1984 Edição especial



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1984 - Edicao especial - George Orwell
07 - Cronograma de Julho 2022
Golo Mann nasceu em Munique, na Alemanha, em 1909. Foi historiador,
escritor e filósofo. Segundo filho do escritor Thomas Mann, Golo deixou
seu país em 1933, fugindo do nazismo. Viveu na França, Suíça e Estados
Unidos. Entre seus livros mais famosos, estão História alemã nos séculos


XIX e XX e a biografia de Albrecht von Wallenstein, o poderoso duque de
Friedland. Morreu em Leverkusen, na Alemanha, em 1994.


1984: A HISTÓRIA 
COMO PESADELO
IRVING HOWE
Publicado originalmente em Irving
Howe (Org.), Orwell’s Nineteen
Eighty-Four: Text, Sources, Criticism.
Nova York: Harcourt, Brace & World,
1963.


I
Temos a impressão de que nossa relutância em voltar a certos livros dá a
verdadeira medida de nossa admiração por eles. Não é fácil imaginar que
muita gente torne a reler 1984 espontaneamente: não há razão nem
necessidade, pois ninguém o esquece. Aqui, a diferença usual entre os
detalhes esquecidos e a vívida impressão geral não tem importância alguma,
pois o livro é escrito num único fôlego ardente, cada palavra é submetida a
uma rigorosa disciplina semântica, tudo é despojado até revelar a nudez do
terror.
O processo, de Kafka, também é um livro de terror, mas é um paradigma
e, em certa medida, um quebra-cabeça, de modo que o leitor pode se
entregar ao ritmo do paradigma e brincar com as peças do quebra-cabeça. O
romance de Kafka nos convence de que a vida é inevitavelmente arriscada e
problemática, mas a própria “universalidade” dessa ideia ajuda a atenuar
seu impacto: apreender o terrível no plano da metafísica é emprestar-lhe
uma aura quase reconfortante. Além disso, O processo nos absorve
infinitamente no que tem de enigmático.
Embora esteja longe de ser tão grandioso, 1984 é, em alguns aspectos,
mais terrível. Pois não é um paradigma e dificilmente um quebra-cabeça; os
enigmas que lança, sejam quais forem, não dizem respeito à imaginação do
autor, e sim à vida em nossa época. Não nos faz evitar nem superar a
obsessão da realidade social imediata e, ao lermos o livro, sentimo-nos
propensos a dizer — a linguagem canhestra oculta uma verdade profunda
— que o mundo de 1984 é “mais real” do que o nosso. O livro nos apavora


porque seu terror, longe de ser intrínseco à “condição humana”, é próprio de
nosso século; o que nos assusta é a nauseante consciência de que Orwell,
em 1984, capturou aqueles elementos de nossa vida pública que, com
coragem e inteligência, poderiam ter sido evitados.
Só podemos descobrir como 1984 é um livro admirável depois de uma
segunda leitura. Ele oferece um testemunho verídico, ele fala à nossa época.
E como deriva de uma percepção de nosso possível futuro, o livro vibra
com uma fúria escatológica capaz de criar os mais vigorosos tipos de
resistência em seus leitores, mesmo entre aqueles que acreditam
sinceramente admirar a obra. E já criou. De forma explícita na Inglaterra, de
maneira mais discreta nos Estados Unidos, surgiu entre muitos intelectuais
um desejo de diminuir a realização de Orwell, muitas vezes a pretexto de
celebrar sua humanidade e “bondade”. Sentem-se constrangidos diante do
desespero apocalíptico do livro, começam a se perguntar se não é um pouco
exagerado e sem graça, chegam a suspeitar que ele deixa transparecer a
histeria do leito de morte. E não há como negar que todos nós ficaríamos
mais à vontade se o livro fosse banido. É um livro admirável.
Se o romance é admirável ou sequer se é um romance, não parece vir ao
caso. Não é realmente um romance, suponho eu, ou pelo menos não atende
àquelas expectativas que viemos a ter diante do romance — expectativas
que são, acima de tudo, herança do romantismo oitocentista, com sua ênfase
sobre a consciência individual, a análise psicológica e o estudo de relações
íntimas. Um crítico americano, e sério, deu à sua resenha o título de
“Verdade talvez, ficção não”, como que demonstrando o rigor com que se
atinha às distinções do gênero literário. Na verdade, ele estava
demonstrando uma certa estreiteza no gosto moderno, pois tal reação a
1984 só é possível quando não se fazem mais diferenciações entre ficção e
romance, que é apenas um tipo de ficção, ainda que seja o tipo favorito dos
leitores modernos.
Um leitor culto de século 
XVIII
jamais diria que 1984 pode ser verídico,
mas não é ficcional, pois o que se entendia na época era que a ficção, assim
como a poesia, pode ter muitas modalidades e está aberta a muitas misturas;
o romance ainda não instaurara sua tirania popular. E mais: o estilo de 1984,
que muitos leitores consideram insípido, banal ou “forçado”, seria
apreciado por alguém como Defoe, pois Defoe entenderia prontamente
como as pressões do tema de Orwell, assim como as pressões dos temas


dele mesmo, exigem uma facticidade dura e esmagadora. O estilo de 1984 é
o estilo de um indivíduo cujo compromisso com uma visão terrível precisa
combater a náusea que essa visão lhe dá. Esse conflito é tão agudo que as
sutilezas do fraseado ou os recursos retóricos parecem frívolos — ele não

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