1984 Edição especial



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1984 - Edicao especial - George Orwell
07 - Cronograma de Julho 2022
oligárquico, de Emmanuel Goldstein, um texto perigosamente subversivo,
proscrito na Oceânia e conhecido somente como o livro, o duplipensamento
é uma forma de disciplina mental cujo objetivo, desejável e necessário para
todos os membros do Partido, é ser capaz de acreditar em duas verdades
contraditórias ao mesmo tempo. Claro está que isso não é nenhuma
novidade. Todos fazemos isso. Na psicologia social, é conhecido há muito
tempo como “dissonância cognitiva”. Outros gostam de chamá-lo de
“compartimentalização”. Alguns, notoriamente F. Scott Fitzgerald, o
consideravam uma prova de genialidade. Para Walt Whitman (“Eu me
contradigo? Pois muito bem, eu me contradigo”), era ser grande e conter
multidões; para Yogi Berra, era ir até uma bifurcação na estrada e seguir por
ela; para o gato de Schrödinger, era o paradoxo quântico de estar vivo e
morto ao mesmo tempo.
A ideia parece ter exposto Orwell a seu próprio dilema, uma espécie de
metaduplipensamento, provocando nele repulsa com seu potencial ilimitado
para o mal e ao mesmo tempo fascinando-o com sua promessa de ser uma
maneira de transcender os contrários — como se uma forma aberrante de
zen-budismo, cujos koans fundamentais fossem os três slogans do Partido,
“Guerra é Paz”, “Liberdade é Escravidão” e “Ignorância é Força”, estivesse
sendo aplicada com propósitos malignos.
A encarnação consumada do duplipensamento no romance é o oficial
O’Brien, o sedutor e traidor, protetor e destruidor de Winston. Ele acredita
com toda a sinceridade no regime a que serve, podendo todavia
perfeitamente se fazer passar por um revolucionário dedicado,
comprometido com a deposição do regime. O’Brien pensa em si como uma
mera célula do organismo maior do Estado, mas é de sua individualidade
convincente e contraditória que lembramos. Embora seja um porta-voz
calmamente eloquente do futuro totalitarista, O’Brien revela aos poucos um
lado desequilibrado, um desprendimento da realidade que emerge com toda


a sua repugnância durante a reeducação de Winston Smith, no local de dor e
desespero conhecido como Ministério do Amor.
O duplipensamento também está por trás dos nomes dos superministérios
que regem as coisas em Oceânia — o Ministério da Paz promove a guerra,
o Ministério da Verdade conta mentiras, o Ministério do Amor tortura e
chega a matar aqueles que considera uma ameaça. Se isso parece
excessivamente perverso, lembre-se que nos Estados Unidos dos dias de
hoje poucos veem problemas num aparato de guerra chamado
“Departamento de Defesa”, assim como não temos problemas em
pronunciar “Departamento de Justiça” a sério, apesar dos abusos bem
documentados contra os direitos humanos e constitucionais cometidos por
seu mais temível braço, o 
FBI
. De nossa chamada imprensa livre é exigida a
apresentação de uma cobertura “balanceada”, na qual toda “verdade” é
imediatamente neutralizada por outra igual e oposta. Todos os dias a
opinião pública é alvo da história reescrita, da amnésia oficial e da mentira
deslavada, chamadas benevolentemente de “spin”, como se isso não fosse
algo mais perigoso que uma volta no carrossel. Sabemos mais do que nos
dizem, mas torcemos para estarmos enganados. Acreditamos e duvidamos
ao mesmo tempo; parece ser uma condição do pensamento político no
superestado moderno que se tenha sempre duas opiniões sobre muitas
questões. Desnecessário dizer que isso é de uso inestimável para aqueles no
poder que desejam lá permanecer, de preferência para sempre.
Além da ambivalência da esquerda em relação às realidades soviéticas,
outras oportunidades para o duplipensamento entrar em ação surgiram no
despertar da Segunda Guerra Mundial. Em seu momento de euforia, o lado
vencedor cometia, na visão de Orwell, erros tão fatais quanto qualquer um
dos cometidos pelo Tratado de Versalhes depois da Primeira Guerra
Mundial. Não obstante as intenções sobretudo honradas, na prática a
divisão dos despojos entre os antigos aliados tinha potencial para erros
fatais. O desconforto de Orwell em relação à “paz” é na verdade um
importante subtexto de 1984.
“O que realmente pretendemos fazer”, escreveu Orwell a seu editor no
fim de 1948 — até onde sabemos, o início da fase de revisão do romance
—, “é discutir as implicações da divisão do mundo em ‘zonas de influência’
(pensei nisso em 1944, como um resultado da Conferência de Teerã)…”


Bem, é claro que não se deve confiar nos romancistas quando revelam as
fontes de sua inspiração. Mas esse processo de invenção em particular
suporta o exame. A Conferência de Teerã, realizada no fim de 1943, foi o
primeiro encontro da cúpula dos aliados na Segunda Guerra Mundial, e
contou com a presença de Roosevelt, Churchill e Stálin. Entre os tópicos
discutidos, estava o modo como, depois que a Alemanha nazista fosse
derrotada, os aliados iriam dividi-la em zonas de ocupação. Quem levaria
quanto da Polônia era outro assunto. Ao imaginar a Oceânia, a Eurásia e a
Lestásia, Orwell parece ter dado um salto em escala em relação aos
diálogos de Teerã, projetando a ocupação de um país derrotado na de um
mundo derrotado. Embora a China não tenha sido incluída — em 1948 a
revolução chinesa ainda estava em curso —, Orwell estivera no Extremo
Oriente e fez melhor do que ignorar o peso da Lestásia quando preparou seu
próprio esquema de zonas de influência. O pensamento geopolítico
naqueles tempos estava encantado com o conceito de “ilha mundial” do
geógrafo britânico Halford Mackinder — que considerava a Europa, a Ásia
e a África como uma única massa terrestre cercada por água, “o eixo da
história”, cujo coração do mundo era a “Eurásia” de 1984. “Aquele que
governa o coração do mundo comanda a ilha mundial”, explicou
Mackinder, e “aquele que governa a ilha mundial comanda o mundo”, uma
declaração válida para Hitler e para outros teóricos da realpolitik.
Um desses mackinderistas com conexões nos círculos de inteligência era
James Burnham, um ex-trotskista americano que por volta de 1942 havia
publicado uma provocadora análise da crise mundial conhecida então como

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