1984 Edição especial



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1984 - Edicao especial - George Orwell
07 - Cronograma de Julho 2022
patofalosoduplomaisbom, isso era visto como uma calorosa e significativa
manifestação de apreço.
Vocabulário C. Esta categoria suplementava as demais e era formada
apenas por termos técnicos e científicos. Não havia grande diferença quanto
à terminologia hoje em uso, e as palavras derivavam das mesmas raízes que
os vocábulos técnico-científicos atuais — tendo sido alvo, porém, da
costumeira preocupação com definições rígidas e tendo sido igualmente
despojadas de significados indesejáveis. Além disso, obedeciam às mesmas
regras gramaticais válidas para os outros dois vocabulários mencionados
anteriormente. Só em casos raros eram empregadas nas interlocuções
cotidianas ou no discurso político. Os cientistas e técnicos encontravam


todas as palavras de que necessitavam na lista dedicada a sua especialidade,
porém era raro que tivessem mais que um conhecimento superficial das
palavras pertencentes às outras listas. Somente algumas palavras eram
comuns a todas as listas, e, fosse qual fosse a área do conhecimento, não
havia vocábulos que permitissem falar sobre a função da ciência como
hábito mental ou método de pensamento. A bem da verdade, não havia nem
a palavra “Ciência”, estando os significados associados a ela devidamente
contidos na palavra Socing.
Com base na exposição acima, fica evidente que em Novafala era
praticamente impossível expressar, a não ser de modo muito incipiente,
quaisquer opiniões que divergissem da ortodoxia. Podia-se, claro, dar vazão
a heresias de tipo extremamente vulgar, como se fossem uma espécie de
blasfêmia. Nada impedia a construção de uma frase como: O Grande Irmão
é desbom. Contudo, tal afirmação, que para um ouvido ortodoxo seria em si
mesma absurda, não tinha como ser sustentada por nenhum tipo de
raciocínio lógico, visto inexistirem palavras para isso. As ideias hostis ao
Socing só podiam assumir uma forma vaga e pré-verbal e não tinham como
ser nomeadas senão em termos extremamente genéricos, que se
emaranhavam de modo confuso e condenavam grupos inteiros de heresias
sem que, ao fazê-lo, fossem capazes de defini-los. De fato, a única maneira
de usar o idioma Novafala com propósitos heréticos seria traduzir
espuriamente algumas palavras para a Velhafala. Era possível, por exemplo,
formular em Novafala a frase: Todos os homens são iguais. Mas tal
afirmação corresponderia semanticamente à seguinte frase em Velhafala:
Todos os homens são ruivos. Embora não contivesse nenhum erro
gramatical, a frase Todos os homens são iguais exprimia uma inverdade
palpável, a saber, que todos os homens têm a mesma altura, o mesmo peso
ou o mesmo vigor. O conceito de igualdade política não existia mais e, em
consonância com isso, esse significado secundário tinha sido expurgado da
palavra igual. Como em 1984 a Velhafala ainda era o meio de comunicação
mais utilizado, em tese havia o risco de que, ao usar palavras do novo
idioma, a pessoa ainda se lembrasse de seus significados originais. Na
prática, para um indivíduo bem adestrado em duplipensamento, não era
difícil evitar esse perigo, mas duas ou três gerações mais tarde até tal lapso
estaria excluído do universo das possibilidades. Para alguém que crescesse


tendo a Novafala como único idioma seria tão difícil imaginar que, no
passado, a palavra igual tivera o significado secundário de “politicamente
igual”, ou que livre incluía o de “intelectualmente livre”, quanto seria, para
alguém que nunca tivesse ouvido falar em xadrez, imaginar que as palavras
rainha e torre têm, nesse jogo, significados particulares que não estão
contemplados em seu significado usual. Uma série de crimes e erros se
tornariam impraticáveis simplesmente porque, não havendo palavras para
designá-los, não poderiam nem mesmo ser concebidos. E era de prever que,
com a passagem do tempo, as características distintivas da Novafala se
tornariam cada vez mais pronunciadas — a quantidade de palavras
disponíveis seria cada vez menor, seus significados seriam cada vez mais
rígidos e, por conseguinte, diminuiria progressivamente a probabilidade de
que fossem empregadas de forma imprópria.
Quando chegasse o momento da abolição definitiva da Velhafala, o
último elo com o passado teria sido rompido. A história já havia sido
reescrita. Porém, devido a esforços censórios imperfeitos, sobreviviam aqui
e ali alguns fragmentos da literatura do passado, e enquanto houvesse
pessoas que falassem o antigo idioma, sua leitura seria possível. No futuro,
mesmo que calhassem de sobreviver, esses fragmentos se tornariam
ininteligíveis e intraduzíveis. Não havia texto que pudesse ser traduzido da
Velhafala para a Novafala, a menos que se referisse a algum processo
técnico ou a alguma ação cotidiana muito simples, ou já exibisse uma
tendência ortodoxa (benepensante seria a palavra em Novafala). Em termos
práticos, isso significava que nenhum livro escrito antes de,
aproximadamente, 1960 poderia ser traduzido por inteiro. A literatura pré-
revolucionária precisava, de maneira obrigatória, ser submetida a uma
tradução ideológica — isto é, a uma tradução não apenas linguística como
também conteudística. Tomemos como exemplo a célebre passagem da
Declaração de Independência dos Estados Unidos:
Consideramos por si só evidentes as seguintes verdades: que
todos os homens são criados iguais, que seu Criador os dota de
certos direitos inalienáveis, que entre eles estão o direito à vida,
à liberdade e à busca da felicidade. Que, para melhor garantir
esses direitos, instituem-se entre os homens Governos, cujo
poder deriva do consentimento dos governados. Que toda vez


que uma forma de governo se torna prejudicial à consecução
desses fins, é direito do Povo alterá-la ou aboli-la e instituir um
novo Governo...
Seria praticamente impossível traduzir esse trecho para a Novafala sem
modificar o sentido do original. O mais próximo disso que alguém
conseguiria chegar seria absorver a passagem inteira numa única palavra:
pensamento-crime. Uma tradução completa teria de ser, necessariamente,
uma tradução ideológica, por meio da qual as palavras de Jefferson seriam
transformadas em panegírico do governo absoluto.
De fato, boa parte da literatura do passado já estava sendo submetida a
esse processo. Por uma questão de prestígio, parecera desejável preservar a
memória de certas figuras históricas, desde que suas realizações fossem
adaptadas à filosofia do Socing. Diversos escritores, como Shakespeare,
Milton, Swift, Byron, Dickens e alguns outros estavam sendo traduzidos;
quando a tarefa estivesse encerrada, seus textos originais seriam destruídos
com tudo o mais que restava da literatura do passado. Essas traduções eram
difíceis e demoradas, e não se imaginava que estivessem concluídas antes
da primeira ou segunda década do século 
XXI
. Havia também vastas
quantidades de literatura estritamente utilitária — manuais técnicos
indispensáveis e coisas assim — que precisavam receber o mesmo
tratamento. Foi sobretudo para dar tempo a esse trabalho preliminar de
tradução que a adoção definitiva da Novafala foi marcada para o longínquo
ano de 2050.

1
Podia-se, obviamente, encontrar palavras compostas no vocabulário A, mas tratava-se
apenas de abreviações ditadas pela conveniência, sem nenhuma coloração ideológica
especial.



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