1984 Edição especial


parte da frente via-se algo que lembrava uma máscara de esgrima, com a



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1984 - Edicao especial - George Orwell
07 - Cronograma de Julho 2022

parte da frente via-se algo que lembrava uma máscara de esgrima, com a
superfície côncava voltada para fora. Embora a gaiola estivesse a três ou
quatro metros de distância, Winston viu que era dividida longitudinalmente
em dois compartimentos e que em cada um deles havia um animal. Ratos.
“No seu caso”, disse O’Brien, “a pior coisa do mundo são ratos.”
Assim que pôs os olhos na gaiola, Winston sentira uma espécie de
calafrio premonitório, um temor indefinido. Porém agora, subitamente, o
significado daquele acessório que lembrava uma máscara ficou claro para
ele. Teve a impressão de que seus intestinos viravam água.
“Você não pode fazer isso!”, gritou, com uma voz que fraquejava. “Não
pode, não pode! É impossível.”
“Lembra-se”, disse O’Brien, “do momento de pânico que costumava
ocorrer em seus sonhos? Você via uma muralha de escuridão à sua frente e
ouvia um rugido. Algo terrível se escondia do outro lado da muralha. Você
sabia que sabia o que era, mas não se atrevia a tomar consciência do que
fosse. Do outro lado da parede havia ratos.”
“O’Brien!”, exclamou Winston, esforçando-se para manter a voz sob
controle. “Você sabe que não precisa disso. O que quer de mim?”
O’Brien não lhe deu uma resposta direta. Quando falou, assumiu a
atitude professoral que de vez em quando gostava de exibir. Olhou
pensativo ao longe, como se estivesse se dirigindo a uma plateia em algum
ponto atrás de Winston.
“Por si só”, disse, “nem sempre a dor é suficiente. Há ocasiões em que o
ser humano resiste à dor e morre sem se entregar. Mas para todo mundo
existe algo intolerável — algo para o qual não consegue nem olhar. Nada a
ver com coragem e covardia. Se você cai num precipício não é covardia
agarrar-se a uma corda. Se mergulha e depois aflora à superfície da água,
não é covardia encher os pulmões de ar. É mero instinto, uma coisa que não
há como reprimir. É o que acontece com os ratos. Você não os tolera. São
uma forma de pressão a que você não consegue resistir, nem que queira.
Fará o que queremos que faça.”


“Mas o que é, o que é? Como posso fazer, se não sei o que é?”
O’Brien pegou a gaiola e a levou para a mesa mais próxima. Depositou-a
com cuidado sobre o feltro verde. Winston ouvia o sangue martelar-lhe os
ouvidos. Tinha a sensação de estar sentado na mais absoluta solidão.
Encontrava-se no meio de uma planície vasta e vazia, um deserto sem
relevo, inundado pela luz do sol, onde todos os sons lhe vinham de muito
longe. Porém a gaiola com os ratos estava a menos de dois metros dele.
Eram ratos enormes. Estavam na idade em que os focinhos se tornam
rombudos e ferozes e os pelos deixam de ser cinza para assumir uma
coloração marrom.
“Embora seja um roedor”, disse O’Brien, ainda dirigindo-se a um público
invisível, “o rato é carnívoro. Isso é de conhecimento comum. Não há quem
não tenha ouvido falar das coisas que acontecem nos bairros pobres desta
cidade. Em algumas ruas, as mulheres não têm coragem de deixar seus
bebês sozinhos em casa nem por cinco minutos. Sabem que os ratos
atacariam. Em pouquíssimo tempo são capazes de estraçalhar uma criança e
roê-la até os ossos. Também atacam doentes e moribundos. Revelam uma
inteligência assombrosa para identificar seres humanos indefesos.”
Guinchos irromperam na gaiola. Para Winston, pareciam vir de muito
longe. Os ratos brigavam, tentando investir um contra o outro através da
grade que os separava. Winston ouviu um profundo gemido de desespero.
Teve a impressão de que também aquele ruído não viera dele.
O’Brien pegou a gaiola e, ao fazê-lo, pressionou algum mecanismo.
Ouviu-se um estalido. Winston, num esforço frenético, tentou se libertar da
cadeira. Inútil: todas as partes de seu corpo, inclusive a cabeça, estavam
imobilizadas. O’Brien aproximou a gaiola. Ela estava a menos de um metro
do rosto de Winston.
“Pressionei a primeira alavanca”, disse O’Brien. “Imagino que já tenha
entendido como a gaiola funciona. A máscara se encaixará em sua cabeça,
sem deixar frestas. Quando eu pressionar esta outra alavanca, a porta da
gaiola correrá para cima. Essas duas criaturas famintas se lançarão para
fora, como projéteis. Já viu um rato saltar no ar? Vão se lançar contra o seu
rosto e imediatamente começarão a devorá-lo. Às vezes atacam os olhos
primeiro. Às vezes perfuram as bochechas e devoram a língua.”
A gaiola estava cada vez mais próxima; faltava pouco para a máscara se
colar a seu rosto. Winston ouvia uma sucessão de guinchos agudos que


pareciam estourar no ar, acima de sua cabeça, mas lutava furiosamente
contra o pânico. Pensar, pensar, mesmo faltando uma fração de segundo —
pensar era a única esperança. De repente, o odor pútrido e bolorento dos
ratos alcançou suas narinas. Foi tomado por uma violenta convulsão de
náusea e quase perdeu a consciência. Tudo ficara preto. Por um instante
tornou-se um demente, um animal uivante. Contudo, regressou do negrume
agarrado a uma ideia. Havia uma e somente uma maneira de se salvar.
Precisava introduzir outro ser humano, o corpo de outro ser humano, entre
si mesmo e os ratos.
A circunferência da máscara agora era larga o bastante para barrar-lhe a
visão de todas as outras coisas. A porta da gaiola estava a dois ou três
palmos de seu rosto. Os ratos sabiam o que os esperava. Um deles pulava
para cima e para baixo; o outro, um ancião escamoso, veterano dos esgotos,
estava de pé, com as patinhas rosadas apoiadas na grade, farejando
ferozmente o ar. Winston via os bigodes e os dentes amarelos. Um pânico
tenebroso tornou a se apossar dele. Estava cego, impotente, insano.
“Era um castigo comum na China Imperial”, disse O’Brien, didático
como nunca. A máscara estava prestes a se encaixar no rosto de Winston. O
arame roçava sua face. E nesse instante — não, não era alívio, apenas
esperança, um fragmento de esperança. Tarde demais, talvez tarde demais.
Porém subitamente compreendera que no mundo inteiro só havia uma
pessoa a quem poderia transferir seu suplício — um corpo que teria
condições de interpor entre si e os ratos. E, fora de si, começou a gritar
freneticamente.
“Ponha a Julia no meu lugar! Faça isso com a Julia! Não comigo! Com a
Julia! Não me importa o que aconteça com ela. Deixe que esses ratos
estraçalhem o rosto dela, que a roam até os ossos. Eu não! Julia! Eu não!”
Winston estava sendo sugado para trás, para uma vasta profundeza,
afastando-se dos ratos. Continuava amarrado à cadeira, porém caía sem
parar, varando o chão, as paredes do edifício, a terra e os oceanos, varando
a atmosfera e despencando no cosmos, nos abismos que se abrem entre as
estrelas — para longe dos ratos, cada vez para mais longe dos ratos. Estava
a anos-luz de distância, porém sempre com O’Brien a seu lado. Continuava
a sentir o contato frio do arame no rosto. Entretanto, através da escuridão
que o envolvia, ouviu outro estalido metálico e compreendeu que a porta da
gaiola fora travada e não descerrada.





6.
O Café da Castanheira estava quase vazio. Um raio de sol, entrando
obliquamente por uma janela, tingia de amarelo as mesas empoeiradas. Era
a hora vazia das três da tarde. Uma música insossa saía das teletelas.
Winston estava sentado em seu canto habitual, olhos fixos num copo
vazio. De vez em quando olhava para um rosto descomunal, que o encarava
da parede oposta. 
O GRANDE IRMÃO ESTÁ DE OLHO EM VOCÊ
, dizia a legenda.
Sem ser chamado, um garçom veio e encheu seu copo com gim Victory,
acrescentando algumas gotas de outra garrafa com a rolha atravessada por
um tubinho. Era sacarina aromatizada com cravo-da-índia, a especialidade
do café.
Winston escutava a teletela. No momento, a programação era
estritamente musical, porém sempre havia a possibilidade de que ela fosse
interrompida para a transmissão de algum comunicado extraordinário do
Ministério da Paz. As notícias do fronte africano eram preocupantes. Ao
longo do dia, volta e meia pensava naquilo. Forças eurasianas (a Oceânia
estava em guerra com a Eurásia; a Oceânia sempre estivera em guerra com
a Eurásia) avançavam no sentido sul a uma velocidade assombrosa. O
informe do meio-dia não mencionava nenhuma região específica, mas era
provável que a foz do Congo já tivesse sido transformada em campo de
batalha. Brazzaville e Leopoldville corriam perigo. Não era necessário
consultar o mapa para compreender o significado daquilo. Não se tratava
apenas de perder a África Central; pela primeira vez, desde o início da
guerra, a Oceânia via seu próprio território ameaçado.
Uma emoção violenta, que não era medo propriamente dito, mas uma
espécie de excitação indiferenciada, acendeu-se em seu íntimo para depois
se apagar. Winston parou de pensar na guerra. Nos últimos tempos, não
conseguia se concentrar em determinado assunto por mais de alguns


minutos. Pegou o copo e bebeu seu conteúdo de um gole só. Como sempre,
a bebida fez com que sentisse um arrepio e até uma leve ânsia de vômito. A
coisa era horrorosa. Os cravos-da-índia e a sacarina, que com seu gosto
enjoativo já eram suficientemente repugnantes, não bastavam para disfarçar
o cheiro francamente oleoso; e o pior de tudo era o odor do gim, que
permanecia noite e dia com ele e que, em sua cabeça, estava
inextricavelmente misturado com o fedor daqueles…
Winston nunca os nomeava, nem em pensamento, e, até onde fosse
possível, jamais os visualizava. Eles eram uma coisa que percebia quase
inconscientemente, flutuando junto a seu rosto, um fedor que se agarrava a
suas narinas. Quando o gim quis retroceder, um arroto saiu por entre seus
lábios rubros. Depois que deixara a prisão, Winston engordara e recuperara
sua antiga cor — a bem da verdade, mais que a recuperara. Suas feições
estavam mais grosseiras, a pele do nariz e das maçãs do rosto era de um
vermelho acentuado, e até a careca se tornara excessivamente rosada. Um
garçom, outra vez sem ser chamado, trouxe o tabuleiro de xadrez e o Times,
aberto na página do problema enxadrístico do dia. Depois, notando que o
copo de Winston estava vazio, trouxe a garrafa de gim e tornou a enchê-lo.
Não era preciso pedir nada. Conheciam seus hábitos. O tabuleiro de xadrez
estava sempre à sua disposição; sua mesa de canto, sempre reservada.
Guardavam-na para ele mesmo quando o local estava lotado, já que os
outros clientes não gostavam muito de sentar-se perto dele. Winston nunca
se dava ao trabalho de contar quantas doses de gim consumia. A intervalos
irregulares, traziam-lhe um pedaço encardido de papel que diziam ser a
conta, porém ele tinha a impressão de que sempre cobravam menos do que
o devido. Não teria importância se lhe cobrassem a mais. Agora andava
com o bolso cheio de dinheiro. Tinha até um cargo, uma sinecura, que lhe
rendia um salário mais alto que seu antigo emprego.
A música que saía da teletela foi interrompida e em seu lugar entrou uma
voz. Winston ergueu a cabeça para escutar. Mas não eram notícias do
fronte. Apenas um breve anúncio do Ministério da Pujança. No trimestre
anterior, ao que parecia, a cota de produção de cadarços estabelecida pelo
Décimo Plano Trienal fora ultrapassada em noventa e oito por cento.
Winston examinou o problema enxadrístico e espalhou as peças no
tabuleiro. Era um final difícil, envolvendo dois cavalos. “Jogam as brancas.
Mate em dois lances.” Olhou para o retrato do Grande Irmão. As brancas


sempre dão o xeque-mate, pensou, com uma espécie de misticismo
nebuloso. O arranjo é sempre esse, sem exceção. E é assim desde que o
mundo é mundo. Nunca houve problema de enxadrismo em que as pretas
tivessem ganho. Porventura isso não simbolizava o triunfo eterno e
imutável do Bem sobre o Mal? O rosto descomunal lhe devolvia o olhar. As
brancas sempre dão o xeque-mate.
Na teletela, a voz fez uma pausa e acrescentou, em outro tom, muito mais
sério: “Estão todos convocados para um anúncio importante às quinze e
trinta. Quinze e trinta! Trata-se de notícia da mais alta importância. Não
percam. Quinze e trinta!”. A música vibrante recomeçou.
O coração de Winston disparou. Só podia ser o comunicado com as
últimas informações do fronte; a intuição lhe dizia que as novidades não
eram boas. Durante todo o dia, com pequenas erupções de excitação, a ideia
de uma derrota fragorosa na África de vez em quando invadia seus
pensamentos. Parecia-lhe efetivamente ver o exército eurasiano
atravessando a fronteira até então inexpugnável e descendo, qual fileira de
formigas, para a ponta da África. Por que não haviam encontrado uma
maneira de flanqueá-los? O contorno da costa da África Ocidental se
destacava vividamente em sua cabeça. Pegou o cavalo branco e moveu-o
pelo tabuleiro. Aquela era a posição certa. Tão logo viu a horda preta
avançando para o sul, divisou outro exército, misteriosamente reunido, de
súbito posicionado em sua retaguarda, cortando suas linhas de comunicação
por terra e mar. Sentia que, ao desejá-lo, fazia com que esse outro exército
passasse a existir. Mas era preciso agir com rapidez. Se conseguissem
controlar a África inteira, se dominassem os campos de pouso e as bases
submarinas no Cabo, os eurasianos partiriam a Oceânia em duas. As
consequências disso eram imprevisíveis: derrota, colapso, uma nova divisão
mundial, a destruição do Partido! Winston respirou fundo. Uma
extraordinária mistura de sentimentos — embora não fossem propriamente
uma mixórdia; seria mais exato dizer que estavam dispostos numa série de
camadas, sendo impossível dizer qual a mais profunda — digladiava-se em
seu íntimo.
O espasmo passou. Winston pôs o cavalo branco de volta no lugar, mas
por enquanto não conseguia dedicar-se a um estudo sério do problema
enxadrístico. Seus pensamentos mais uma vez divagaram. De modo quase
inconsciente, escreveu com o dedo na poeira da mesa:


2 + 2 = 5
“Eles não podem entrar em você”, dissera Julia. Mas podiam entrar, sim.
“O que lhe acontecer aqui é para sempre”, dissera O’Brien. Era verdade.
Havia coisas — atos cometidos pela própria pessoa — das quais não era
possível recuperar-se. Algo era destruído dentro do peito; queimado,
cauterizado.
Winston vira Julia; inclusive falara com ela. Não havia perigo nisso.
Sabia, como por instinto, que quase já não se interessavam pela conduta
dele. Podia até ter combinado um segundo encontro com ela, se um dos dois
tivesse desejado. Na realidade, haviam se encontrado por acaso. Fora no
Parque, num dia horrível de março, de um frio cortante, com a terra dura
como ferro e a relva aparentemente toda morta. Não havia nenhum broto à
vista, exceto alguns crócus que tinham aflorado apenas para se expor à ação
devastadora do vento. Winston caminhava apressado, de mãos congeladas e
olhos lacrimejantes, quando a viu, menos de dez metros à frente. Passaram
um pelo outro quase sem se dar conta; mas ele fez meia-volta e foi atrás
dela sem muito entusiasmo. Sabia que não havia perigo; já não despertavam
interesse. Julia não disse nada. Saiu andando na diagonal pela relva, como
se quisesse livrar-se dele. Depois aparentemente se conformou em tê-lo a
seu lado. Entraram numa moita de arbustos rotos e desfolhados, um lugar
que não servia nem para ocultá-los nem para protegê-los do vento. Pararam
de andar. Fazia um frio terrível. O vento assobiava por entre os ramos secos
e castigava os eventuais crócus, de aspecto encardido. Ele passou o braço
pela cintura dela.
Não havia teletelas, mas talvez houvesse microfones escondidos. Além
do mais, podiam ser vistos. Não tinha importância. Nada tinha importância.
Podiam ter se deitado no chão e feito aquilo, se quisessem. Winston gelou
de horror diante da ideia. Julia, por sua vez, não esboçou reação ao ser
envolta pelo braço dele — nem sequer tentou se soltar. Winston soube então
o que se modificara nela. Seu rosto estava lívido e havia uma grande
cicatriz, parcialmente oculta pelo cabelo, que ia da testa à têmpora; mas não
era essa a transformação. A diferença era que sua cintura estava mais
pesada e surpreendentemente mais rígida. Winston se lembrou da ocasião
em que, após a explosão de um míssil, ajudara a tirar um cadáver do meio
dos escombros, e recordou seu espanto não apenas com o incrível peso do


corpo como também com sua rigidez e difícil manipulação, que 0 faziam
parecer mais pedra que carne. O corpo de Julia tinha essas características.
Ocorreu-lhe que sua pele devia estar com uma textura muito diferente da de
antes.
Ele não tentou beijá-la e os dois permaneceram mudos. Quando saíram
da moita e voltaram pela relva, Julia o encarou pela primeira vez. Foi um
olhar rápido, repleto de desprezo e aversão. Ele se perguntou se era uma
aversão oriunda estritamente do passado ou se também teria sido suscitada
pela deformação de seu rosto e pelas lágrimas que o vento teimava em
arrancar de seus olhos. Sentaram-se em duas cadeiras de ferro, lado a lado,
mas não muito perto um do outro. Ele percebeu que ela estava prestes a
dizer alguma coisa. Ela moveu de leve o sapato feioso e esmagou
deliberadamente um graveto. Seus pés pareciam ter ficado mais largos,
reparou ele.
“Eu traí você”, disse ela simplesmente.
“Eu traí você”, disse ele.
Julia tornou a dirigir-lhe um rápido olhar de aversão.
“Às vezes”, ela disse, “eles ameaçam você com uma coisa — uma coisa
que você não tem condições de suportar, sobre a qual não consegue nem
pensar. E então você diz: ‘Não façam isso comigo, façam com outra pessoa,
façam com fulano e sicrano’. E depois você pode até fazer de conta que foi
só um truque e que só disse isso para fazê-los parar; que não foi para valer.
Mas não é verdade. Na hora em que acontece, é para valer, sim. Você pensa
que não tem outra saída e está perfeitamente disposto a se salvar daquela
forma. Quer que aquilo aconteça com a outra pessoa. Não está nem aí para
o sofrimento dela. Na hora, você só pensa em si mesmo.”
“Só pensa em si mesmo”, repetiu Winston.
“E depois você não sente mais o que sentia antes em relação à pessoa.”
“Não”, disse ele, “não sente mais o que sentia antes.”
Não parecia haver mais nada a dizer. O vento colava os macacões finos
contra seus corpos. De uma hora para outra, ficou constrangedor
permanecerem ali sentados em silêncio; além do mais, com aquele frio, era
impossível ficar parado. Julia disse alguma coisa sobre pegar o metrô e
levantou-se para ir embora.
“Precisamos nos ver de novo”, disse ele.
“É”, disse ela, “precisamos.”


Winston seguiu-a, sem muita convicção, por um pequeno trecho. Ia meio
passo atrás. Não voltaram a se falar. Julia não chegava a tentar se afastar
dele, porém caminhava num ritmo que o impedia de alcançá-la. Ele decidira
acompanhá-la até a estação do metrô, mas de repente a ideia de continuar
em seu rasto naquele frio pareceu-lhe sem sentido e intolerável. Foi
dominado por um desejo não tanto de se afastar de Julia como de voltar ao
Café da Castanheira, que nunca lhe parecera tão aconchegante quanto
naquele momento. Teve uma visão nostálgica de sua mesinha de canto, com
o jornal e o tabuleiro de xadrez e o copo sempre cheio de gim. Acima de
tudo, o lugar estaria aquecido. No instante seguinte, de modo não
totalmente acidental, permitiu que um pequeno grupo de pessoas se
interpusesse entre ela e ele. Fez uma tentativa indolente de voltar a se
aproximar dela, em seguida reduziu o passo e deu meia-volta. Depois de
percorrer cinquenta metros, olhou para trás. A rua não estava movimentada,
porém já não conseguiu divisá-la. Qualquer dos dez ou doze vultos que via
na calçada podia ser o dela. Talvez o corpo engrossado e enrijecido já não
fosse identificável de costas.
“Na hora em que acontece”, dissera ela, “é para valer, sim.” Com ele fora
assim. Não dissera aquilo da boca para fora. Desejara-o. Quisera que ela, e
não ele, fosse entregue aos…
Houvera uma mudança na música que escorria da teletela. Ela foi tingida
por um tom arranhado, zombeteiro, por uma tonalidade amarela. E em
seguida — talvez aquilo não estivesse acontecendo, talvez fosse apenas
uma lembrança assumindo o aspecto de um som — uma voz começou a
cantarolar:

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