1984 Edição especial


Partido. É verdade que, em larga medida, foi o que aconteceu nos países sob



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1984 - Edicao especial - George Orwell
07 - Cronograma de Julho 2022

Partido. É verdade que, em larga medida, foi o que aconteceu nos países sob
o regime hoje chamado de “socialismo real”. Com efeito, a única retificação
a fazer nessa área é que “o Partido”, naquela acepção ideológica estrita, tem
se demonstrado menos significativo do que a combinação concreta de
técnicos, burocratas e soldados que se torna possível e ganha legitimidade
graças ao monopólio político do Partido.


A GRANDE RECUPERAÇÃO DO CAPITALISMO
Mas o que realmente corroeu as bases da previsão de Orwell foi a
recuperação fenomenal do capitalismo, que ele considerava “condenado”. A
espetacular explosão econômica de meados dos anos 1950 ao início dos
anos 1970 refutou praticamente todos os elementos daquela previsão
específica. Muitos milhões de trabalhadores tiveram uma real melhoria no
padrão de vida. Os principais movimentos socialistas das velhas sociedades
industriais avançaram de forma constante rumo a um consenso com o novo
e próspero capitalismo administrado. Não houve novas supressões de
liberdades políticas, embora tenha se tornado mais caro exercê-las. O
principal motor da explosão econômica, numa ampliação extraordinária do
crédito ao consumidor, foi um novo predomínio das instituições financeiras,
cujo poder aumentou em detrimento das forças políticas e industriais.
Quando a explosão econômica terminou, com a depressão e a volta do
desemprego em massa, havia claramente uma nova oligarquia à vista. As
instituições monetárias nacionais e internacionais, com seus correlatos nas
gigantescas corporações paranacionais, haviam estabelecido um domínio
prático e ideológico que, longe de se abalar com a primeira década de
depressão e desemprego, na verdade foi reforçado por ela. Essas foram as
verdadeiras forças que nos usaram como “capachos”, tanto nas velhas
sociedades industriais quanto nos novos países ex-colônias. No plano
interno e no plano externo, tinham todos os traços de uma verdadeira
oligarquia, e pelo menos algumas pessoas começaram a entender que a
“centralização” não é apenas uma velha panaceia socialista, e sim um
processo prático dos mercados financeiros e das grandes corporações
capitalistas, cada vez maiores e mais concentradas. O poder de Estado,
nesse meio-tempo, embora tentando recuar de seus compromissos
anteriores em prover ao bem-estar social, ampliou-se nas esferas militares,
nos novos sistemas armamentistas e em suas definições da lei, da ordem e
da segurança (amparando-se num certo grau de vigilância intensiva).
Assim, temos um claro exemplo de duplipensamento quando a direita
radical, agora ocupando o poder em tantos países, denunciava o Estado no


plano da assistência social ou da justiça econômica e aplaudia o mesmo
Estado no plano do militarismo patriótico, da lealdade policial e do controle
sobre as instituições democráticas locais. Ouvindo alguns dos mais
estridentes defensores desse duplo critério, entendemos o que significa
patofalosoduplomaisbom na Novafala.
Mas e os “proletas”? A esse respeito também Orwell errou muito em sua
previsão, embora existam alguns desiludidos achando que ele pode ter
acertado. Pois a característica central da nova oligarquia capitalista é que
ela não deixou “oitenta e cinco por cento da população” entregue a si
mesma. Pelo contrário, tem tido sucesso em organizá-los como mercado,
chamando-os não mais de “proletas” e sim de “consumidores” (os dois
termos são igualmente degradantes). É verdade que os jornais e outros
meios de comunicação da oligarquia garantem o abastecimento maciço de
semipornografia, de jogos de apostas e obras ficcionais produzidas
mecanicamente, que caberia ao Partido fornecer. Mas os verdadeiros
controles são outros. Ofereceu-se um contrato direto entre a mão de obra
assalariada e disciplinada e o consumo com financiamento de crédito, e esse
contrato teve ampla aceitação. Mesmo quando, durante a depressão, deixou
de ser acessível aos muitos milhões de trabalhadores que se tornaram,
naquele cruel termo oligárquico, “redundantes”, seu controle social e
político, como a própria essência de qualquer ordem social, não sofreu
qualquer abalo de início. Na verdade, a reação ideológica da oligarquia foi
dar mais segurança ao contrato: submetendo os sindicatos que
representavam um elemento de negociação independente, para além do
controle oligárquico, e apontando como inimigos públicos, em seus
veículos de imprensa, as figuras políticas dissidentes (não a “oposição
oficial apropriada”, mas os Vermelhos, Demolidores e Extremistas “não
oficiais” que, ao bom estilo de Mil novecentos e oitenta e quatro, eram
vistos como loucos ou culpados de pensamentos-crime).



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