1984 Edição especial



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1984 - Edicao especial - George Orwell
07 - Cronograma de Julho 2022
tem tempo, ele precisa anotar tudo. Estou certo de que os que não
conseguem enxergar isso sucumbiram às agradáveis tiranias do esteticismo;
permitiram que seu apreço por um estilo cultivado os cegasse às premências
da expressão profética. A última coisa com que Orwell se preocupou ao
escrever 1984, a última coisa com a qual deveria se preocupar, era a
literatura.
Outra reclamação que se ouve com frequência é que o livro não tem
nenhum personagem plausível ou “tridimensional”. Essa reclamação, afora
sua identificação bastante simplista entre credibilidade e determinado
tratamento do personagem, envolve uma incapacidade de enxergar que, em
certos livros, longos detalhamentos psicológicos ou mesmo episódios
dramáticos podem ser desastrosos. Em 1984, Orwell procura apresentar um
tipo de mundo em que a individualidade se tornou obsoleta e a
personalidade passou a ser crime. A ideia toda do eu como algo precioso e
inviolável é uma ideia cultural e, como a entendemos, é um produto da era
liberal; mas Orwell imaginava um mundo em que o eu, mesmo que consiga
ter alguma espécie de sobrevivência subterrânea, não é mais um valor
significativo, nem sequer um valor a ser violado.
Winston Smith e Julia aparecem como figuras rudimentares porque estão
aprendendo aos poucos, e com grande perigo para si mesmos, o que
significa ser humano. A experiência deles em redescobrir o humano, que é
basicamente uma experiência das possibilidades de solidão, leva-os a
valorizar duas coisas que são fundamentalmente hostis à perspectiva
totalitária: uma vida contemplativa e a alegria da paixão sexual “gratuita”
— isto é, livre. Mas essa experiência não pode avançar muito, como eles
mesmos sabem; é inevitável que venham a ser presos e destruídos.
Em parte, esse é o sentido e o páthos do livro. Se, no mundo de 1984,
fosse possível mostrar um personagem humano em qualquer situação que se
assemelhasse a uma liberdade genuína, em seu jogo de caprichos e desejos
espontâneos — não seria o mundo de 1984. Assim, a reclamação de que os
personagens de Orwell parecem muito tênues comprova, de maneira


levemente obtusa, a força do livro, pois é uma reclamação que se dirige não
à sua técnica, mas a seus pressupostos básicos.
Não há como entender nem avaliar devidamente o livro recorrendo
apenas às categorias literárias habituais, pois ele postula uma situação em
que essas categorias deixaram de ter significado. Tudo se cristalizou em
política, o leviatã engoliu o homem. Sobre esse mundo é impossível,
falando em termos estritos, escrever um romance, quando menos porque as
relações humanas que se pressupõem no romance foram aqui eliminadas.
1
O livro precisa ser abordado, em primeiro lugar, de uma perspectiva
política, embora não como tratado ou estudo político. É outra coisa, ao
mesmo tempo modelo e visão — um modelo do Estado totalitário em sua
forma “pura” ou “essencial”, uma visão do que esse Estado é capaz de fazer
à vida humana. Todavia, o tema do conflito entre ideologia e emoção, às
vezes em sua fusão e reforço mútuo, ainda se encontra em 1984 como tênue
motivo literário subjacente. Sem ele, não poderia haver conflito dramático
numa obra de ficção dominada pela política. O esforço de Winston Smith
em reconstituir a velha canção sobre os sinos da São Clemente é um sinal
de seu desejo de reconquistar a condição de humanidade, que aqui não é
senão a capacidade de sentir algo tão “inútil” como a nostalgia. Entre a
canção e a Oceânia não há paz possível.
1984 projeta um pesadelo em que a política removeu a humanidade e o
Estado asfixiou a sociedade. Em certo sentido, é um livro profundamente
antipolítico, cheio de ódio pelo tipo de mundo em que as demandas públicas
destroem as possibilidades de vida privada; e Orwell sugere esse lado
conservador de sua perspectiva, talvez de forma inconsciente, na escolha do
nome de seu herói. Mas, se a imagem de Churchill surge aqui para celebrar,
de maneira um tanto tortuosa, a memória dos maus (ou, como Winston
Smith vem a sentir, dos bons) tempos de antigamente, a imagem oposta de
Trótski se ergue, com algum ceticismo, a fim de desvendar os sentidos
internos da sociedade totalitária. Quando Winston Smith aprende a pensar a
Oceânia como um problema — o que, por si só, é cometer um
“pensamento-crime” —, ele recorre à obra proibida de Emmanuel
Goldstein, Teoria e prática do coletivismo oligárquico, claramente uma
réplica de A revolução traída de Trótski. A força e a inteligência de 1984
derivam, em parte, de uma tensão entre essas imagens; mesmo que Orwell
entendesse a necessidade da política no mundo moderno, sentia profunda


aversão pelos rumos da vida política, e tinha honestidade suficiente para
não tentar eliminar nenhum dos lados dessa luta dentro de si mesmo.


II
Nenhum outro livro conseguiu expor de maneira tão completa a
característica essencial do totalitarismo. O escopo de 1984 é limitado: não
pretende investigar a gênese do Estado totalitário, nem suas leis
econômicas, nem suas perspectivas de sobrevivência; ele simplesmente
evoca o “tom” da vida numa sociedade totalitária. E, como não se trata de
um romance realista, pode tratar a Oceânia com um exemplo extremo, que
talvez nunca venha a existir, mas que ilumina a natureza de sociedades que
existem.
2
A intuição mais profunda de Orwell é a de que a vida humana num
mundo totalitário é despida de possibilidades dinâmicas. O fim da vida é
totalmente previsível desde o início, e o início é uma mera preparação
manipulada para o fim. Não há espaço para a surpresa, para aquela
vitalidade espontânea que é o sinal e a justificativa da liberdade. A
sociedade oceânica pode evoluir, passando por determinados estágios de
desenvolvimento econômico, mas a vida de seus membros é estática, uma
quantidade fixa e medida que não se alça à tragédia nem cai na comédia. A
personalidade humana, como viemos a buscá-la numa sociedade de classes
e esperamos tê-la numa sociedade sem classes, é anulada; o indivíduo se
torna função de um processo que nunca é autorizado a entender ou
controlar. O fetichismo do Estado substitui o fetichismo da mercadoria.
No passado existiram, claro, sociedades que não eram livres, mas, ainda
assim, na maioria delas era possível encontrar um oásis de liberdade,
quando menos porque nenhuma dispunha de recursos para impor um
consentimento absoluto. Mas o totalitarismo, que representa uma ruptura
decisiva ante a tradição ocidental, visa vetar esses luxos; oferece uma
“solução” completa para problemas do século 
XX
, isto é, uma distorção
completa do que poderia ser uma solução. É verdade que nenhum Estado
totalitário foi capaz de atingir esse grau de “perfeição”, que Orwell, como
um físico realizando um experimento que supõe ausência de atrito, supôs na
Oceânia. Mas o fato de se saber que nunca é possível eliminar efetivamente
o atrito não diminui o valor da experiência.


À medida que o Estado totalitário se aproxima de sua condição “ideal”,
ele destrói a margem de imprevisibilidade das ações; como observa um
personagem em Os demônios, de Dostoiévski, “só o necessário é
necessário”. Tampouco existe uma brecha social em que o espírito
independente ou recalcitrante possa se refugiar. O Estado totalitário assume
que, contanto que tenha tecnologia moderna, total controle político, os
meios de exercer o terror e um desprezo racionalizado pela tradição moral,
qualquer coisa é possível. Pode-se fazer qualquer coisa com os homens,
qualquer coisa com suas mentes, com a história e com as palavras. A
realidade deixa de ser algo que se pode reconhecer, vivenciar ou mesmo
transformar; ela é fabricada de acordo com a necessidade e a vontade do
Estado, às vezes como antecipação do futuro, às vezes como ajuste
retrospectivo do passado.
Mas mesmo quando Orwell evocava o espírito do mundo totalitário,
vencendo a resistência de sua náusea, ele utilizava pouquíssimo aquilo que
de hábito se chama de “imaginação” para mostrar como esse espírito
macula todos os aspectos da vida humana. Como inúmeros bons escritores,
ele entendia que a imaginação é, basicamente, a capacidade de apreender a
realidade, de enxergar com clareza e profundidade aquilo que existe. É por
isso que sua visão do horror social, tomada mais como modelo do que como
retrato, parece-nos essencialmente plausível, enquanto as tentativas de
muitos outros escritores de criar utopias ou antiutopias falham justamente
devido à intenção de serem científicas ou inventivas. Orwell compreendeu
que o horror social consiste não no predomínio de máquinas diabólicas nem
na invasão de autômatos marcianos disparando raios mortais de seus olhos
mecânicos, mas sim na persistência de relações inumanas entre os humanos.
E compreendeu também a importância de algo que só posso chamar de
psicologia e política de “um passo a mais”. De uma neurose tolerável a uma
psicose paralisante, de uma sociedade decaída em que ainda é possível
sobreviver a um Estado totalitário no qual dificilmente se desejaria a
sobrevivência, pode haver apenas “um passo”. Para desnudar a lógica
daquela regressão social que leva ao totalitarismo, Orwell teve apenas de
permitir que sua imaginação desse… um passo.
Considerem-se aspectos típicos da sociedade oceânica, como as teletelas
e a utilização de crianças como informantes contra os pais. Não existem
teletelas na Rússia, mas bem que poderiam existir: nada na sociedade russa


contradiz o “princípio” das teletelas. Denunciar pais que são hereges
políticos não constitui prática corrente nos Estados Unidos, mas há pessoas
que perderam o emprego pela acusação de manterem “associações
prolongadas” com os pais. Para captar o espírito totalitário, bastou a Orwell
permitir que certas tendências da sociedade moderna avançassem sem o
freio do sentimento ou do humanitarismo. Assim ele conseguiu deixar clara
a relação entre seu modelo do totalitarismo e as sociedades que conhecemos
por experiência própria, e pôde fazê-lo sem recorrer aos apetrechos da
ficção científica nem à tosca suposição de que já vivemos em 1984. Ao
imaginar o mundo de 1984, ele deu apenas um passo; sabendo quão largo e
terrível era esse passo, não precisou dar outro.


III
Com uma luta mental e uma força de vontade que o deixaram visivelmente
exausto, Orwell conseguiu ver — o que é muito mais do que apenas
entender — o que é o éthos ou espírito interno do totalitarismo. Mas uma
característica de Orwell como escritor era a de se sentir pouco à vontade
com ideias gerais ou visões totais; as coisas assumiam realidade para ele
apenas se fossem específicas e concretas. O mundo de 1984 parece ter tido
para ele a imediaticidade alucinatória que o Condado de Yoknapatawpha
tem para Faulkner ou que Londres teve para Dickens, e, mesmo
subordinando implacavelmente suas descrições ao tema dominante do livro,
Orwell conseguiu registrar os detalhes da sociedade oceânica com uma
precisão meticulosa que às vezes beirava o sinistro.
Há, em primeiro lugar, algumas imitações muito acuradas. Veja-se, por
exemplo, como Orwell capta o papel desempenhado pelo inimigo e bode
expiatório do mundo totalitário, os rituais de ódio aos quais ele é
indispensável e, ainda mais assustadora, a incerteza de que sequer existe ou
foi inventado pelo Estado para seus próprios fins. Entre as melhores
passagens do livro estão aquelas em que Orwell imita o estilo de Trótski em

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