido. Talvez, afinal, os boatos sobre a existência de vastas conspirações
clandestinas fossem verdadeiros — talvez a Confraria realmente existisse!
Era impossível, apesar da infinidade de prisões e confissões e execuções, ter
certeza de que a Confraria não passava de invenção. Havia dias em que ele
acreditava em sua existência, outros em que não acreditava. Nada
confirmava o fato, além de vislumbres passageiros que talvez significassem
alguma coisa, talvez não significassem nada: fragmentos de conversa
ouvidos de forma difusa, rabiscos pouco legíveis nas paredes dos lavatórios
— uma vez, inclusive, ao presenciar o encontro de dois estranhos, um
mínimo movimento de mãos que lhe parecera um sinal de reconhecimento.
Tudo não passava de hipótese: muito provavelmente imaginara aquilo.
Voltara para sua estação de trabalho sem tornar a olhar para O’Brien. A
ideia de levar adiante aquele contato passageiro nem lhe passara pela
cabeça. Teria sido perigoso ao extremo, mesmo que soubesse como agir
para fazê-lo. Por um segundo, dois segundos, ele e O’Brien haviam trocado
um olhar equívoco, e ponto-final. Mas mesmo isso era um acontecimento
memorável na solidão cerrada em que eram obrigados a viver.
Winston saiu de seu torpor e endireitou o corpo na cadeira. Soltou um
arroto. O gim em seu estômago começava a subir.
Seus olhos voltaram a fitar a página. Constatou que durante o tempo em
que ficara ali sentado sentindo-se desamparado continuara a escrever, como
numa ação automática. E já não era a letra retraída e desajeitada de antes. A
pena deslizara voluptuosamente pelo papel macio, grafando em letras de
fôrma graúdas e nítidas:
ABAIXO O GRANDE IRMÃO
ABAIXO O GRANDE IRMÃO
ABAIXO O GRANDE IRMÃO
ABAIXO O GRANDE IRMÃO
ABAIXO O GRANDE IRMÃO
vezes sem fim, enchendo metade de uma página.


Não conseguiu evitar uma fisgada de pânico. Um absurdo, já que
escrever aquelas palavras específicas não era mais perigoso do que o ato
inicial de começar um diário; por um momento, porém, teve a tentação de
arrancar as páginas inutilizadas e deixar todo o projeto de lado.
Não o fez, porém, porque sabia que era inútil. O fato de escrever ou
deixar de escrever 
ABAIXO O GRANDE IRMÃO
era irrelevante. Não fazia a
menor diferença levar o diário adiante ou não. De toda maneira, a Polícia
das Ideias haveria de apanhá-lo. Cometera — e teria cometido, mesmo que
jamais houvesse aproximado a pena do papel — o crime essencial que
englobava todos os outros. Pensamento-crime, eles o chamavam. O
pensamento-crime não era uma coisa que se pudesse disfarçar para sempre.
Você até conseguia se esquivar durante algum tempo, às vezes durante anos,
só que mais cedo ou mais tarde, com toda a certeza, eles o agarrariam.
Era sempre à noite — as prisões invariavelmente aconteciam à noite. O
tranco súbito que arranca do sono, a mão brutal sacudindo o ombro, as luzes
ofuscando os olhos, o círculo de rostos impiedosos em torno da cama. Na
vasta maioria dos casos não havia julgamento, não havia registro de prisão.
As pessoas simplesmente desapareciam, sempre durante a noite. Seus
nomes eram removidos dos arquivos, todas as menções a qualquer coisa
que tivessem feito eram apagadas, suas existências anteriores eram negadas
e em seguida esquecidas. Você era cancelado, aniquilado. Vaporizado, esse
o termo costumeiro.
Por um momento, foi tomado por uma espécie de histeria. Começou a
escrever, em garranchos apressados e sem capricho:
vão me dar um tiro não me incomodo vão me dar um tiro na
nuca não me incomodo abaixo o grande irmão eles sempre
atiram na nuca não me incomodo abaixo o grande irmão…
Recostou-se outra vez na cadeira, um pouco envergonhado de si mesmo,
e largou a pena. No instante seguinte estremeceu com violência. Alguém
batia à porta.
Já!? Ficou ali sentado, imóvel feito um rato, na esperança inútil de que a
pessoa junto à porta fosse embora depois da primeira tentativa. Mas não,
bateram outra vez. O pior de tudo seria protelar. Seu coração batia como um
tambor, porém seu rosto provavelmente estava desprovido de expressão,


resultado de um longo hábito. Ergueu-se e se aproximou da porta arrastando
os pés.



2.
Quando apoiou a mão na maçaneta, Winston percebeu que havia deixado o
diário aberto em cima da mesa. Cobrindo o papel com letras garrafais, as
frases 
ABAIXO O GRANDE IRMÃO
quase podiam ser lidas do outro lado do
aposento. Um descuido de uma estupidez inconcebível. Contudo, Winston
se deu conta de que mesmo em pânico ele não quisera borrar o papel creme
fechando o diário com a tinta ainda úmida.
Respirou fundo e abriu a porta. No mesmo instante sentiu uma onda
cálida de alívio percorrer-lhe o corpo. Uma mulher pálida, de aparência
emaciada, cabelo ralo e rosto enrugado estava parada do lado de fora.
“Ah, camarada”, começou ela, num tom de voz monótono e queixoso,
“tive a impressão de ouvir você chegar. Será que poderia ir até a minha casa
dar uma olhada na pia da cozinha? Está entupida e…”
Era a sra. Parsons, mulher de um vizinho de andar. (“Sra.” era uma forma
de tratamento pouco favorecida pelo Partido — a ideia era chamar todo
mundo de “camarada” —, porém com certas mulheres seu uso era quase
instintivo.) Ela devia ter uns trinta anos, mas aparentava muito mais. Dava a
impressão de ter poeira acumulada nas rugas do rosto. Winston a seguiu
pelo corredor. Esses consertos de amador eram uma amolação quase diária.
Os apartamentos das Mansões Victory eram antigos, haviam sido
construídos em 1930, por volta disso, e estavam caindo aos pedaços. O
reboco do teto e das paredes vivia despencando, o encanamento estourava
com qualquer geada mais forte, havia goteiras no teto sempre que nevava, o
sistema de calefação costumava ser regulado em potência baixa, isso
quando não permanecia desligado por razões de economia. Os consertos
que os moradores não conseguiam fazer sozinhos precisavam ser
autorizados por comitês inacessíveis, capazes de retardar por dois anos uma
singela troca de vidraça.


“Claro que só estou pedindo sua ajuda porque o Tom não está em casa”,
disse a sra. Parsons sem mais explicações.
O apartamento dos Parsons era maior que o de Winston, e sua esqualidez
era de outro tipo. Tudo tinha um aspecto surrado, maltratado, como se um
animal grande e violento tivesse acabado de passar por ali. Apetrechos
esportivos — bastões de hóquei, luvas de boxe, uma bola de futebol furada,
um calção suado pelo avesso — estavam largados pelo chão, e sobre a mesa
via-se uma confusão de pratos sujos e livros de exercícios com as orelhas
dobradas. As paredes ostentavam bandeiras vermelhas da Liga da
Juventude e dos Espiões e um pôster em tamanho natural do Grande Irmão.
Sentia-se o tradicional cheiro de repolho cozido comum ao prédio inteiro,
só que temperado por um fedor ainda mais pronunciado de suor, que —
percebia-se à primeira farejada, embora fosse difícil explicar por quê — era
o suor de uma pessoa ausente no momento. Em outro cômodo alguém
utilizava um pente e um pedaço de papel higiênico para tentar acompanhar
o ritmo da marcha militar que continuava saindo da teletela.
“São as crianças”, disse a sra. Parsons, lançando um olhar um tanto
apreensivo para a porta. “Ainda não puseram os pés fora de casa hoje. E
claro que…”
Ela tinha o hábito de deixar as frases pela metade. A pia da cozinha
estava cheia quase até a borda de uma água imunda e esverdeada, cujo
cheiro de repolho era simplesmente insuportável. Winston se ajoelhou e
examinou o cotovelo do encanamento. Detestava ter de usar as mãos e
detestava ter de se abaixar, coisa que sempre podia provocar um acesso de
tosse. A sra. Parsons observava sem saber o que fazer.
“Claro que se o Tom estivesse em casa, resolvia o problema num
instante”, disse ela. “Ele adora fazer esse tipo de coisa. É muito habilidoso,
o Tom.”
Parsons trabalhava com Winston no Ministério da Verdade. Era um
sujeito gordinho mas diligente, de uma estupidez paralisante, um
amontoado de entusiasmos imbecis — um daqueles burros de carga
absolutamente submissos e dedicados de quem dependia, mais até que da
Polícia das Ideias, a estabilidade do Partido. Aos trinta e cinco anos,
acabara de ser excluído, contra a vontade, da Liga da Juventude, e antes de
ingressar na Liga da Juventude conseguira permanecer com os Espiões um
ano mais que a idade prevista nos estatutos. No Ministério, desempenhava


alguma função subalterna que não tivesse a inteligência como requisito; por
outro lado, porém, era figura de proa no Comitê Esportivo e em todos os
demais comitês responsáveis pela organização de caminhadas comunitárias,
manifestações espontâneas, campanhas de economia e atividades
voluntárias em geral. Com discreto orgulho, entre uma e outra baforada de
seu cachimbo, anunciava para quem quisesse ouvi-lo que tivera
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