1984 Edição especial



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1984 - Edicao especial - George Orwell
07 - Cronograma de Julho 2022
Teoria e prática do coletivismo oligárquico. Orwell captou a amplidão e
imponência retórica da escrita de Trótski, em especial seu gosto por
empregar referências científicas em contextos não científicos: “Mesmo
depois de tremendas comoções e mudanças aparentemente irrevogáveis, o
mesmo modelo sempre voltou a se firmar, assim como um giroscópio
sempre reencontra o equilíbrio por mais que seja empurrado nesta ou
naquela direção”. E em outra frase Orwell captou magnificamente a
maneira como Trótski usava um paradoxo compacto para resumir o absurdo
de uma sociedade inteira: “Os campos são cultivados com arados puxados a
cavalo, enquanto os livros são escritos por aparelhos”.
Nota-se a mesma habilidade de Orwell ao evocar a atmosfera física da
Oceânia, a melancólica e acachapante miséria das ruas e casas, a monotonia
insípida das mesmas roupas usadas por todos, o cozido cinza-rosado pouco
apetitoso que comem, a eterna confusão burocrática que parece acompanhar


todas as instituições opressoras modernas. Orwell não se deixara enganar
pela lenda de que o totalitarismo pelo menos é eficiente; em vez de um
futuro de arranha-céus e aço cromado das visões habituais, ele pintou
Londres em 1984 como uma mescla da cidade com seu sombrio tom
cinzento durante a última (a Segunda) guerra mundial e das cidades russas
modernas, com sua ostentação vitoriana e seus fétidos cortiços. Em todos os
seus livros, Orwell sempre mostrara dotes apenas medianos para a descrição
visual, mas excepcionalmente argutos para detectar odores abjetos e
nauseantes. Tinha o melhor olfato de sua geração — a mente às vezes o
traía; o nariz, nunca. Parece sugerir que, no mundo de 1984, soma-se todo o
lixo do passado e mais algum que ninguém fora capaz de prever.
O lixo sobreviveu, mas o que houve com o próprio passado, o passado
em que os seres humanos tinham conseguido viver, às vezes até com certo
prazer? Uma das cenas mais pungentes no livro se passa quando Winston
Smith, tentando descobrir como era a vida antes do reinado do Grande
Irmão, conversa num bar com um velho proleta. O diálogo é insatisfatório
para Smith, pois o operário só se lembra de fragmentos de fatos avulsos e é
incapaz de generalizar a partir de suas lembranças; a cena em si, porém, é
uma ótima peça de ação dramática, indicando que a sociedade totalitária
destrói não só o passado em si com a obliteração de registros objetivos, mas
também a memória do passado com a desintegração da consciência
individual. O operário com quem Smith conversa lembra que a cerveja
antes do Grande Irmão era melhor (fato muito importante), mas não
consegue entender muito bem a pergunta de Smith: “Você sente que tem
mais liberdade agora do que naqueles tempos?”. Para fazer — e sobretudo
para entender — uma pergunta dessas é preciso haver um grau de
continuidade social, bem como um conjunto de pressupostos complicados,
que a Oceânia vem destruindo aos poucos.
A destruição da memória social se torna um setor fundamental na
Oceânia, e aqui, claro, Orwell está recorrendo diretamente ao stalinismo
que, como a forma mais “avançada” de totalitarismo, tinha nessa tarefa uma
perícia infinitamente maior do que o fascismo. (Hitler queimou livros;
Stálin mandou reescrevê-los.) Na Oceânia, os papéis incômodos escorrem
pelo buraco da memória — e pronto.
Orwell demonstra a mesma perspicácia ao notar a relação entre o Estado
totalitário e o que se apresenta como cultura. Os romances são produzidos


por máquinas; o Estado prevê todas as demandas, desde versões
“expurgadas” de Byron até revistas pornográficas; aquela enorme indústria
moderna que chamamos de “cultura popular” se tornou uma importante
função estatal. Enquanto isso, as palavras que sugerem gradações de
sensibilidade ou refinamentos de conduta são removidas da língua.
Com os sentimentos acontece o mesmo. A Oceânia procura eliminar a
afeição espontânea, pois considera, com razão, que tudo o que não é
calculado é subversivo. Smith pensa consigo mesmo:
Jamais teria ocorrido a sua mãe que, por ser ineficaz, um ato
pudesse perder o sentido. Quando você ama alguém, ama essa
pessoa e mesmo não tendo mais nada a oferecer, continua
oferecendo-lhe o seu amor. Como não havia mais chocolate, a
mãe abraçara a filha com força. Não adiantava, não alterava
coisa nenhuma, não fazia aparecer mais chocolate, não evitava a
morte da criança nem a dela mesma; mas, para a mãe, era
natural fazer aquilo.


IV
Apenas em alguns pontos podemos questionar a visão de Orwell sobre o
totalitarismo, e mesmo estes envolvem questões altamente problemáticas.
Se chegam a ser erros, é somente na medida em que levam observações
válidas a seus extremos: a sociedade totalitária de Orwell é às vezes mais
total do que conseguimos imaginar no presente.
Um desses problemas diz respeito à relação entre o Estado e a “natureza
humana”. Admitindo-se que a natureza humana é, ela mesma, um conceito
cultural com uma história de transformações por trás; admitindo-se que as
pressões do medo e da força podem gerar variações extremas no
comportamento humano. Ainda assim, a pergunta permanece: em que
medida um regime terrorista é capaz de eliminar ou alterar radicalmente os
impulsos fundamentais do ser humano? Existe uma constante na natureza
humana que nenhum terror ou propaganda é capaz de destruir?
Na Oceânia, o desejo sexual, embora não tenha sido destruído, foi muito
enfraquecido entre os membros do Partido Externo. Para os fiéis, a energia
sexual se transforma em histeria política. Há uma passagem aflitiva em que
Smith relembra suas relações sexuais com a ex-esposa, membro leal do
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