1984 Edição especial


Partido oferecia para o divertimento das massas. Havia ainda palavras



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1984 - Edicao especial - George Orwell
07 - Cronograma de Julho 2022

Partido oferecia para o divertimento das massas. Havia ainda palavras
ambivalentes, que assumiam um sentido positivo quando associadas ao
Partido e negativo quando a seus inimigos. Por fim, havia também grande
número de palavras que pareciam, à primeira vista, meras abreviações e
cuja coloração ideológica advinha não de seu sentido, mas de sua estrutura.
Na medida do possível, tudo o que tinha ou poderia ter algum tipo de
significado político estava incluído no vocabulário B. Todos os nomes de
organizações, grupos de pessoas, doutrinas, países, instituições ou edifícios
públicos eram encurtados da maneira habitual, isto é, abreviados de modo a
formar uma só palavra, de pronúncia fácil, e com o menor número de
sílabas capaz de preservar sua derivação original. No Ministério da
Verdade, por exemplo, o Departamento de Registros, onde Winston Smith
trabalhava, era conhecido como Dereg; o Departamento de Ficção era


conhecido como Defic; o Departamento de Teleprogramas, como Detel; e
assim por diante. O objetivo disso não era apenas poupar tempo. O emprego
de palavras e frases telescópicas tornou-se um traço característico da
linguagem política já nas primeiras décadas do século 
XX
. E a tendência a
usar abreviações como essas era particularmente pronunciada em países e
organizações de caráter totalitário. Alguns exemplos são os termos nazi,
GestapoCominternImprecorragitprop. No início, era uma prática quase
espontânea, porém em Novafala ela possuía um propósito consciente.
Observou-se que tais abreviações estreitavam e modificavam sutilmente o
sentido das palavras originais, eliminando a maior parte das associações que
de outra forma se manteriam vinculadas a elas. As palavras Internacional
Comunista, por exemplo, evocavam uma imagem em que se misturavam a
fraternidade universal, as bandeiras vermelhas, as barricadas, a figura de
Karl Marx e a Comuna de Paris. O termo Comintern, por sua vez, transmite
apenas a ideia de uma organização unida e fechada, dotada de um corpo
doutrinário bem definido. Refere-se a algo quase tão facilmente
reconhecível e de finalidade quase tão limitada quanto uma cadeira ou uma
mesa. Se Comintern é uma palavra que a pessoa pode pronunciar de forma
quase automática, a expressão Internacional Comunista exige um mínimo
de reflexão. Da mesma forma, as associações suscitadas por uma palavra
como Miniver são menos numerosas e mais controláveis que as despertadas
por Ministério da Verdade. Era isso que estava por trás não somente do
costume de abreviar as palavras sempre que possível como também do zelo
quase excessivo em dar a elas uma pronúncia fácil.
Em Novafala, excluída a preocupação com a exatidão de sentido, a
eufonia sobrepujava todas as outras considerações. Sempre que parecia
necessário, a regularidade gramatical era sacrificada em seu favor. E com
razão, pois o que mais se fazia necessário, acima de todos os desígnios
políticos, eram palavras concisas e de sentido inequívoco que pudessem ser
pronunciadas com rapidez e que provocassem um mínimo de ecos na mente
do falante. As palavras do vocabulário B chegavam mesmo a extrair força
do fato de possuírem, na maioria, características muito semelhantes. Muitas
delas eram dissílabos ou trissílabos, com acentos tônicos distribuídos de
maneira homogênea entre a primeira e a última sílaba. Seu emprego
favorecia as falas verborrágicas, com uma sonoridade a um só tempo
espasmódica e monótona. E era exatamente isso que se pretendia. A


intenção era transformar a fala, sobretudo quando o assunto não fosse
ideologicamente neutro, em algo tão independente quanto possível da
consciência. No âmbito da vida cotidiana, era sempre ou por vezes
necessário pensar antes de falar, porém um membro do Partido instado a
fazer um julgamento político ou ético devia ser capaz de emitir opiniões
corretas com o automatismo com que uma metralhadora dispara uma
saraivada de balas. Seu treinamento o preparava para isso, o idioma lhe
fornecia um instrumental praticamente infalível e a textura das palavras,
com sua sonoridade rude e certa deselegância intencional em conformidade
com o espírito do Socing, prestava um auxílio adicional ao processo.
Para isso contribuía também a limitada gama de palavras que o falante
tinha à disposição. Em comparação com o inglês atual, o vocabulário da
Novafala era minúsculo, e havia uma busca incessante de mecanismos que
permitissem restringi-lo ainda mais. De fato, se havia algo que diferenciava
a Novafala de quase todas as outras línguas era o fato de que, em vez de se
expandir, seu vocabulário encolhia a cada ano. Toda redução era um ganho,
vez que quanto menor fosse a possibilidade de escolha, mais tênue seria a
propensão ao pensamento. Contava-se chegar um dia a falas articuladas que
emergissem da laringe sem nenhuma participação dos centros mais
elevados do cérebro. Tal objetivo era francamente reconhecido por meio do
termo patofala, que significava “grasnar como um pato”. Como várias
outras palavras do vocabulário B, o sentido de patofala era ambivalente. Se
as opiniões grasnadas fossem ortodoxas, o termo só implicava elogios, e
quando o Times dizia que determinado membro do Partido era um orador

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