1984 Edição especial



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1984 - Edicao especial - George Orwell
07 - Cronograma de Julho 2022
ISOLANDO OS TEMAS
Esses três temas precisam ser considerados em detalhe, tanto na forma
como Orwell os apresenta quanto na história concreta a que se prestam a
traçar relações. É de especial importância considerar os três e ver como
Orwell os pensava essencialmente inter-relacionados. Mas, por ironia, só é
possível considerá-los com a seriedade que ele pretendia se os isolarmos
temporariamente da estrutura efetiva do romance e, em caráter mais
permanente, das ressonâncias que vieram a cercá-lo desde sua publicação.
Seria possível, por exemplo, fazer uma verificação um tanto frívola das
projeções do livro. Existe uma liga antissexo? Existe um aparelho de tevê
que recebe e transmite simultaneamente, para espionar as pessoas em seus
lares? Existe algo como os Dois Minutos de Ódio obrigatório? Não? Então
isso só mostra que, como disseram alguns na época, o livro é uma comédia
de horror desenfreada ou, na melhor das hipóteses, ridiculamente
exagerada. Mas esses são elementos da superestrutura paródica. E a
estrutura? Bem, na ressonância política predominante que cercou o
romance, nem precisamos examinar esses argumentos, porque a prova deles
já foi dada no “mundo real”. “É a isso que leva o socialismo.” “É a isso que
ele já levou, na Rússia e na Europa Oriental.” No entanto, Orwell se
apressou em dissociar-se dessa interpretação, responsável por grande parte
do sucesso inicial do livro e que ainda é oferecida como se fosse
incontestável.
Meu recente romance 
NÃO
consiste num ataque ao socialismo ou
ao Partido Trabalhista Britânico (o qual apoio), e sim numa
mostra das distorções a que uma economia centralizada está
sujeita e que já se consumaram parcialmente no comunismo e no
fascismo.
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“Já se consumaram parcialmente”, nas ordens sociais comandadas por
Stálin e Hitler. As distorções completas vão mais além. Também a reação
fácil — deixar o livro de lado e observar o Leste, onde “tudo isso já está
acontecendo” — deveria ser contida pela ênfase de Orwell:


O livro se passa na Inglaterra para enfatizar que os povos de
língua inglesa não são inatamente melhores do que qualquer
outro, e que, se não for combatido, o totalitarismo pode triunfar
em qualquer parte.
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Não se trata, aqui, apenas de retificar o local para corrigir o uso e o abuso
do romance durante a Guerra Fria. É fundamental para os argumentos de
Orwell que o que está sendo descrito, em suas tendências principais, é não
só um perigo universal, mas um processo universal. Essa é a verdadeira
fonte de seu horror. Se o romance é adotado para a propaganda deste ou
daquele Estado, como base para odiar e temer um Estado inimigo contra o
qual é preciso se preparar para a guerra, é de uma ironia realmente feroz
que um cidadão da “Oceânia”, em 1984, esteja pensando como foi
programado para pensar, mas com a garantia tranquilizadora do livro para
lhe dizer que ele é livre e apenas aqueles outros sofrem doutrinação e
lavagem cerebral. Orwell não ofereceu nenhuma garantia como essa. Para
ele, o panorama de superestados, Estados espiões e populações majoritárias
controladas por ideias induzidas era como o mundo estava se conduzindo,
até chegar ao ponto em que ainda haveria inimigos arbitrários, nomes e
figuras a odiar, mas não restaria a capacidade de descobrir ou dizer a
verdade sobre nossa própria situação: a situação de qualquer um de nós, em
qualquer dos Estados e alianças. Esta é uma posição muito mais categórica
do que qualquer simples antissocialismo ou anticomunismo. É de fato tão
categórica que devemos começar examinando quais, a seu ver, eram as
condições avassaladoras que, a princípio, levaram aos superestados e à
guerra limitada permanente.



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