1984 Edição especial



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1984 - Edicao especial - George Orwell
07 - Cronograma de Julho 2022
A NOVA ORDEM SOCIAL
“Guerra é Paz” é um capítulo notável do livro. Como crítica a um estado
perpétuo e normalizado de guerra, seus detalhes podem ser equivocados,
mas o sentimento é correto. “Somos o movimento da paz”, disse um
ministro do governo britânico pouco tempo atrás, apoiando a próxima fase
de rearmamento.
“Ignorância é Força” é o outro capítulo principal do livro. Ele descreve os
métodos e objetivos do controle do pensamento, mas tem início com uma
análise da estrutura social dos superestados, baseada numa espécie de teoria
histórico-política:
Ao longo de todo o tempo registrado e provavelmente desde o
fim do Neolítico, existem três tipos de pessoas no mundo: as
Altas, as Médias e as Baixas. Essas pessoas se subdividiram de
várias maneiras, responderam a um número incontável de
diferentes nomes, e seus totais relativos, bem como sua atitude
umas para com as outras, têm variado de uma época para outra:
mas a estrutura primordial da sociedade jamais foi alterada.
Mesmo depois de tremendas comoções e mudanças
aparentemente irrevogáveis, o mesmo modelo sempre voltou a
se firmar […].
11
É em passagens como essa que a posição do livro em relação ao
pensamento do próprio Orwell se mostra mais problemática. Poderíamos
citar muitos exemplos que demonstram que ele entendia a história mais
como mudança do que como essa recorrência abstrata. Esse aspecto
ressurge quando o livro afirma:
[...] nenhum progresso na área da riqueza, nenhum refinamento
da educação, nenhuma reforma ou revolução jamais serviram
para que a igualdade entre os homens avançasse um milímetro
que fosse.
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Isso, tal como está escrito, é um absurdo tão grande que prejudica todo o
argumento. Se fosse realmente verdade, não haveria razão para dizer que o
Socing é uma “distorção”: seria apenas mais um exemplo de um processo
inevitável e até intrínseco.
É claro que Orwell não acreditava nisso e tampouco o autor ou os autores
do livro, uma ou duas páginas adiante. Pois o que se sustenta ali é que em
períodos anteriores, devido ao estágio de desenvolvimento dos meios de
produção, “a desigualdade era o preço da civilização”, mas que no século
XX
“a igualdade humana se tornara tecnicamente possível” com o
desenvolvimento da “produção mecanizada”. Todavia, foi exatamente nesse
momento que “todas as principais correntes do pensamento político”
deixaram de acreditar na igualdade e se tornaram autoritárias.
Esta é uma composição imperfeita de três tipos de argumentos
incompatíveis entre si: um de Orwell, outro de Burnham e outro de Marx. É
inequívoca a presença da proposição marxista das inevitáveis relações entre
as fases de desenvolvimento dos meios de produção e a formação de
sociedades de classes, com a interpretação comunista ortodoxa de que a
produção industrial plenamente desenvolvida enfim possibilitaria a
igualdade. Também é evidente o argumento ou ressalva de Orwell de que
grande parte desse discurso entre seus representantes concretos não passa
de um disfarce para uma nova conspiração autoritária, encerrando o
capitalismo, mas então controlando e reprimindo ainda mais cabalmente a
classe operária. Todavia, o elemento mais divergente, mesmo que depois
venha a predominar, provém de Burnham. Como Orwell resume as posições
de Burnham no primeiro ensaio:
Todo grande movimento social, toda guerra, toda revolução,
todo programa político, por edificante e utópico que seja, na
verdade tem por trás as ambições de algum grupo setorial
disposto a tomar o poder para si […]. Assim, a história consiste
numa série de engodos, em que as massas primeiro são atraídas
para a revolta pela promessa da Utopia e depois, quando
cumpriram a tarefa, são novamente escravizadas pelos novos
senhores.
13


Orwell percorre no ensaio essas proposições toscas com vagar e
perspicácia. Chega a comentar:
Ele […] supõe que a divisão da sociedade em classes serve à
mesma finalidade em todas as épocas. Isso é, na prática, ignorar
a história de centenas de anos.
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E então passa à proposição marxista, repetida no livro, sobre a relação
entre a sociedade de classes e os modos de produção.



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