1984 Edição especial



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1984 - Edicao especial - George Orwell
07 - Cronograma de Julho 2022
Raymond Williams nasceu em 1921, em Monmouthshire, País de Gales.
Escritor, professor universitário, intelectual militante, crítico literário e
romancista, sua obra foi extremamente importante na constituição da nova
esquerda britânica e na consolidação e expansão dos estudos culturais.
Entre seus principais livros, estão Cultura e sociedade, de 1958, e O campo
e a cidade, de 1973. Williams morreu na Inglaterra, em 1988.
1
George Orwell, The Collected Essays, Journalism and Letters of George Orwell, v. 4.
Org. de Sonia Orwell e Ian Angus. Nova York; Londres: Harcourt Brace Jovanovich, 1968,
p. 502.
2
 Ibid., pp. 329-30.
3
 Ibid., p. 502.
4
 Ibid.
5
 Ibid., p. 8.
6
 Burnham and the Managerial Revolution (1946); Burnham and the Contemporary World
Struggle (1947).
7
 Cf. pp. 236-7 desta edição.
8
 George Orwell, Collected Essays, v. 4, p. 371.
9
 Ibid.
10
 Ibid., p. 8.
11
 Cf. p. 236 desta edição.
12
 Cf. pp. 252-3 desta edição.
13
 George Orwell, Collected Essays, v. 4, pp. 176-7.
14
 Ibid., p. 160.
15
 Ibid., p. 165.


16
 Ibid.
17
 Ibid., p. 177.
18
 Ibid., p. 170.
19
 Ibid., p. 174.


RUMO 
1984
THOMAS PYNCHON
Introdução à edição publicada pela
Plume (Penguin), 2003.


George Orwell nasceu Eric Arthur Blair em 25 de junho de 1903, em
Motihari, uma pequena cidade em Bengala, próxima à fronteira com o
Nepal, no meio de uma região com farta produção de ópio. Seu pai
trabalhava lá como agente do Departamento Britânico de Ópio, não
prendendo os cultivadores, mas supervisionando o controle de qualidade do
produto, do qual a Grã-Bretanha havia muito detinha o monopólio. Um ano
depois, o jovem Eric estava de volta à Inglaterra com sua mãe e sua irmã,
não retornando àquela região até 1922, na qualidade de oficial júnior da
Polícia Imperial Indiana na Birmânia. O emprego pagava bem, mas Orwell
decidiu abandoná-lo quando voltou para casa de licença em 1927, para
desespero de seu pai, porque o que ele realmente queria fazer da vida era
ser escritor, e foi o que se tornou. Em 1933, com a publicação de seu
primeiro livro, Na pior em Paris e Londres, adotou o pseudônimo de
George Orwell, nome pelo qual ficou conhecido desde então. Orwell fora
um dos nomes que havia utilizado enquanto vagabundeava pela Inglaterra, e
cuja inspiração pode ter sido um rio homônimo em Suffolk.
1984 foi seu último livro — quando foi lançado, em 1949, Orwell já
havia publicado outros doze, incluindo o muito aclamado e popular A
revolução dos bichos. Num ensaio datado do verão de 1946, “Por que
escrevo”, ele recordou que “A revolução dos bichos foi o primeiro livro em
que tentei, com plena consciência do que fazia, amalgamar os propósitos
político e artístico. Faz sete anos que não escrevo um romance, mas espero
escrever outro muito em breve. Será fatalmente um fracasso, todo livro é


um fracasso, porém tenho uma clara noção do tipo de livro que pretendo
escrever”.
1
 Logo depois estava trabalhando em 1984.
De certa forma, esse romance foi uma vítima do sucesso de A revolução
dos bichos, lido por muitas pessoas como uma franca alegoria do destino
melancólico da Revolução Russa. Desde o minuto em que o bigode do
Grande Irmão surge no segundo parágrafo de 1984, muitos leitores,
lembrando imediatamente de Stálin, mantiveram o hábito de tecer analogias
ponto a ponto, como haviam feito na obra anterior. Embora o rosto do
Grande Irmão certamente seja o de Stálin, do mesmo modo que o rosto de
Emmanuel Goldstein, o desprezado herege do Partido, é o de Trótski, os
dois não se alinham a seus modelos de maneira tão elegante quanto
Napoleão e Bola de Neve em A revolução dos bichos. Isso não impediu que
o livro fosse vendido nos Estados Unidos como uma espécie de tratado
anticomunista. O romance foi publicado no auge da era McCarthy, quando
o “comunismo” era oficialmente condenado como uma ameaça mundial,
monolítica, e não havia motivo até mesmo para distinguir Stálin de Trótski,
assim como não haveria motivo para que pastores ensinassem às ovelhas
sobre as nuances do reconhecimento de lobos.
O conflito da Coreia (1950-3) logo lançaria um foco sobre a pretensa
prática comunista de imposição ideológica através da “lavagem cerebral”,
um conjunto de técnicas supostamente baseado no trabalho de I. P. Pavlov,
que treinara cães para salivar respondendo a estímulos, de modo que os
tecnocratas soviéticos que vieram depois dele estariam condicionando seus
espécimes humanos a reflexos políticos úteis ao Estado. Presumia-se que os
russos es- tavam compartilhando esses métodos com seus fantoches, os
comunistas chineses e norte-coreanos. Que algo muito parecido com o
processo de lavagem cerebral aconteça com Winston Smith, o herói de
1984, em longos e aterrorizantes detalhes, não causou surpresa aos leitores
determinados a interpretar o romance como uma simples condenação das
atrocidades stalinistas.
Essa não era exatamente a intenção de Orwell. Embora 1984 tenha
fornecido apoio e encorajamento a gerações de ideólogos anticomunistas
detentores de reações pavlovianas próprias, a política de Orwell não apenas
era de esquerda, mas à esquerda da esquerda. Ele fora à Espanha em 1937
para lutar contra Franco e seus fascistas simpáticos ao nazismo, e lá
aprendeu rapidamente a diferença entre o antifascismo real e o falso. “A


guerra espanhola e outros eventos de 1936-7”, escreveu dez anos mais
tarde, “fizeram a balança pender, e depois disso eu sabia onde estava. Cada
linha de trabalho sério que redigi desde 1936 foi escrita, direta ou
indiretamente, contra o totalitarismo e a favor do socialismo democrático,
tal como o conheço.”
Orwell via a si mesmo como um membro da “esquerda dissidente”,
distinta da “esquerda oficial”, que significava basicamente o Partido
Trabalhista Britânico, do qual boa parte ele passara a enxergar, bem antes
da Segunda Guerra Mundial, como potencialmente, se não já fascista. Mais
ou menos de forma consciente, fez uma analogia entre o Partido Trabalhista
e o Partido Comunista sob o domínio de Stálin, os quais, sentia, eram
movimentos que professavam a luta das classes trabalhistas contra o
capitalismo, mas que na verdade estavam preocupados apenas em
estabelecer e perpetuar seu próprio poder. As massas só existiam para ser
manobradas: por seu idealismo, seus ressentimentos de classe, sua
disposição para trabalhar em troca de pouco — e para ser vendidas
repetidas vezes.
Pois bem, aqueles com disposição fascista — ou simplesmente aqueles
de nós sempre dispostos a justificar qualquer ação governamental, certa ou
errada — irão imediatamente insinuar que esse é um raciocínio típico do
período pré-guerra e que, no instante em que as bombas do inimigo
começam a cair em sua pátria-mãe, alterando a paisagem e produzindo
vítimas entre amigos e vizinhos, todo esse tipo de coisa, na verdade, torna-
se irrelevante, se não de fato subversivo. Com a pátria-mãe em perigo, uma
liderança forte e medidas eficientes tornam-se indispensáveis, e se você
quer chamar isso de fascismo, muito bem, chame como preferir, é provável
que ninguém esteja ouvindo, pois estão na expectativa de que os ataques
aéreos terminem e de que o alarme que anuncia o fim dos bombardeios soe.
Mas o fato de um argumento — para não dizer uma profecia — ser
inconveniente no calor de alguma emergência posterior não o torna
necessariamente errado. Pode-se certamente argumentar que o conselho de
guerra de Churchill se comportou de maneira semelhante a um regime
fascista: censurando notícias, controlando salários e preços, restringindo
viagens, subordinando as liberdades civis às autodefinidas necessidades de
tempos de guerra.


A crítica de Orwell à esquerda oficial da Inglaterra sofreria algumas
modificações em julho de 1945, quando, na primeira oportunidade que lhe
foi concedida, o eleitorado britânico, com uma vitória esmagadora, rejeitou
seus governantes dos tempos de guerra e instalou um governo trabalhista
que permaneceria no poder até 1951 — além do que restava de vida a
Orwell —, período durante o qual o Partido Trabalhista finalmente teve sua
chance de reformar a sociedade britânica de acordo com a orientação
“socialista”. Orwell, um eterno dissidente, deve ter se deleitado em prestar
auxílio ao partido no enfrentamento de suas contradições, notavelmente das
que surgiram de sua aquiescência a um governo repressivo e conservador,
no qual teve participação na época da guerra. Tendo desfrutado e exercido
esse tipo de poder, quão provável seria que o Partido Trabalhista escolhesse
não ampliar seu campo de ação e se manter fiel aos ideais de seus
fundadores, voltando a lutar ao lado dos oprimidos? Projetando essa
vontade de poder quatro décadas no futuro, poderíamos facilmente chegar
ao Socing, à Oceânia e ao Grande Irmão.
É claro o desespero de Orwell a respeito da condição do “socialismo” no
pós-guerra a partir de cartas e artigos da época em que trabalhava em 1984.
O que havia sido, na época de Keir Hardie, uma luta honrada contra o
comportamento sem dúvida criminoso do capitalismo em relação àqueles
que usou para o lucro, tornou-se, na época de Orwell, algo
vergonhosamente institucional, comprado e vendido, em muitos casos
preocupado apenas em se manter no poder. E isso apenas na Inglaterra —
no exterior, esse impulso tinha se corrompido ainda mais, de maneiras
incomensuravelmente mais sinistras, levando por fim aos gulags de Stálin e
aos campos de concentração nazistas.
Orwell parece ter ficado particularmente incomodado com a fidelidade
generalizada da esquerda ao stalinismo, mesmo diante de evidências
esmagadoras da natureza maldosa do regime. “Por razões um tanto
complexas”, escreveu ele em março de 1948, no início da revisão do
primeiro esboço de 1984, “quase toda a esquerda inglesa foi levada a aceitar
o regime russo como ‘socialista’, embora reconhecesse em silêncio que o
espírito e a prática daquele regime eram inteiramente diferentes de tudo que
significava ‘socialismo’ neste país. Por consequência, surgiu uma espécie
de sistema de pensamento esquizofrênico, no qual palavras como
‘democracia’ podem comportar dois significados irreconciliáveis, e coisas


como campos de concentração e deportações em massa podem ser ao
mesmo tempo certas e erradas.”
Reconhecemos essa “espécie de sistema de pensamento esquizofrênico”
como a fonte de uma das grandes realizações desse romance, que entrou na
linguagem cotidiana do discurso político — a identificação e a análise do
duplipensamento. Tal como descrito em Teoria e prática do coletivismo

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