1984 Edição especial


participavam quase todos os seres humanos que Winston conhecera na vida



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1984 - Edicao especial - George Orwell
07 - Cronograma de Julho 2022

participavam quase todos os seres humanos que Winston conhecera na vida.
Era mais fácil confessar tudo e comprometer todo mundo. Além do mais,
em certo sentido, era tudo verdade. Era verdade que fora um inimigo do


Partido e, aos olhos do Partido, não havia a menor diferença entre
pensamento e ação.
Winston também guardava lembranças de outro tipo. Elas sobressaíam de
maneira desconexa em sua mente, como fotos circundadas por áreas de
escuridão.
Achava-se numa cela que não sabia dizer se estava às escuras ou se era
iluminada, pois não conseguia ver nada além de um par de olhos. Perto
dele, algum tipo de instrumento tiquetaqueava vagarosa e regularmente. Os
olhos tornavam-se maiores e mais brilhantes. De repente, ele se levantava
da cadeira e começava a flutuar, efetuando um mergulho em direção aos
olhos e sendo engolido por eles.
Estava atado a uma cadeira cercada por mostradores, sob luzes
ofuscantes. Um homem de jaleco branco lia os mostradores. Do lado de
fora ouvia-se um tropel de botas. A porta se abria com um clangor. O oficial
de rosto ceráceo entrava, acompanhado por dois guardas.
“Quarto 101”, dizia o oficial.
O homem de jaleco branco não se virava. Tampouco olhava para
Winston; só olhava para os mostradores.
Deslizava por um corredor vastíssimo, com um quilômetro de largura,
banhado por uma luz gloriosa, dourada, rindo a bandeiras despregadas e
fazendo confissões em altos brados. Confessava tudo, até as coisas que
conseguira calar sob tortura. Estava contando toda a história de sua vida
para uma audiência que já a conhecia. Com ele estavam os guardas, os
outros interrogadores, os homens de jaleco branco, O’Brien, Julia, o sr.
Charrington, todos deslizando juntos pelo corredor, às gargalhadas. Algo de
terrível que o futuro ocultava havia sido de alguma forma driblado, e não se
concretizara. Estava tudo certo, não havia mais dor, o último detalhe de sua
vida fora revelado, compreendido, perdoado.
Estava se levantando da cama de tábuas, quase certo de ter ouvido a voz
de O’Brien. Ao longo de todo o processo de interrogatório, embora em
nenhum momento o visse, Winston tinha a sensação de que O’Brien estava
junto de seu cotovelo, fora de seu campo de visão. Era O’Brien que
comandava tudo. Era ele que lançava os guardas contra Winston e também
quem impedia que o matassem. Era ele que decidia quando Winston devia
gritar de dor, quando devia ter um descanso, quando devia ser alimentado,
quando devia dormir, quando as drogas deviam ser injetadas em seu braço.


Era ele que fazia as perguntas e sugeria as respostas. O’Brien era o algoz, o
protetor, o inquisidor, o amigo. E certa feita — Winston não conseguia
recordar se fora num período de sono induzido por drogas ou num período
de sono natural, ou mesmo num momento de vigília —, uma voz
murmurara em seu ouvido: “Não se preocupe, Winston; você está sob meus
cuidados. Durante sete anos, zelei por você. Agora chegou o momento
decisivo. Vou salvar você, vou torná-lo perfeito”. Não sabia ao certo se era
a voz de O’Brien; mas era a mesma voz que lhe dissera: “Ainda nos
encontraremos no lugar onde não há escuridão”, naquele outro sonho de
sete anos antes.
Não se lembrava de ter havido um encerramento em seu interrogatório.
Num certo período tudo ficara às escuras, depois a cela, ou o quarto, em que
agora se encontrava fora gradualmente se materializando à sua volta. Estava
quase na horizontal e não podia se mexer. Tinha o corpo atado em todos os
pontos essenciais. Até sua nuca estava presa. O’Brien olhava para ele com
expressão grave e entristecida. Seu rosto, visto de baixo, parecia rude e
abatido, com olheiras e rugas que iam do nariz ao queixo. Era mais velho
do que Winston imaginara; devia ter uns quarenta e oito ou cinquenta anos.
Debaixo de sua mão havia um mostrador com uma alavanca e números
ocupando sua circunferência.
“Eu falei”, disse O’Brien, “que se voltássemos a nos encontrar seria
aqui.”
“É verdade”, concordou Winston.
Sem aviso prévio, exceto por um pequeno movimento da mão de
O’Brien, uma onda de dor invadiu seu corpo. Era uma dor apavorante, pois
Winston não conseguia ver o que estava acontecendo e tinha a sensação de
estar sendo alvo de algum tipo de lesão fatal. Não sabia se a coisa de fato
acontecia ou se o efeito era produzido eletricamente; fosse como fosse,
sentia o corpo sob o efeito de uma força deformadora, as juntas sendo
lentamente descoladas. Embora a dor tivesse enchido sua testa de suor, o
pior de tudo era o medo de que sua coluna estivesse prestes a se partir.
Trincou os dentes e respirou com força pelo nariz, tentando manter-se em
silêncio pelo maior tempo possível.
“Você está com medo”, disse O’Brien, observando seu rosto, “de que em
breve algo se parta. Receia, particularmente, que seja sua coluna. Tem uma


imagem mental muito nítida das vértebras se rompendo e do fluido espinhal
escorrendo delas. É nisso que está pensando, não é, Winston?”
Winston não respondeu. O’Brien levou a alavanca do aparelho à posição
original. A onda de dor desapareceu quase tão depressa quanto surgira.
“Quarenta, agora”, disse O’Brien. “Como pode ver, os números deste
mostrador vão até cem. Peço-lhe que tenha em mente ao longo de toda a
nossa conversa que eu posso, a qualquer momento, e em qualquer nível que
me apeteça, infligir-lhe dor. Se me disser mentiras ou tentar algum tipo de
tergiversação, ou descer abaixo de seu grau costumeiro de inteligência, no
mesmo instante começará a chorar de dor. Entendeu bem?”
“Entendi”, disse Winston.
Os modos de O’Brien tornaram-se menos severos. Ajeitou os óculos
pensativo e deu um ou dois passos para lá e para cá. Quando voltou a falar,
seu tom de voz era gentil e paciente. Tinha o ar de um médico, de um
professor, e mesmo de um sacerdote, preocupado em explicar e persuadir,
mais do que em punir.
“Estou perdendo algum tempo com você, Winston”, disse, “porque é um
caso que vale a pena. Você sabe muito bem qual é o seu problema. Faz anos
que está a par dele, embora venha tentando negá-lo. Você é mentalmente
desequilibrado. Tem problemas de memória. Não consegue se lembrar de
acontecimentos reais e convence a si mesmo de que se recorda de coisas
que nunca aconteceram. Felizmente, isso tem cura. Se até agora você não se
curou foi porque não quis. Havia um pequeno esforço de vontade que não
estava disposto a fazer. Mesmo agora, como eu sei, você se agarra à sua
doença porque a considera uma virtude. Vejamos um exemplo. Com que
potência a Oceânia está em guerra atualmente?”
“Quando me prenderam, a Oceânia estava em guerra com a Lestásia.”
“Com a Lestásia. Ótimo. E a Oceânia sempre esteve em guerra com a
Lestásia, não é mesmo?”
Winston respirou fundo. Abriu a boca para falar, mas permaneceu mudo.
Não conseguia tirar os olhos do mostrador que O’Brien tinha nas mãos.
“A verdade, Winston, por favor. A sua verdade. Conte-me o que acha que
se lembra.”
“Lembro-me de que até uma semana antes de eu ser preso não era com a
Lestásia que estávamos em guerra. Éramos aliados deles. A guerra era com
a Eurásia. E foi assim nos últimos quatro anos. Antes disso…”


O’Brien o interrompeu com um movimento da mão.
“Vejamos outro exemplo”, disse. “Há alguns anos você teve uma
alucinação gravíssima. Achou que três homens, três ex-membros do Partido
que atendiam pelos nomes de Jones, Aaronson e Rutherford — homens
executados por traição e sabotagem depois de terem feito as confissões mais
cabais — não eram culpados dos crimes pelos quais tinham sido
denunciados. Imaginou ter visto uma evidência documental inequívoca de
que aquelas confissões eram falsas. Havia uma certa foto sobre a qual você
teve uma alucinação. Acreditava tê-la realmente segurado nas mãos. Uma
foto mais ou menos como esta.”
Um recorte de jornal retangular surgiu entre os dedos de O’Brien e foi
mantido por cerca de cinco segundos no campo de visão de Winston. Era
uma foto, e não havia dúvida sobre sua identidade. Era a foto. Uma cópia
da foto em que Jones, Aaronson e Rutherford apareciam na cerimônia do
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