1984 Edição especial


particular, um traço tão proeminente do fascismo que Orwell conheceu. Isso



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1984 - Edicao especial - George Orwell
07 - Cronograma de Julho 2022

particular, um traço tão proeminente do fascismo que Orwell conheceu. Isso
há de deixar perplexo o leitor moderno. O único personagem judeu no
romance é Emmanuel Goldstein, e talvez apenas porque o original, Liev
Trótski, fosse judeu também. Ele é uma presença que permanece fora da
ação, cuja função real em 1984 é fornecer uma voz expositiva, como o autor
de Teoria e prática do coletivismo oligárquico.
Muito se comentou recentemente sobre a própria atitude de Orwell em
relação aos judeus, com alguns críticos chegando ao ponto de chamá-lo de
antissemita. Se examinarmos sua escrita da época à procura de referências
abertas ao assunto, encontramos relativamente pouco — as questões
judaicas não parecem ter chamado muito a sua atenção. Fato é que o
material publicado parece indicar ou uma espécie de entorpecimento diante


da enormidade do que aconteceu nos campos de concentração, ou uma
incapacidade em algum nível de se compreender seu significado mais
amplo. Sente-se uma reserva, como se com tantos outros assuntos
importantes com que se preocupar, Orwell preferisse que o mundo não
tivesse que arcar com a inconveniência adicional de ter que pensar muito
sobre o Holocausto. O romance pode até mesmo ter sido seu modo de
redefinir um mundo no qual o Holocausto não tivesse existido.
O mais próximo que 1984 chega de um momento antissemita é a prática
ritual dos Dois Minutos de Ódio, apresentada no início do romance, quase
como um mecanismo da trama para apresentar Julia e O’Brien, os dois
outros personagens principais. Mas a exibição de antigoldsteinismo descrita
com imediatez tóxica nunca é generalizada como algo de caráter racial. A
estratégia de se colocar raça contra raça não parece estar presente na caixa
de ferramentas do Partido. “Tampouco existe qualquer tipo de
discriminação racial”, confirma Emmanuel Goldstein no livro. “Judeus,
negros, sul-americanos de pura origem índia são encontrados nos mais altos
escalões do Partido…” Ao que tudo indica, Orwell considerava o
antissemitismo “uma variação da grande doença moderna que é o
nacionalismo”, e o antissemitismo britânico em particular como outra forma
de estupidez britânica. Ele pode ter acreditado que, na época da
coalescência tripartite do mundo que imaginou para 1984, os nacionalismos
europeus aos quais estava acostumado não existiam mais, talvez porque as
nações, e por consequência as nacionalidades, teriam sido abolidas e
absorvidas em identidades mais coletivas. Em meio ao pessimismo geral do
romance, isso pode parecer a nós, sabendo o que sabemos hoje, uma análise
injustificadamente jovial. Os ódios que Orwell nunca considerou muito
mais que ridículos determinaram muito da história desde 1945 para serem
tão facilmente rejeitados.
Além da presença inesperada da tolerância racial na Oceânia, a estrutura
de classes também é um pouco atípica. Oceânia deveria ser uma sociedade
sem classes, mas não é. Ela se divide em Núcleo do Partido, Partido
Externo e proletas. Mas como a história é contada do ponto de vista de
Winston Smith, que pertence ao Partido Externo, os proletas são
amplamente ignorados, assim como o são pelo próprio regime. Apesar de
sua admiração pelos proletas como uma força de salvação, e de sua fé no
triunfo final deles, Winston Smith não parece conhecer nenhum proleta —


seu único contato pessoal, e indireto, é com a senhora que canta do lado de
fora da sala nos fundos do antiquário que serve de refúgio amoroso para ele
e Julia. “Fazia várias semanas que só se ouvia aquilo em Londres. Era uma
das inúmeras canções, todas muito parecidas, compostas para uso dos
proletas por uma subseção do Departamento de Música.” Pelos padrões
poéticos do Núcleo do Partido, a canção era uma “bobagem”, uma “porcaria
intragável”. Orwell, porém, cita a canção três vezes, quase palavra por
palavra. Há algo mais acontecendo aqui? Não podemos ter certeza, mas
gostamos de imaginar que Orwell, um compositor disfarçado que amava
escrever versos melodiosos com uma cadência, também tenha criado uma
melodia real para essa letra, e que, enquanto escrevia 1984, andava por aí
cantarolando e assobiando a melodia, talvez por dias a fio, levando os
vizinhos à loucura. Seu próprio julgamento artístico não era o mesmo de
Winston Smith, um burguês do fim da década de 1940 projetado no futuro.
Orwell apreciava o que agora chamamos de cultura pop — sua fidelidade,
tanto em música quanto em política, pertencia ao povo.
Numa crítica de um romance de John Galsworthy publicada no New

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