1984 Edição especial



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1984 - Edicao especial - George Orwell
07 - Cronograma de Julho 2022

Partido é imortal.”
Como de hábito, a voz drenara as forças de Winston. Além disso, a ideia
de que O’Brien voltasse a acionar o mostrador caso ele persistisse em suas
objeções deixava-o apavorado. Mesmo assim, não conseguia ficar quieto.
Frágil, sem argumentos, sem nenhum apoio além do seu impotente horror
ao que O’Brien dissera, voltou ao ataque.
“Não sei. Não me importa. De algum modo vocês fracassarão. Alguma
coisa derrotará vocês. A vida derrotará vocês.”
“Nós controlamos a vida, Winston, em todos os níveis. Você está
imaginando que existe uma coisa chamada natureza humana, e que essa
coisa ficará ultrajada com o que estamos fazendo e se voltará contra nós.
Mas nós é que criamos a natureza humana. Os homens são infinitamente
maleáveis. Ou será que você voltou à sua velha ideia de que os proletários
ou os escravos se levantarão e nos derrubarão? Tire isso da cabeça. Eles não
têm saída. São como os animais. A humanidade é o Partido. Os outros estão
fora — irrelevantes.”
“Não me importa. No fim, eles vencerão vocês. Mais cedo ou mais tarde
verão vocês do jeito que vocês são, e nesse momento acabarão com vocês.”
“Você vê algum indício de que isso esteja acontecendo? Ou alguma razão
para que venha a acontecer?”
“Não. Mas acredito. Sei que vocês vão fracassar. Tem uma coisa no
universo — não sei o quê, um espírito, um princípio — que vocês nunca
conseguirão vencer.”
“Você acredita em Deus, Winston?”
“Não.”


“Então que princípio é esse que nos vai derrotar?”
“Não sei. O espírito do homem.”
“E você se considera um homem?”
“Sim.”
“Se você é um homem, Winston, você é o último deles. Sua espécie está
extinta. Nós somos os herdeiros. Você entende que está sozinho? Você está
fora da história. Você é inexistente.” O’Brien mudou de tom e disse com
mais aspereza: “E você se considera moralmente superior a nós, com nossas
mentiras e nossa crueldade?”.
“Sim, me considero superior.”
O’Brien não disse nada. Duas outras vozes estavam falando. Depois de
algum tempo, Winston se deu conta de que uma das vozes era a dele. Era
uma gravação da conversa que tivera com O’Brien na noite em que se
alistara na Confraria. Ouviu sua própria voz jurando mentir, roubar,
falsificar, assassinar, favorecer o consumo de drogas e a prostituição,
disseminar doenças venéreas, jogar ácido no rosto de crianças. O’Brien fez
um pequeno gesto de impaciência, como se dissesse que nem valia a pena
fazer aquela demonstração. Apertou um botão e as vozes cessaram.
“Levante-se dessa cama”, disse.
As amarras estavam frouxas. Winston apoiou os pés no chão e se ergueu,
num equilíbrio instável.
“Você é o último dos homens”, disse O’Brien. “Você é o guardião do
espírito humano. Vou lhe mostrar como você realmente é. Tire a roupa.”
Winston desamarrou o barbante que segurava o macacão. Havia um bom
tempo que o zíper fora arrancado. Não se lembrava, desde o momento de
sua detenção, de alguma vez ter tirado a roupa toda. Por baixo do macacão,
seu corpo estava coberto com farrapos amarelados e imundos, que mal
conseguia reconhecer como sendo os vestígios de roupas de baixo.
Enquanto os jogava no chão, viu que havia um espelho de três faces do
outro lado do quarto. Aproximou-se e estacou. Um grito involuntário
escapou de sua garganta.
“Vamos”, disse O’Brien. “Posicione-se entre as laterais do espelho.
Assim também poderá ter a visão de perfil.”
Ele estacara porque estava com medo. Uma figura encurvada, cinzenta e
esquelética avançava em sua direção. Sua aparência era ainda mais
assustadora do que a consciência de que se tratava de sua própria imagem.


Aproximou-se do espelho. O rosto da criatura parecia proeminente, por
causa da postura encurvada. Um rosto abatido, semelhante ao de um
passarinho na gaiola, com uma testa aristocrática que se emendava com a
cabeça calva, um nariz torto, a boca quase sem lábios e a face deformada
sob uns olhos que se mantinham enérgicos e atentos. Evidentemente, aquele
era o seu rosto, mas parecia-lhe mais alterado do que seu espírito. As
emoções nele registradas deviam ser diferentes daquelas que ele sentia.
Estava parcialmente calvo. A primeira impressão fora de que também ficara
grisalho, mas era a pele da cabeça que assumira um tom acinzentado. Com
exceção das mãos e do círculo do rosto, todo o seu corpo apresentava
aquela cor cinza, de sujeira antiga e incrustada. Aqui e ali, debaixo da
sujeira, havia cicatrizes vermelhas de ferimentos, e perto do tornozelo uma
úlcera varicosa era uma massa inflamada que soltava flocos de pele. Porém
o mais assustador era o emaciado do corpo. A caixa das costelas era
pequena como a de um esqueleto. As pernas haviam encolhido tanto que os
joelhos estavam mais grossos do que as coxas. Percebia agora por que
O’Brien lhe falara em visão lateral. A curvatura da espinha era
impressionante. Os ombros magros lançavam-se para a frente,
transformando o peito numa concavidade. O pescoço magro e ossudo dava
a impressão de envergar-se sob o peso da caveira. Parecia o corpo de um
homem de sessenta anos que sofresse de uma doença maligna.
“Houve vezes”, disse O’Brien, “em que você pensou que meu rosto — o
rosto de um membro do Núcleo do Partido — parecia velho e desgastado. O
que acha, agora, de seu próprio rosto?”
Pegou Winston pelo ombro e virou-o para que os dois se defrontassem.
“Veja em que estado você está!”, disse. “Veja essa capa de sujeira por
todo o seu corpo. Veja a imundície entre os dedos de seus pés. Veja essa
ferida nojenta na sua perna. Sabia que você fede como um bode?
Provavelmente não sente mais seu próprio odor. Veja a sua palidez. Está
vendo? Com o polegar e o indicador, posso dar a volta em seu bíceps. Se eu
quisesse, poderia quebrar o seu pescoço como se fosse uma cenoura. Sabia
que você perdeu vinte e cinco quilos desde que está em nossas mãos? Até
seus cabelos estão caindo aos tufos. Veja!”, e extraiu um tufo de cabelos de
Winston. “Abra a boca. Sobram nove, dez, onze dentes. Quantos você tinha
ao chegar? E os poucos que lhe restam estão caindo sozinhos. Veja!”


Segurou com o polegar e o indicador um dos incisivos que ainda
restavam e puxou-o. Uma pontada de dor percorreu a mandíbula de
Winston. O’Brien olhou para o dente solto em sua mão e jogou-o no chão.
“Seu corpo está apodrecendo”, disse. “Você está caindo aos pedaços. O
que você é? Um saco de lixo. Agora se vire e se olhe de novo no espelho.
Está vendo aquilo que está olhando para você? Aquele é o último homem.
Se você é um ser humano, aquilo é a humanidade. Agora vista-se.”
Winston começou a se vestir com movimentos lentos e duros. Até então
parecia não ter se dado conta de quão magro e fraco estava. Um único
pensamento percorria sua cabeça: que permanecera naquele lugar por mais
tempo do que pensara. De repente, concentrou-se nos trapos miseráveis que
o envolviam e um sentimento de pena pelo estado de seu corpo se apossou
de sua mente. Antes de perceber o que estava fazendo, despencou sobre
uma banqueta ao lado da cama, em lágrimas. Tinha consciência de sua
feiura e falta de graça: um feixe de ossos, envolto em roupas imundas,
sentado e chorando sob a luz branca e dura. Mas não conseguia parar.
O’Brien apoiou a mão em seu ombro, quase com afeto.
“Não vai durar para sempre”, disse. “Você pode escapar disso quando
quiser. Só depende de você.”
“Vocês fizeram isso comigo!”, soluçou Winston. “Vocês me reduziram a
este estado.”
“Não, Winston. Foi você mesmo quem se reduziu a isso. Isso é o que
você aceitou quando se colocou contra o Partido. Tudo já estava contido no
primeiro ato. Não aconteceu nada que você não tivesse previsto.”
Fez uma pausa e prosseguiu.
“Massacramos você, Winston. Quebramos você. Olhe o que resta do seu
corpo. Sua mente está no mesmo estado. Não acho que ainda lhe reste
muito orgulho. Você foi submetido a chutes, açoites e insultos; gritou de
dor, rolou pelo chão sobre o seu sangue e o seu vômito. Implorou por
clemência, traiu tudo e todos. Pode imaginar alguma degradação que ainda
não tenha sofrido?”
Winston parou de chorar, embora as lágrimas continuassem a lhe escorrer
dos olhos. Olhou para O’Brien.
“Não traí Julia”, disse.
O’Brien olhou para ele, concentrado. “Não”, disse. “Não. Isso é mesmo
verdade. Você não traiu Julia.”


A peculiar reverência por O’Brien, que nada parecia capaz de destruir,
invadiu novamente o coração de Winston. Que inteligente, ele pensou, que
inteligente! O’Brien nunca deixava de compreender o que lhe era dito.
Qualquer outra pessoa na face da terra teria respondido prontamente que ele
tinha traído Julia. Afinal, o que é que não lhe fora extraído com as torturas?
Ele lhes revelara tudo o que sabia sobre ela, seus hábitos, sua personalidade,
sua vida pregressa. Confessara até os mínimos detalhes tudo o que
acontecera em seus encontros, tudo o que ele lhe dissera e ela a ele, suas
refeições obtidas no mercado negro, seus adultérios, seus vagos planos
contra o Partido — tudo. Porém, no sentido em que pretendera empregar a
palavra, não a traíra: não deixara de amá-la. Seus sentimentos por ela
permaneciam intactos. O’Brien percebera o que ele quisera dizer sem que
fosse preciso explicar.
“Diga-me”, falou, “quando é que vão me matar?”
“Pode demorar”, respondeu O’Brien. “Você é um caso difícil. Mas não
perca as esperanças. Mais cedo ou mais tarde, todos se curam. No fim, nós
o mataremos.”



4.
Winston sentia-se muito melhor. Engordava e se fortalecia a cada dia, se é
que naquele lugar podia-se falar em dias.
A luz branca e o zumbido eram sempre os mesmos, mas a cela era um
pouco mais confortável que as outras em que já estivera. Dispunha de um
travesseiro e de um colchão para a cama de tábuas, e de uma banqueta para
sentar-se. Tinham lhe dado um banho e permitiam com razoável frequência
que se lavasse numa bacia. Forneciam-lhe até água quente. Haviam
providenciado roupas de baixo novas e um macacão limpo. Tinham passado
uma pomada para aliviar a dor de sua úlcera varicosa. Haviam arrancado os
dentes que lhe restavam e providenciado uma dentadura.
Semanas ou meses deviam ter se passado. Agora ele teria conseguido
acompanhar a passagem do tempo, se sentisse algum interesse em fazê-lo,
pois começara a ser alimentado a intervalos aparentemente regulares. Pelos
seus cálculos, recebia três refeições a cada vinte e quatro horas. Às vezes se
indagava — sem disposição para buscar a resposta — se as recebia à noite
ou durante o dia. A comida era surpreendentemente boa, e incluía carne a
cada três refeições. Uma vez, viera até acompanhada de um maço de
cigarros. Winston não tinha fósforos, porém o guarda taciturno que levava a
comida acendia os cigarros para ele. Sentiu náusea nas primeiras tragadas,
mas insistiu e, fumando meio cigarro depois de cada refeição, fez o maço
durar bastante.
Haviam lhe fornecido uma lousa branca com um toco de lápis preso num
canto por um barbante. No início, não fez uso dela. Mesmo quando estava
acordado, o torpor o dominava. Entre uma e outra refeição, muitas vezes
permanecia deitado, quase sem se mexer, às vezes dormindo, às vezes
acordado, entregue a devaneios confusos, durante os quais tinha dificuldade
para abrir os olhos. Fazia tempo que se acostumara a dormir com aquela luz


forte no rosto. Não parecia fazer diferença, exceto pela maior coerência dos
sonhos. Naquele período Winston tinha muitos sonhos — sempre sonhos
felizes. Via-se na Terra Dourada, ou sentado entre ruínas enormes,
gloriosas, banhadas pelo sol, com sua mãe, com Julia, com O’Brien — não
fazia nada, apenas ficava ao sol, conversando sobre coisas pacatas. Seus
pensamentos, quando acordado, eram basicamente sobre esses sonhos.
Parecia ter perdido a capacidade do estímulo intelectual, agora que o agente
da dor fora removido. Não estava entediado; não sentia o menor desejo de
conversar ou distrair-se. O simples fato de estar sozinho, não ser torturado
nem interrogado, ter o suficiente para comer e permanecer com o corpo
limpo era plenamente satisfatório.
Aos poucos, começou a passar menos tempo dormindo, mas ainda não
tinha vontade de sair da cama. Só queria ficar quieto e sentir o vigor se
acumulando no corpo. Apalpava-se aqui e ali, tentando convencer-se de que
não era ilusão que seus músculos ficavam mais redondos e sua pele menos
flácida. Por fim, não restava dúvida: era evidente que ele ganhava peso;
suas coxas estavam definitivamente mais grossas que os joelhos. Depois,
ainda que com alguma relutância no início, Winston começou a praticar
exercícios regulares. Em pouco tempo já conseguia andar três quilômetros
— medidos a passo no interior da cela — e seus ombros encurvados
começaram a endireitar-se. Tentou exercícios mais elaborados e ficou
atônito e envergonhado ao se dar conta das coisas que não conseguia fazer.
Não conseguia andar mais depressa, não conseguia segurar a banqueta com
o braço estendido, não conseguia manter-se em pé numa perna só sem cair.
Agachou-se e percebeu que erguer o corpo a partir daquela posição lhe
causava dores terríveis nas coxas e nas panturrilhas. Estendeu-se de bruços
e tentou elevar o tronco com os braços. Em vão: não conseguia erguer-se
nem um centímetro do chão. Contudo, alguns dias mais tarde — algumas
refeições mais tarde —, até mesmo essa façanha ele conseguiu realizar.
Passado algum tempo, já era capaz de repetir o exercício seis vezes
seguidas. Começou a orgulhar-se de seu corpo e a nutrir a crença de que seu
rosto também estava voltando ao normal. Só quando acontecia de levar a
mão ao crânio calvo Winston se lembrava do rosto arruinado e coberto de
cicatrizes que vira no espelho.
Sua mente ficou mais ativa. Sentava-se na cama de tábuas com as costas
apoiadas na parede e a lousa sobre os joelhos e se dedicava deliberadamente


à tarefa de reeducar-se.
Capitulara. Era indiscutível. A bem da verdade, agora percebia, estava
pronto para a rendição muito antes de decidir-se. Desde que chegara ao
Ministério do Amor — e mesmo naqueles minutos em que ele e Julia,
paralisados, sem ação no meio do quarto, ouviam a voz truculenta vinda da
teletela lhes dizendo o que fazer —, Winston compreendera sua futilidade,
sua leviandade ao afrontar o poder do Partido. Sabia agora que fazia sete
anos que a Polícia das Ideias o observava como se ele fosse um besouro
debaixo de uma lupa. Não havia ato físico nem palavra pronunciada em voz
alta que eles não tivessem notado, nenhuma sequência de ideias que não
tivessem sido capazes de inferir. Até o grão de poeira esbranquiçada que
Winston deixava sobre a capa do diário eles recolocavam cuidadosamente
no lugar. Haviam lhe mostrado gravações e fotos. Em algumas fotos, ele
estava com Julia. Sim, até… Não podia mais lutar contra o Partido. Além
do mais, o Partido tinha razão. Devia ter: como o cérebro imortal, coletivo
podia estar errado? Por meio de que critérios externos seus julgamentos
poderiam ser verificados? A sanidade mental era estatística. Tratava-se
simplesmente de aprender a pensar como eles pensavam. Apenas…!
O lápis parecia grosso e desajeitado entre seus dedos. Pôs-se a anotar os
pensamentos que lhe vinham à cabeça. Primeiro, com uma letra grande e
rudimentar, escreveu em maiúsculas:
LIBERDADE É ESCRAVIDÃO
Depois, quase sem interrupção, escreveu embaixo:
DOIS E DOIS SÃO CINCO
Mas nesse momento sentiu uma espécie de embargo. Sua mente, como
tentando se esquivar de alguma coisa, parecia incapaz de concentrar-se. Ele
sabia que sabia o que vinha em seguida, porém as palavras lhe fugiam.
Quando afinal se lembrou do que devia ser, foi graças a uma reflexão
consciente; a frase não surgiu por conta própria. Escreveu:
DEUS É PODER


Aceitava tudo. O passado era modificável. O passado nunca fora
modificado. A Oceânia estava em guerra com a Lestásia. A Oceânia sempre
estivera em guerra com a Lestásia. Jones, Aaronson e Rutherford eram
culpados pelos crimes de que haviam sido acusados. Ele nunca tinha visto a
foto que provava a inocência daqueles homens. A foto não existia; ele a
inventara. Lembrava-se de recordar coisas que contradiziam isso, porém
eram memórias falsas, produtos de seu autoengano. Como era fácil!
Bastava render-se, que tudo o mais vinha em seguida. Era como nadar
contra uma correnteza que empurrasse a pessoa para trás, por mais força
que a pessoa fizesse, e depois de repente decidir virar para o outro lado e
deixar-se levar pela correnteza em vez de opor-se a ela. Nada se alterara,
exceto sua própria atitude; fosse como fosse, o que estava predestinado
sempre acontecia. Winston não sabia direito por que se rebelara. Tudo era
fácil, exceto…
Qualquer coisa podia ser verdade. As assim chamadas leis da natureza
eram uma bobagem. A lei da gravidade era uma bobagem. “Se eu quisesse”,
dissera O’Brien, “poderia flutuar para longe desse piso como uma bolha de
sabão.” Winston ficou pensando. “Se ele pensar que está flutuando e
subindo, e se eu ao mesmo tempo pensar que o vejo flutuando e subindo,
então a coisa acontece.” Num golpe, como uma madeira de navio
naufragado aflorando à superfície da água, o pensamento rompeu em sua
mente: “Não acontece de fato. Imaginamos que acontece. É alucinação”.
Freou de imediato o pensamento. A falácia era óbvia. Partia do pressuposto
de que em algum lugar, fora da própria pessoa, havia um mundo “real” onde
coisas “reais” aconteciam. Mas como seria possível existir um mundo
assim? Que conhecimento temos de seja lá o que for senão o que obtemos
por meio de nossa própria mente? Tudo acontece na mente. O que quer que
aconteça em todas as mentes, acontece de fato.
Não teve dificuldade em se livrar daquela falácia, e não corria o menor
risco de sucumbir a ela. Compreendeu, porém, que ela nem sequer devia ter
lhe ocorrido. A mente precisava desenvolver um ponto cego sempre que um
pensamento perigoso viesse à tona. O processo devia ser automático,
instintivo. Brecacrime, era sua denominação em Novafala.
Passou a exercitar-se em brecacrime. Apresentava a si mesmo algumas
proposições — “o Partido diz que a Terra é plana”, “o Partido diz que o
gelo é mais pesado que a água” — e treinava para não ver ou não entender


os argumentos que as contradiziam. Não era fácil. Exigia enorme
capacidade de raciocínio e improvisação. Os problemas aritméticos
suscitados por uma afirmação como “dois e dois são cinco”, por exemplo,
estavam fora de seu alcance intelectual. Era preciso, também, praticar uma
espécie de atletismo mental: num momento recorrer ao raciocínio lógico
mais sofisticado, e no momento seguinte ignorar os equívocos lógicos mais
grosseiros. A burrice era tão necessária quanto a inteligência, e igualmente
difícil de ser adquirida.
Enquanto isso, com uma parte da mente Winston se perguntava quanto
tempo faltaria para sua execução. “Só depende de você”, dissera O’Brien;
mas ele sabia que não havia um ato consciente que lhe possibilitasse
apressar as coisas. Podia ser dali a dez minutos ou dali a dez anos. Podiam
mantê-lo em confinamento solitário por anos a fio; podiam mandá-lo para
um campo de trabalhos forçados; podiam libertá-lo por algum tempo, como
às vezes faziam. Era perfeitamente possível que, antes de executá-lo, todo o
drama da prisão e do interrogatório voltasse a ser encenado. A única certeza
era que a morte nunca vinha no momento esperado. Rezava a tradição — a
tradição tácita: de algum jeito a pessoa sabia, embora ninguém nunca
tivesse lhe contado — que o tiro fosse dado pelas costas, sempre na nuca,
sem aviso prévio, quando o preso passava por um corredor ligando uma
cela a outra.
Um dia — mas “um dia” não era a expressão adequada; podia muito bem
ter sido no meio da noite — Winston caiu num devaneio estranho, jubiloso.
Avançava pelo corredor, à espera do tiro. Sabia que o gatilho seria apertado
a qualquer momento. Tudo estava resolvido, equacionado, apaziguado. Já
não havia dúvidas, argumentações, dores, medo. Seu corpo era saudável e
forte. Caminhava sem dificuldade, com uma alegria de movimento e com a
sensação de estar andando à luz do sol. Já não estava nos corredores
estreitos e brancos do Ministério do Amor, mas na vasta ladeira banhada
pelo sol, de um quilômetro de largura, que no delírio induzido pelas drogas
tivera a impressão de descer. Estava na Terra Dourada, percorrendo a trilha
que atravessava o velho pasto comido pelos coelhos. Sentia a relva baixa e
vigorosa sob os pés e os suaves raios do sol no rosto. Na orla do campo, a
brisa balançava muito suavemente os ramos dos olmos, e em algum ponto
mais adiante havia um riacho onde os robalinhos nadavam nas poças verdes
sob os chorões.


De repente, saltou da cama com um choque de horror. O suor lhe escorria
pelas costas. Ouvira a própria voz gritando:
“Julia! Julia! Julia, meu amor! Julia!”
Por um instante, fora dominado pela irresistível alucinação da presença
dela ali. Tivera a sensação de que ela não apenas estava com ele como
dentro dele. Era como se Julia estivesse misturada à textura de sua pele.
Naquele instante seu amor por ela fora infinitamente maior do que quando
estavam juntos e livres. Ao mesmo tempo, entendeu que ela continuava
viva e precisava de sua ajuda.
Deitou-se de costas na cama e tentou se recompor. O que fizera? Quantos
anos acrescentara à sua servidão com aquele momento de fraqueza?
Mais alguns instantes e ouviria o tropel das botinas do lado de fora da
cela. Eles nunca deixariam sem castigo uma explosão daquelas. Agora
saberiam, se já não soubessem, que ele estava rompendo o acordo feito com
eles. Obedecia ao Partido, mas continuava odiando o Partido. No passado,
ocultara uma mente herege sob a aparência da conformidade. Agora descera
mais um degrau: capitulara na mente, porém o fizera na esperança de
manter o fundo de seu coração inviolado. Sabia que estava agindo errado,
mas preferia estar agindo errado. Eles perceberiam isso — O’Brien
perceberia. Com aquele grito tolo, Winston se entregara de vez.
Teria de começar tudo de novo. Talvez levasse anos. Passou a mão pelo
rosto, tentando se familiarizar com os novos traços. Havia vincos profundos
nas bochechas, as maçãs do rosto estavam protuberantes, o nariz achatado.
Além do mais, depois que se vira pela última vez no espelho, recebera um
jogo completo de dentes novos. Não seria fácil conservar a
inescrutabilidade sem saber como era seu rosto. De toda maneira, não
bastava manter as feições sob controle. Pela primeira vez, Winston se dava
conta de que, para guardar um segredo, teria de guardá-lo também de si
mesmo. Era preciso ficar o tempo todo consciente da presença do segredo,
mas, enquanto fosse possível, não podia permitir que ele assomasse à
consciência sob nenhuma forma a que alguém pudesse dar um nome. De
agora em diante, não bastava pensar direito; tinha de sentir direito, sonhar
direito. E tinha de manter o ódio permanentemente trancado dentro de si,
como um nódulo que fosse parte dele próprio e ao mesmo tempo não
tivesse relação com o resto do seu ser, uma espécie de cisto.


Um dia tomariam a decisão de eliminá-lo. Não havia como saber quando
isso aconteceria, mas seria possível intuir alguns segundos antes. Era
sempre pelas costas, andando por um corredor. Dez segundos seriam
suficientes. Nesse intervalo, o mundo dentro dele poderia virar do avesso. E
aí, de repente, sem que proferisse uma só palavra, sem que sofreasse o
passo, sem que uma só linha de seu semblante se alterasse, de repente a
camuflagem cairia, e bangue!, as baterias de seu ódio disparariam. O ódio o
inundaria como uma labareda enorme, trovejante. E, quase ao mesmo
tempo, bangue!, o gatilho seria apertado, tarde demais, ou cedo demais.
Destroçariam seu cérebro antes de conseguir reformá-lo. O pensamento
herege permaneceria impune, impenitente, para sempre inatingível. Teriam
aberto um buraco na própria perfeição deles. Morrer odiando-os —
liberdade era isso.
Winston fechou os olhos. Era mais difícil que aceitar uma disciplina
intelectual. A questão era degradar a si mesmo, mutilar a si mesmo. Tinha
de submergir na mais imunda das imundícies. Qual era a coisa mais horrível
e asquerosa de todas? Pensou no Grande Irmão. O rosto enorme (por vê-lo
constantemente em cartazes, sempre pensava nele como tendo um metro de
largura), com seu bigode preto e cerrado e os olhos que acompanhavam a
pessoa de um lado para outro, parecia adejar a seu bel-prazer na mente de
Winston. Quais eram seus verdadeiros sentimentos em relação ao Grande
Irmão?
Ouviu-se um tropel pesado de botinas no corredor. A porta de aço se
abriu com estrondo. O’Brien entrou na cela. Atrás dele vinham o oficial de
rosto de cera e os guardas de uniforme preto.
“Levante-se”, disse O’Brien. “Aproxime-se.”
Winston postou-se à sua frente. O’Brien agarrou seus ombros com as
mãos fortes e olhou-o bem de perto.
“Você andou pensando em me enganar”, disse. “Que idiotice. Endireite o
corpo. Olhe para mim.”
Calou-se, depois continuou num tom mais afável:
“Você está melhorando. Intelectualmente, há pouquíssima coisa errada
com você. É só emocionalmente que não está conseguindo progredir. Diga-
me, Winston — e, lembre-se, não minta; já sabe que sempre percebo
quando você mente —, diga-me, quais são seus verdadeiros sentimentos em
relação ao Grande Irmão?”


“Eu o odeio.”
“Você o odeia. Muito bem. Então chegou a hora de dar o último passo.
Tem de amar o Grande Irmão. Não basta obedecer a ele; tem de amá-lo.”
Soltou Winston, empurrando-o de leve para os guardas.
“Quarto 101”, disse.



5.
A cada etapa de seu período de detenção, Winston sabia, ou tinha a
impressão de saber, em que ponto do edifício sem janelas se encontrava.
Talvez houvesse pequenas diferenças na pressão atmosférica. As celas em
que fora espancado pelos guardas ficavam no subsolo. A sala onde O’Brien
o interrogara ficava num dos andares mais altos, perto da cobertura do
edifício. O lugar onde estava agora ficava vários metros abaixo da
superfície da terra, no ponto mais fundo a que era possível chegar.
Era um espaço mais amplo do que o da maioria das celas em que
estivera, só que mal reparava no que havia a seu redor. Tinha a atenção
inteiramente voltada para duas mesinhas bem à sua frente, ambas forradas
com feltro verde. Uma estava a apenas um ou dois metros dele; a outra,
mais afastada, perto da porta. Tinham-no amarrado a uma cadeira, com nós
tão firmes que era incapaz de mover o corpo, inclusive a cabeça. Uma
espécie de almofada cingia-lhe a cabeça por trás, obrigando-o a olhar para a
frente.
Permaneceu alguns instantes a sós; depois a porta se abriu e por ela
entrou O’Brien.
“Uma vez você me perguntou o que havia no quarto 101. Eu lhe disse
que você já sabia a resposta. Todos sabem. O que há no quarto 101 é a pior
coisa do mundo.”
A porta tornou a se abrir. Um guarda entrou, trazendo uma coisa feita de
arame, uma espécie de caixa ou cesta. Deixou-a sobre a mesa mais distante.
Devido à posição ocupada por O’Brien, Winston não conseguia ver o que
era.
“A pior coisa do mundo”, disse O’Brien, “varia de indivíduo para
indivíduo. Às vezes é ser enterrado vivo, às vezes morrer numa fogueira, ou
afogado, ou empalado, ou de cinquenta outras maneiras diferentes. Há casos


em que se trata de uma coisa muito boba, uma coisa que nem chega a ser
fatal.”
Moveu o corpo um pouco para o lado, para que Winston pudesse ver
melhor a coisa que estava sobre a mesa. Era uma gaiola de arame
retangular, com uma alça em cima, pela qual era transportada. Fixada à
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