1984 Edição especial



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1984 - Edicao especial - George Orwell
07 - Cronograma de Julho 2022
Statesman em 1938, Orwell comentou, quase de passagem, que
“Galsworthy foi um escritor ruim, e algum problema interno, que aguçava
sua sensibilidade, quase fez dele um bom escritor; depois que sua
insatisfação curou a si mesma, ele voltou a ser um escritor ruim. Vale fazer
uma pausa para se perguntar de que modo isso acontece conosco”.
Orwell se divertia com seus colegas de esquerda que viviam com medo
de ser chamados de burgueses. Mas em algum lugar entre seus próprios
temores poderia estar a possibilidade de que ele, como Galsworthy, pudesse
um dia perder sua raiva política e se tornar mais um apologista das coisas
como elas são. Sua raiva, permitimo-nos dizer, era preciosa para ele. Orwell
a adquiriu ao longo da vida — na Birmânia, em Paris e Londres e no
caminho para Wigan Pier, na Espanha, onde foi baleado e ferido pelos
fascistas —, investindo sangue, dor e trabalho duro para conquistá-la, e foi
tão apegado a sua raiva quanto qualquer capitalista a seu capital. Esse medo
de se acomodar demais, de se vender, pode ser uma preocupação própria
dos escritores. Quando se ganha a vida escrevendo, esse certamente é um
dos riscos, embora nem todo escritor se oponha a ele. A habilidade que o
elemento de poder tem de cooptar dissidentes sempre foi um perigo — na


verdade, de modo não muito diferente do processo pelo qual o Partido, em
1984, é eternamente capaz de se renovar de baixo para cima.
Tendo vivido junto dos trabalhadores pobres e desempregados da
Depressão de 1930 e aprendido o valor verdadeiro e imperecível deles,
Orwell concedeu a Winston Smith uma fé similar nos equivalentes de 1984,
os proletas, como a única esperança de libertação do inferno distópico da
Oceânia. Na mais bela passagem do romance — belo na definição de Rilke,
o início de um terror capaz de ser suportado —, Winston e Julia, pensando
estarem a salvo, olham através da janela para a mulher que canta no pátio, e
Winston, fitando o céu, tem uma visão quase mística dos milhões que
vivem debaixo dele, “pessoas que não tinham aprendido a pensar, mas que
acumulavam em seus corações, ventres e músculos a força que um dia
subverteria o mundo. Se é que há esperança, ela está nos proletas!”. É o
momento que antecede a prisão de Winston e Julia, quando tem início o
clímax frio e terrível do livro.
Antes da guerra, Orwell demonstrara em algumas ocasiões seu desprezo
por cenas gráficas de violência na ficção, particularmente na literatura
policial americana disponível em revistas pulp. Em 1936, na crítica de um
livro de detetives, ele cita uma passagem que descreve um espancamento
brutal e metódico, o qual prenuncia de modo quase sobrenatural as
experiências de Winston Smith no Ministério do Amor. O que aconteceu? A
Espanha e a Segunda Guerra Mundial, é o que parece. O que era uma
“porcaria intragável” em tempos mais retraídos torna-se, na era do pós-
guerra, parte do vernáculo da educação política, que será institucionalizado
na Oceânia em 1984. No entanto, Orwell não pode se dar ao luxo de
insultar a carne e o espírito de qualquer personagem de maneira irrefletida,
como um escritor pulp qualquer. A escrita é por vezes difícil de
acompanhar, como se o próprio Orwell estivesse sentindo cada momento do
suplício de Winston.
Num romance detetivesco, porém, a motivação — tanto do escritor como
dos personagens — normalmente é financeira, quase sempre por valores
baixos. “O fato de que um homem deve ser assassinado não é algo
divertido”, escreveu Raymond Chandler, “mas às vezes é divertido que ele
deva ser assassinado por tão pouco, e que sua morte seja a moeda do que
chamamos de civilização.” O que já não é tão divertido é quando essa
motivação financeira não está presente. Podemos confiar num policial que


aceita suborno, mas o que acontece quando nos deparamos com um fanático
da lei e da ordem que não aceitará? O regime da Oceânia parece imune ao
poder de sedução da riqueza. Seus interesses estão em outro lugar, no
exercício do poder em si mesmo, na guerra inexorável contra a memória, o
desejo e a linguagem como veículo do pensamento.
É relativamente fácil lidar com a memória, do ponto de vista totalitário.
Sempre há alguma agência como o Ministério da Verdade para negar as
lembranças de alguém, para reescrever o passado. Em 2003, tornou-se
comum que os funcionários do governo ganhem mais que nós para aviltar a
história, trivializar a verdade e aniquilar o passado diariamente. Aqueles
que não aprendem com a história costumavam ter que revivê-la, mas isso
foi apenas até que os que estão no poder pudessem encontrar um modo de
convencer a todos, inclusive a eles mesmos, de que a história nunca
aconteceu, ou que aconteceu de uma maneira que servisse melhor aos seus
propósitos — ou, ainda melhor, de que a história afinal não tem importância
senão como um tolo documentário de 
TV
destinado a uma horinha de
entretenimento.
Controlar o desejo, entretanto, é uma tarefa mais problemática. Hitler era
conhecido por suas preferências sexuais pouco convencionais. Só Deus
sabe o que Stálin curtia. Até os fascistas têm necessidades, as quais o
desfrute do poder ilimitado permitirá que saciem — ou ao menos eles assim
sonham. De modo que, embora possam estar dispostos a atacar o perfil
psicossexual daqueles que os ameaçam, pode haver ao menos algum
momento de hesitação antes do ataque. Naturalmente que, quando todo o
aparato de imposição for atribuído aos computadores, os quais, pelo menos
da forma como são feitos atualmente, não experimentam desejos de nenhum
tipo que consideraríamos interessante, aí será outra história. Mas em 1984
isso ainda não havia acontecido. Como o desejo em si não pode ser sempre
facilmente cooptado, o Partido não tinha escolha senão adotar, como meta
final, a abolição do orgasmo.
O fato de que o desejo sexual, tomado em seus próprios termos, é

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