1984 Edição especial



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1984 - Edicao especial - George Orwell
07 - Cronograma de Julho 2022
significa o poder político para ela?
Pelo menos no Ocidente, nenhuma classe dirigente moderna conseguiu
até agora dispensar a ideologia. Todas sentiram e sentem uma enorme
necessidade de racionalizar seu poder, de proclamar algum admirável
objetivo como justificativa de atos abomináveis. E não é mera astúcia ou
hipocrisia; os dirigentes de uma sociedade moderna dificilmente
sobreviveriam se não acreditassem em certa medida em suas alegações.
Agarram-se à ideologia não apenas para conquistar e manter seguidores,
mas para dar a si mesmos uma segurança moral e psicológica.


Alguém consegue imaginar uma classe dirigente do século 
XX
capaz de
descartar essas bases de apoio e de reconhecer para si mesma a verdadeira
natureza de seus motivos? Duvido. Muitos burocratas russos podem
considerar, na esfera íntima de seu cinismo privado, que o vocabulário
marxista que empregam é um embuste que tem utilidade; mas ainda
precisam se agarrar a algum vago pressuposto de que há alguma base última
que justifica sua conduta política. Do contrário, a classe dirigente totalitária
acharia cada vez mais difícil, talvez impossível, manter o moral.
Amoleceria, se corromperia em aspectos óbvios, perderia o fanatismo que é
essencial para sua sobrevivência.
Mas, tirando a ideologia, resta ainda o enigma do poder totalitário. E é de
fato um enigma. Muitos escritores têm sondado as origens do totalitarismo,
a dinâmica de seu crescimento, a base psicológica de sua atração, as
políticas econômicas que utiliza no poder. Mas nenhum dos teóricos que
estudam o totalitarismo é capaz de nos falar muito sobre o “fim último” dos
nazistas ou dos stalinistas; acabam se deparando com as mesmas
dificuldades com que Winston Smith se depara em 1984, quando diz:
“Entendo 
COMO
, mas não entendo 
POR QUÊ
”.
A que fim os dirigentes da Oceânia tentam chegar? Querem o poder;
querem usufruir a sensação de exercer seu poder, o que significa testar sua
capacidade de causar sofrimento aos que estão sob eles. Mas a pergunta
permanece: por que matam milhões de pessoas, por que sentem prazer em
torturar e humilhar pessoas que sabem inocentes? Aliás, por que os nazistas
e os stalinistas fizeram isso? Qual é a imagem do mundo que desejam, qual
é a visão pela qual vivem?
Duvido que essas perguntas possam ser respondidas no presente, e talvez
nem sejam verdadeiros problemas. Um movimento em que o terror e a
irracionalidade desempenham papel tão importante pode, ao fim e ao cabo,
não ter nenhum objetivo além do terror e da irracionalidade; procurar um
fim último que possa ter alguma relação significativa com sua atividade
imediata talvez seja, em si, uma falácia racionalista.
Orwell foi criticado por Isaac Deutscher por sucumbir a um “misticismo
da crueldade” ao expor o comportamento dos dirigentes da Oceânia, o que
significa, suponho eu, que Orwell não aceita inteiramente nenhuma das
teorias socioeconômicas usuais sobre os objetivos do totalitarismo.
Acontece, porém, que nem Deutscher nem ninguém foi capaz de fornecer


até agora qualquer explicação satisfatória para aquele excesso sistemático
de destruir valores humanos que é uma característica central do
totalitarismo. Não estou dizendo que o mistério nunca se solucionará, pois é
possível que, com o tempo, consigamos subdividi-lo numa série de
problemas de tratamento mais fácil. Enquanto isso, porém, parece absurdo
atacar um escritor por reconhecer com rara honestidade sua sensação de
impotência perante o significado “último” do totalitarismo — sobretudo se
esse escritor foi quem nos ofereceu a imagem mais vívida do totalitarismo
que se fez até hoje. Pois com 1984 chegamos ao cerne do problema, à
brancura do branco.


V
Mesmo enquanto comentava essas objeções possíveis ao livro de Orwell, eu
sentia a incômoda impressão de que podiam ser descabidas — tão
descabidas quanto, digamos, objetar que ninguém pode ser tão pequenino
quanto os liliputianos de Swift. Além disso, é de extrema importância notar
que o mundo de 1984 não é o totalitarismo no sentido em que o
conhecemos, e sim o totalitarismo após seu triunfo mundial. A sociedade da
Oceânia poderia, a rigor, ser chamada de pós-totalitária. Mas mantive
minhas objeções só porque talvez possa ajudar o leitor, avaliando a eventual
pertinência delas e decidindo aceitá-las ou rejeitá-las, a ver o livro de
Orwell de maneira um pouco mais clara.
1984 nos leva ao fim da linha. A sensação ou a esperança é de que é
impossível ir além. No livro de Orwell, os temas políticos de outros
romances atingem seu pleno e terrível desenvolvimento, talvez não como
esperavam escritores como Dostoiévski ou Conrad, mas por vias que
estabelecem uma continuidade de concepções e valores entre os
romancistas políticos do século 
XIX
e do século 
XX
.
Existem alguns escritores que vivem devotadamente para sua própria
época; são escritores que ajudam a redimir seu tempo, obrigando-o a aceitar
a verdade sobre si mesmo e, com isso, salvando-o, quem sabe, dessa
verdade sobre si mesmo. Talvez esses escritores não sobrevivam à sua
época, pois o que os torna tão valiosos e tão caros a seus contemporâneos
— aquela mescla de desesperada atualidade e desesperada ternura —
provavelmente não é uma qualidade que conduza à máxima arte. Mas não
deveríamos nos incomodar com essa possibilidade de que Silone ou Orwell,
no futuro, não pareçam tão importantes como parecem a muitos em nossos
tempos. Sabemos o que eles fazem por nós e sabemos que nenhum outro
escritor, nem mesmo muito maior, é capaz de fazê-lo.
Em gerações futuras, 1984 talvez não tenha muito mais do que “interesse
histórico”. Se o mundo de 1984 de fato se concretizar, ninguém o lerá,
exceto, talvez, os dirigentes que refletirão sobre sua excepcional
clarividência. Se o mundo de 1984 não se concretizar, talvez as pessoas


fiquem com a impressão de que o livro não passava de mero sintoma de
algum distúrbio privado, de um pesadelo. Mas sabemos que não é bem
assim: sabemos que o pesadelo é nosso.


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