1984 Edição especial


Partido em Nova York, a foto que onze anos antes lhe caíra acidentalmente



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1984 - Edicao especial - George Orwell
07 - Cronograma de Julho 2022

Partido em Nova York, a foto que onze anos antes lhe caíra acidentalmente
nas mãos e que ele de pronto destruíra. O’Brien a pôs diante de seus olhos
por um instante; depois tornou a ocultá-la. Mas Winston a vira, isso era
inquestionável! Fez um esforço desesperado, agonizante, para desprender a
parte superior do corpo. Era impossível movimentar-se um centímetro que
fosse, em qualquer direção. Na hora, esqueceu-se até do mostrador com a
alavanca. Tudo o que queria era ter novamente aquela foto entre os dedos,
ou ao menos olhar de novo para ela.
“Ela existe!”, gritou.
“Não”, disse O’Brien.
Foi até o outro lado da sala. Havia um buraco da memória na parede
oposta. O’Brien levantou a grade. Sem que ninguém a visse, a frágil tira de
papel agora rodopiava na corrente de ar quente; desaparecia numa língua de
fogo. O’Brien se afastou da parede.
“Cinzas”, disse. “Nem mesmo cinzas identificáveis. Pó. Ela não existe.
Nunca existiu.”
“Mas existiu! Ainda existe! Existe na memória. Eu me lembro. Você se
lembra.”
“Eu não me lembro”, disse O’Brien.
O coração de Winston se apertou. Aquilo era duplipensamento. Sentiu-se
dominado por uma impotência esmagadora. Se pudesse ter certeza de que
O’Brien estava mentindo, isso, ao que parecia, não teria feito diferença.


Mas era perfeitamente possível que O’Brien tivesse de fato esquecido a
fotografia. E, se fosse assim, já teria se esquecido de que afirmara não se
lembrar dela, teria se esquecido do próprio esquecimento. Como ter certeza
de que aquilo não passava de um embuste? Talvez o desequilíbrio mental
pudesse mesmo acontecer: foi esse o pensamento que selou sua derrota.
O’Brien o observava com expressão especulativa. Tinha, mais do que
nunca, o ar de um professor lidando pacientemente com uma criança
teimosa porém promissora.
“Há um slogan do Partido abordando o controle do passado”, disse.
“Repita-o, por favor.”
“‘Quem controla o passado controla o futuro; quem controla o presente
controla o passado’”, repetiu Winston, obediente.
“‘Quem controla o passado controla o futuro; quem controla o presente
controla o passado’”, disse O’Brien, balançando lentamente a cabeça para
demonstrar sua aprovação. “Você acha, Winston, que o passado tem uma
existência real?”
O sentimento de impotência tornou a se apossar de Winston. Seus olhos
se apressaram em mirar o mostrador. Não apenas desconhecia se a resposta
que o resguardaria da dor era “sim” ou “não”, como estava inseguro quanto
à resposta que ele próprio acreditava ser a verdadeira.
O’Brien esboçou um sorriso. “A metafísica não é o seu forte, Winston”,
disse. “Até este momento, você nunca havia se perguntado o que é que as
pessoas entendem por existência. Vou formular a pergunta com mais
precisão. Por acaso o passado existe concretamente no espaço? Há em
alguma parte um lugar, um mundo de objetos sólidos, onde o passado ainda
esteja acontecendo?”
“Não.”
“Então onde o passado existe, se de fato existe?”
“Nos documentos. Está registrado.”
“Nos documentos. E…?”
“Na mente. Na memória humana.”
“Na memória. Muito bem. Nós, o Partido, controlamos todos os
documentos e todas as lembranças. Portanto, controlamos o passado, não é
mesmo?”
“Mas como vocês podem impedir que as pessoas se lembrem das
coisas?”, gritou Winston, tornando a se esquecer momentaneamente do


mostrador. “É involuntário. É uma coisa que foge ao controle da pessoa.
Como podem controlar a memória? A minha vocês não controlaram!”
O’Brien voltou a assumir uma atitude severa. Levou a mão ao mostrador.
“Pelo contrário”, disse, “foi você que não a controlou. Por isso foi trazido
para cá. Está aqui porque não teve humildade suficiente, não teve
autodisciplina. Não se dispôs ao ato de submissão que é o preço a ser pago
pelo equilíbrio mental. Preferiu ser um lunático, uma minoria de um. Só a
mente disciplinada enxerga a realidade, Winston. Você acha que a realidade
é uma coisa objetiva, externa, algo que existe por conta própria. Também
acredita que a natureza da realidade é autoevidente. Quando se deixa levar
pela ilusão de que vê alguma coisa, supõe que todos os outros veem o
mesmo que você. Mas eu lhe garanto, Winston, a realidade não é externa. A
realidade existe na mente humana e em nenhum outro lugar. Não na mente
individual, que está sujeita a erros e que, de toda maneira, logo perece. A
realidade existe apenas na mente do Partido, que é coletiva e imortal. Tudo
o que o Partido reconhece como verdade é a verdade. É impossível ver a
realidade se não for pelos olhos do Partido. É esse o fato que você precisa
reaprender, Winston. E isso exige um ato de autodestruição, um esforço de
vontade. Você precisa se humilhar antes de conquistar o equilíbrio mental.”
O’Brien fez uma breve pausa, como para permitir que suas palavras
fossem devidamente compreendidas.
“Lembra-se”, continuou ele, “de ter escrito em seu diário: ‘Liberdade é a
liberdade de dizer que dois mais dois são quatro’?”
“Lembro”, disse Winston.
O’Brien levantou a mão esquerda e mostrou seu dorso para Winston, com
o polegar escondido e os outros quatro dedos estendidos.
“Quantos dedos tem aqui, Winston?”
“Quatro.”
“E se o Partido disser que não são quatro, mas cinco — quantos dedos
serão?”
“Quatro.”
A palavra foi concluída com um gemido de dor. O ponteiro do mostrador
saltara para cinquenta e cinco. O suor recobrira todo o corpo de Winston. O
ar que entrou em seus pulmões saiu sob a forma de grunhidos fundos, que
nem trincando os dentes Winston conseguia sufocar. O’Brien observava-o


com os quatro dedos ainda estendidos. Puxou a alavanca de volta. Dessa
vez, a dor foi apenas levemente mitigada.
“Quantos dedos, Winston?”
“Quatro.”
O ponteiro saltou para sessenta.
“Quantos dedos, Winston?”
“Quatro! Quatro! Que mais posso dizer? Quatro!”
O ponteiro provavelmente tornara a subir, porém Winston não olhou para
o mostrador. O semblante carregado, severo, e os quatro dedos ocupavam
todo o seu campo de visão. Tinha os dedos diante dos olhos, como colunas,
enormes, desfocados e dando a impressão de vibrar, mas inequivocamente
quatro.
“Quantos dedos, Winston?”
“Quatro! Pare, pare! Como pode continuar com isso? Quatro! Quatro!”
“Quantos dedos, Winston?”
“Cinco! Cinco! Cinco!”
“Não, Winston, assim não. Você está mentindo. Continua achando que
são quatro. Quantos dedos?”
“Quatro! Cinco! Quatro! O que você quiser. Apenas pare com isso, pare a
dor!”
De repente, viu-se sentando na cama, com o braço de O’Brien em volta
de seus ombros. Provavelmente perdera a consciência por alguns segundos.
As tiras que prendiam seu corpo à cama foram afrouxadas. Sentia muito
frio, tremia de maneira incontrolável, seus dentes batiam, lágrimas
deslizavam por suas faces. Por um momento, permaneceu agarrado a
O’Brien como um bebê, curiosamente reconfortado pelo braço pesado em
torno do ombro. Tinha a sensação de que O’Brien era seu protetor, que a
dor era algo que vinha de fora, que sua origem era outra, e que era O’Brien
quem o salvaria dela.
“Você aprende devagar, Winston”, disse O’Brien gentilmente.
“O que posso fazer?”, respondeu Winston entre lágrimas. “Como posso
deixar de ver o que tenho diante dos olhos? Dois e dois são quatro.”
“Às vezes, Winston. Às vezes são cinco. Às vezes são três. Às vezes são
todas essas coisas ao mesmo tempo. Precisa se esforçar mais. Não é fácil
adquirir equilíbrio mental.”


Ele deitou Winston na cama. Seus membros voltaram a ser atados, porém
a dor abrandara e o tremor desaparecera, deixando-o apenas fraco e com
frio. O’Brien acenou com a cabeça para o homem de jaleco branco que se
mantivera imóvel durante todo o procedimento. O sujeito debruçou-se e
examinou os olhos de Winston, verificou seu pulso, encostou uma orelha no
peito dele, deu uma batidinha aqui e ali; depois fez com a cabeça um sinal
afirmativo para O’Brien.
“De novo”, disse O’Brien.
A dor percorreu o corpo de Winston. O ponteiro provavelmente atingira
os setenta, setenta e cinco. Dessa vez ele fechara os olhos. Sabia que os
dedos continuavam ali e que continuavam sendo quatro. A única coisa que
importava era encontrar uma maneira de permanecer vivo até o espasmo
chegar ao fim. Já não sabia se estava gritando ou não. A dor tornou a
diminuir. Abriu os olhos. O’Brien levara a alavanca de volta para a posição
original.
“Quantos dedos, Winston?”
“Quatro. Imagino que sejam quatro. Eu veria cinco, se pudesse. Estou
tentando ver cinco.”
“O que você quer: me convencer de que vê cinco ou realmente vê-los?”
“Vê-los.”
“De novo”, disse O’Brien.
O ponteiro talvez estivesse em oitenta — noventa. Só a intervalos
Winston conseguia se lembrar do motivo por que a dor lhe estava sendo
infligida. Atrás das pálpebras obstinadamente fechadas, uma floresta de
dedos parecia se mover numa espécie de dança, embaralhando-se e
desembaralhando-se, desaparecendo uns atrás dos outros e reaparecendo
outra vez. Winston tentava contá-los, não se lembrava por quê. Sabia
apenas que era impossível contá-los e que de alguma forma isso se devia à
misteriosa identidade entre cinco e quatro. A dor voltou a diminuir. Ao abrir
os olhos, verificou que continuava vendo a mesma coisa. Um sem-fim de
dedos, movendo-se como árvores, continuava a correr em ambas as
direções, cruzando-se e descruzando-se. Tornou a fechar os olhos.
“Quantos dedos estou mostrando para você, Winston?”
“Não sei, não sei. Você vai me matar, se fizer isso de novo. Quatro,
cinco, seis — com toda a sinceridade, não sei.”
“Assim é melhor”, disse O’Brien.


Uma agulha entrou no braço de Winston. Quase no mesmo instante, uma
calidez feliz, curativa se espalhou por todo o seu corpo. A dor já estava
semiesquecida. Abriu os olhos e fitou O’Brien agradecido. À vista do rosto
rude e enrugado, tão feio e tão inteligente, seu coração parecia renovar-se.
Caso pudesse mover-se, teria pousado a mão sobre o braço de O’Brien.
Nunca o amara tão profundamente quanto naquele momento, e não apenas
porque ele estancara a dor. Reavivara-se em seu íntimo o velho sentimento
de que no fundo não importava se O’Brien era amigo ou inimigo. O’Brien
era alguém com quem se podia conversar. Talvez fosse mais importante ser
compreendido que amado. A tortura a que O’Brien o submetera deixara-o à
beira da demência, e em breve O’Brien certamente o mandaria para a
morte. Não tinha a menor importância. Num sentido que ia ainda mais
fundo que a amizade, eram muito íntimos; em algum lugar, embora as
palavras talvez jamais viessem a ser ditas de fato, havia um local em que
podiam se encontrar e conversar. A expressão com que O’Brien olhava para
ele sugeria que possivelmente um pensamento idêntico estivesse lhe
passando pela cabeça. Ao falar, sua voz tinha um tom afável, amistoso.
“Sabe onde você está, Winston?”
“Não. Imagino que no Ministério do Amor.”
“Sabe há quanto tempo está aqui?”
“Não faço ideia. Dias, semanas, meses… Acho que alguns meses.”
“E por que acha que trazemos as pessoas para este lugar?”
“Para fazê-las confessar.”
“Não, não é por isso. Tente de novo.”
“Para castigá-las.”
“Não!”, exclamou O’Brien. Sua voz se modificara extraordinariamente e
seu rosto assumira um aspecto a um só tempo ríspido e entusiasmado.
“Não! Não é apenas para obter sua confissão nem para castigar você. Será
que preciso explicar por que o trouxemos para cá? Foi para curá-lo! Para
fazer de você uma pessoa equilibrada! Será que é tão difícil assim você
entender, Winston, que ninguém sai deste lugar sem estar curado? Não
estamos preocupados com aqueles crimes idiotas que você cometeu. O
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