1984 Edição especial


Partido, duas mulheres, estavam sentadas no banco comprimidas uma



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1984 - Edicao especial - George Orwell
07 - Cronograma de Julho 2022

Partido, duas mulheres, estavam sentadas no banco comprimidas uma
contra a outra, ele ouviu no meio do burburinho umas palavras sussurradas
com pressa; e especialmente uma referência que não entendeu a algo
chamado “quarto 101”.
Talvez duas ou três horas tivessem se passado desde que fora levado para
ali. A dor surda na barriga não passava nunca, mas às vezes melhorava ou
então piorava, e seus pensamentos se expandiam ou encolhiam em
conformidade com ela. Quando a dor ficava pior, ele pensava


exclusivamente na dor e na vontade de comer. Quando melhorava, era
dominado pelo pânico. Havia momentos em que previa o que aconteceria
com ele com tanta nitidez que seu coração disparava e sua respiração se
interrompia. Sentia a pancada do cassetete nos cotovelos e as botas ferradas
nas canelas. Via-se rastejando, implorando piedade com os dentes
quebrados. Mal pensava em Julia. Não podia fixar a mente nela. Amava-a e
não haveria de traí-la; mas isso era apenas um fato de que tinha ciência,
assim como estava ciente das regras da aritmética. Não a amava nem
chegava a perguntar-se o que estaria acontecendo com ela. Pensava mais em
O’Brien, com uma centelha de esperança. O’Brien talvez soubesse que ele
fora preso. A Confraria, dissera ele, nunca tentava salvar seus membros.
Mas havia a questão da gilete. Se pudessem, lhe enviariam a gilete. Talvez
se passassem cinco segundos antes que o guarda tivesse tempo de entrar
correndo na cela. A gilete morderia sua carne com uma espécie de frieza
ardente, e mesmo os dedos que a seguravam estariam cortados até o osso.
Seu corpo doente, que se esquivava, trêmulo, do menor sofrimento, evocava
tudo aquilo. Não estava seguro de conseguir usar a gilete, mesmo que
surgisse a oportunidade. Era mais natural existir de momento em momento,
aceitando mais dez minutos de vida mesmo com a certeza de que no fim
daquilo haveria tortura.
Às vezes tentava calcular o número de azulejos nas paredes da cela.
Devia ser fácil, mas em algum momento sempre perdia a conta. Mais
frequentemente tentava deduzir onde estava e que horas eram. A certa
altura teve certeza de que lá fora era pleno dia, e no momento seguinte igual
certeza de que reinava a mais completa escuridão. Sabia instintivamente
que naquele lugar as luzes nunca se apagavam. Era o lugar onde não havia
escuridão: agora entendia por que O’Brien parecera reconhecer a alusão. No
Ministério do Amor não havia janelas. Sua cela podia estar no centro do
prédio ou junto à parede externa; podia estar dez andares abaixo do solo ou
trinta acima. Moveu-se mentalmente de um lugar para outro e procurou
concluir a partir da sensação de seu corpo se estava empoleirado no espaço
ou enterrado no fundo do solo.
Ouviu-se um ruído de botas marchando do lado de fora. A porta de aço se
abriu com um estrondo. Um jovem oficial, um indivíduo impecável de
uniforme negro que parecia rebrilhar inteiro em seus couros engraxados e
cujo rosto pálido, de feições retilíneas, parecia uma máscara de cera,


avançou com aprumo porta adentro. Com um gesto indicou que os guardas
do lado de fora fizessem entrar o prisioneiro que conduziam. O poeta
Ampleforth entrou tropeçando na cela. A porta se fechou com um novo
estrondo.
Ampleforth fez um ou dois movimentos incertos de um lado para outro,
como se tivesse a noção de que existia outra porta por onde sair, depois
começou a percorrer a cela de lá para cá. Ainda não se dera conta da
presença de Winston. Seus olhos agitados fitavam a parede mais ou menos
um metro acima da cabeça de Winston. Estava descalço; artelhos grandes e
sujos escapuliam pelos buracos das meias. Também ele não se barbeava
havia vários dias. Uma barba rala cobria seu rosto até os pômulos, dando-
lhe um aspecto de truculência que não combinava com seu amplo físico
vulnerável e seus movimentos nervosos.
Winston sacudiu-se um pouco de sua letargia. Precisava falar com
Ampleforth e correr o risco de ouvir o berro da teletela. Era até possível que
Ampleforth fosse o portador da gilete.
“Ampleforth”, exclamou.
A teletela não se manifestou. Ampleforth estacou, um tanto surpreso.
Pouco a pouco, seus olhos conseguiram focalizar Winston.
“Ah, Smith!”, disse. “Você também!”
“Por que você está aqui?”
“Para dizer a verdade…” Ampleforth sentou-se desajeitadamente no
banco em frente a Winston. “Só existe um delito, não é mesmo?”, disse.
“E você o cometeu?”
“Pelo visto, sim.”
Apoiou a mão na testa e apertou as têmporas por um momento, como se
tentasse recordar-se de alguma coisa.
“Essas coisas acontecem”, começou, incerto. “Consegui recordar-me de
uma ocasião… uma ocasião possível. Foi uma indiscrição, sem dúvida.
Estávamos preparando uma edição definitiva dos poemas de Kipling.
Deixei a palavra ‘Deus’ no final de um verso. Não consegui agir de outro
modo!”, acrescentou, quase indignado, erguendo o rosto para olhar
Winston. “Impossível mudar o verso. O problema era a rima: só existem
doze palavras em toda a língua com aquela rima. Você sabia? Passei vários
dias vasculhando a mente, mas não encontrei a rima.”


Sua expressão mudou. O aborrecimento deixou de estampar-se nela e por
um momento ele pareceu quase contente. Uma espécie de calidez
intelectual, a alegria do pedante que fez um achado inútil brilhou entre a
sujeira e o cabelo ralo.
“Alguma vez lhe ocorreu”, disse, “que a história da poesia inglesa foi
determinada pelo fato de a língua inglesa carecer de rimas?”
Não, aquele pensamento em especial jamais ocorrera a Winston. Aliás,
dadas as circunstâncias, tampouco lhe pareceu muito importante ou
interessante.
“Você sabe que horas são?”, perguntou.
Ampleforth fez de novo um ar surpreso. “Eu nem tinha pensado nisso.
Eles me prenderam… acho que há dois dias… três, talvez.” Seus olhos
percorreram as paredes, como se esperasse encontrar uma janela em algum
lugar. “Não há diferença entre o dia e a noite neste lugar. Não sei como
fazer para calcular o tempo.”
Conversaram caoticamente durante alguns minutos, depois, sem motivo
aparente, um grito da teletela mandou que se calassem. Winston sentou-se
quieto, com os dedos entrelaçados. Ampleforth, grande demais para sentar-
se com algum conforto no banco estreito, mexia-se irrequieto de um lado
para outro, cruzando as mãos ossudas ora em torno de um joelho, ora em
torno do outro. A teletela berrou para ele ficar quieto. Algum tempo se
passou. Vinte minutos, uma hora — difícil saber. Mais uma vez ouviu-se o
som de botas lá fora. As vísceras de Winston se contraíram. Logo, muito em
breve, talvez dentro de cinco minutos, talvez naquele exato instante, um
ruído de botas iria significar que sua hora tinha chegado.
A porta se abriu. O jovem oficial de expressão fria entrou na cela. Com
um breve aceno, apontou para Ampleforth.
“Quarto 101”, disse.
Ampleforth saiu desajeitado escoltado pelos guardas, com o rosto
vagamente perturbado, mas sem entender o que se passava.
Transcorreu um tempo que pareceu bastante longo. A dor de estômago de
Winston voltara. Sua mente dava voltas no mesmo lugar, como uma bola
que cai sempre nos mesmos buracos. Ele pensava apenas em seis coisas. Na
dor de estômago, num pedaço de pão, no sangue e nos gritos, em O’Brien,
em Julia, na gilete. Sentiu um novo espasmo no ventre; as botas ferradas se
aproximavam. Quando a porta se abriu, a onda de ar que ela gerou fez


entrar um cheiro forte de suor frio. Parsons entrou na cela. Vestia uma
bermuda cáqui e uma camisa esporte.
Daquela vez, Winston se assustou a ponto de esquecer-se da própria
situação.
Você aqui!”, falou.
Parsons dirigiu a Winston um olhar em que não havia interesse nem
surpresa, só infelicidade. Começou a andar aos arrancos de lá para cá,
aparentemente incapaz de parar quieto. Toda vez que estendia os joelhos
rechonchudos, dava para perceber que eles tremiam. Seus olhos
esbugalhados, fixos, mostravam que não conseguia deixar de fitar alguma
coisa a média distância.
“Por que você está aqui?”, perguntou Winston.
“Pensamento-crime!”, disse Parsons, quase soluçando. O tom de sua voz
indicava também a completa admissão de sua culpa e uma espécie de horror
incrédulo com o fato de que a expressão pudesse lhe ser aplicada. Parou na
frente de Winston e começou a dirigir-lhe apelos ansiosos: “Você não acha
que eles vão me fuzilar, meu velho, não é mesmo? Não fuzilam você se na
verdade você não fez nada — se só teve pensamentos, que não tem como
controlar? Sei que eles são justos. Ah, tenho certeza de que são justos!
Conhecem minha ficha, não conhecem? Você sabe que tipo de sujeito eu
era. Um bom sujeito, à minha moda. Não muito inteligente, claro, mas
esperto. Tentei fazer o melhor que podia pelo Partido, não foi? Saio dessa
em cinco anos, não acha? Ou quem sabe dez? Um cara como eu pode ser
muito útil num campo de trabalhos forçados. Será que vão me matar por eu
ter saído da linha uma única vez?”
“Você é culpado?”, perguntou Winston.
“Claro que eu sou culpado!”, exclamou Parsons com um olhar servil para
a teletela. “Você acha que o Partido iria prender um inocente?” A cara de
sapo ficou mais calma e até adquiriu uma expressão de santimônia.
“Pensamento-crime é uma coisa horrível, velho”, disse sentencioso. “É um
inferno, pode dominar você sem você se dar conta. Sabe como ele me
dominou? Enquanto eu dormia! Verdade. Eu estava lá trabalhando, tentando
fazer a minha parte — nunca imaginei que tivesse alguma coisa negativa na
minha mente. E aí comecei a falar dormindo. Você sabe o que eles me
ouviram dizer?”


Ele baixou o tom de voz como alguém obrigado por ordens médicas a
pronunciar uma obscenidade.
“‘Abaixo o Grande Irmão!’ Sim, eu disse isso! Disse e repeti, parece. Cá
entre nós, meu velho, ainda bem que eles me pegaram antes que a coisa
ficasse mais grave. Sabe o que eu vou dizer a eles quando comparecer
perante o tribunal? ‘Obrigado’, vou dizer, ‘obrigado por me salvarem antes
que fosse tarde demais.’”
“Quem foi que denunciou você?”, indagou Winston.
“Foi minha filhinha”, disse Parsons com uma espécie de orgulho
pesaroso. “Ela ouviu pelo buraco da fechadura. Ouviu o que eu estava
dizendo e no dia seguinte falou para a patrulha. Muito esperta, para uma
moleca de sete anos, hein? Não guardo nenhum ressentimento por ela ter
feito isso. Na verdade estou orgulhoso dela. Se vê que recebeu uma boa
educação em casa!”
Fez mais alguns movimentos espasmódicos para cima e para baixo,
diversas vezes, lançando um olhar ansioso para o vaso sanitário. De
repente, arriou a bermuda.
“Desculpe, velho!”, disse. “Não aguento. É esse negócio de ficar
esperando.”
Encaixou o grande traseiro na privada. Winston cobriu o rosto com as
mãos.
“Smith!”, berrou a voz da teletela. “6079 Smith W.! Tire as mãos do
rosto. Não é permitido esconder o rosto nas celas.”
Winston descobriu o rosto. Parsons usou a privada ruidosa e
abundantemente. Em seguida verificou-se que a válvula estava com defeito,
e um fedor abominável tomou conta da cela por muitas horas.
Parsons foi retirado. Mais presos chegaram e partiram, misteriosamente.
Um deles, uma mulher, deveria ir para o “Quarto 101”; Winston viu-a
encolher o corpo e mudar de cor ao ouvir essas palavras. Chegou um
momento em que, se ele tivesse sido levado para ali de manhã, seria de
tarde; ou, se tivesse sido levado à tarde, seria meia-noite. Havia seis presos
na cela, homens e mulheres, todos sentados muito quietos. Na frente de
Winston estava um homem sem queixo e dentuço que parecia um grande
roedor inofensivo. Suas bochechas gordas, manchadas, tinham bolsas tão
pronunciadas na parte de baixo que era difícil acreditar que não guardasse
pequenos estoques de comida ali dentro. Seus olhos cinza-claros iam


receosos de um rosto a outro, e se desviavam depressa quando encontravam
os olhos de alguém.
A porta se abriu e outro prisioneiro foi introduzido; seu aparecimento
provocou um arrepio passageiro em Winston. Era um homem comum, de
aparência corriqueira, talvez um engenheiro ou um técnico de algum tipo.
Mas o que causava espanto era a magreza de seu rosto. Tinha o aspecto de
uma caveira. Devido à magreza, sua boca e seus olhos pareciam
desproporcionalmente grandes, e os olhos davam a impressão de estar
repletos de um ódio assassino, implacável, de alguém ou de alguma coisa.
O homem sentou-se no banco, não longe de Winston. Winston não tornou
a olhar para ele, mas o rosto atormentado, escaveirado, permaneceu tão
nítido em sua cabeça quanto se estivesse diante de seus olhos. De repente
compreendeu qual era o problema. O homem estava morrendo de inanição.
Parecia que o mesmo pensamento ocorrera quase simultaneamente a todos
na cela. Houve uma levíssima agitação ao longo do banco. Os olhos do
homem sem queixo voltavam-se com frequência para o da cara de caveira,
afastando-se em seguida, culpados, para em seguida serem arrastados de
volta por uma atração irresistível. Num certo momento, ele começou a se
remexer no assento. Por fim se levantou, atravessou a cela titubeante,
enfiou a mão no bolso do macacão e, com ar constrangido, estendeu um
pedaço de pão sujo ao da cara de caveira.
Um rugido furioso, ensurdecedor, saiu da teletela. O homem sem queixo
recuou num salto. O da cara de caveira escondera depressa as mãos atrás
das costas, como se quisesse demonstrar a todos que recusava o presente.
“Bumstead!”, rugiu a voz. “2713 Bumstead J.! Largue esse pedaço de
pão!”
O homem sem queixo deixou cair o pedaço de pão.
“Fique de pé onde está”, disse a voz. “Virado para a porta. Não se mexa.”
O homem sem queixo obedeceu. Suas grandes bochechas pendentes
tremiam incontrolavelmente. A porta se abriu com um som metálico.
Quando o jovem oficial entrou e deu um passo para o lado, apareceu atrás
dele um guarda baixo e atarracado com braços e ombros enormes. Este
homem posicionou-se na frente do sujeito sem queixo e então, a um sinal
do oficial, acertou um tremendo soco, impulsionado por todo o peso de seu
corpo, em cheio na boca do homem sem queixo. A força daquele soco deu a
impressão de levantar o prisioneiro do chão. Seu corpo foi arremessado


para o outro lado da cela, indo cair junto à base do vaso sanitário. Por um
momento ficou ali caído, atordoado, com sangue escuro escorrendo da boca
e do nariz. Ouviu-se um gemido ou um guincho muito débil, que parecia
inconsciente. Em seguida ele rolou e ficou de quatro, apoiando-se, inseguro,
nas mãos e nos joelhos. Em meio a uma torrente de sangue e saliva, as duas
metades de uma dentadura caíram-lhe da boca.
Os prisioneiros estavam sentados muito quietos, com as mãos cruzadas
sobre os joelhos. O homem sem queixo retomou seu lugar. Em um dos
lados de seu rosto, na parte de baixo, a carne começava a escurecer. A boca
inchada era uma massa informe cor de cereja com um buraco negro no
meio. De vez em quando pingava um pouco de sangue no peito do
macacão. Os olhos cinzentos ainda iam de rosto para rosto, mais culpados
do que nunca, como se o homem estivesse tentando descobrir a que ponto
os demais o desprezavam por causa de sua humilhação.
A porta se abriu. Com um gesto imperceptível o oficial indicou o cara de
caveira.
“Quarto 101”, disse.
Houve um arquejo e uma agitação ao lado de Winston. O homem se
jogara de joelhos no chão, de mãos postas.
“Camarada! Oficial!”, implorou. “Não precisa me levar para aquele
lugar! Eu já lhe disse tudo, não disse? O que mais o senhor quer saber?
Confesso tudo o que o senhor quiser, tudo! É só me dizer o que é, que
confesso na hora. Escreva, que eu assino. Qualquer coisa! Mas o quarto 101
não!”
“Quarto 101”, disse o oficial.
O rosto do homem, já muito pálido, ficou de uma cor que Winston não
teria 
acreditado 
que 
fosse 
possível. 
Era 
definitivamente,
inquestionavelmente, um tom de verde.
“Faça o que quiser comigo!”, gritou. “O senhor está me matando de fome
há várias semanas. Acabe com o assunto de uma vez e me deixe morrer. Me
dê um tiro. Me enforque. Condene-me a vinte e cinco anos de prisão. Tem
mais alguém que o senhor quer que eu denuncie? É só dizer quem é, que eu
falo tudo o que o senhor quer saber. Não me interessa quem é a pessoa nem
o que o senhor vai fazer com ela. Tenho mulher e três filhos. O mais velho
ainda não completou seis anos. Pode pegar eles todos e cortar a garganta


deles na minha frente que eu aguento e fico olhando. Mas não me leve para
o quarto 101!”
“Quarto 101”, disse o oficial.
O homem olhou freneticamente em torno para os outros prisioneiros,
como se achasse que podia pôr outra vítima em seu lugar. Seus olhos se
fixaram no rosto amassado do homem sem queixo. Estendeu um braço
descarnado.
“É aquele ali que o senhor devia levar, não eu!”, gritou. “O senhor não
ouviu o que ele ficou dizendo depois que afundaram a cara dele. Me dê uma
oportunidade que eu lhe conto tudo. Ele é que é contra o Partido, não eu.”
Os guardas avançaram. A voz do homem virou um guincho. “O senhor não
ouviu o que ele disse!”, repetia. “A teletela teve algum problema. É ele que
vocês querem. Levem aquele homem, não eu!”
Os dois guardas robustos se inclinaram para puxá-lo pelos braços, só que
naquele exato instante ele se jogou no chão e agarrou-se a uma das pernas
de ferro que sustentavam o banco. Começara a uivar sem dizer nada,
parecia um animal. Os guardas o seguraram para obrigá-lo a soltar a perna
do banco, mas ele se prendeu com uma força surpreendente. Os guardas
passaram uns vinte segundos puxando-o. Os prisioneiros continuavam
sentados em silêncio, mãos cruzadas sobre os joelhos, olhando para a
frente. Os uivos se interromperam, o homem não tinha forças para mais
nada senão para se agarrar. Nisso ouviu-se um outro tipo de grito. Um dos
guardas lhe acertara um pontapé com a botina e lhe quebrara os dedos da
mão. Puseram-no de pé.
“Quarto 101”, disse o oficial.
O homem foi levado para fora, trôpego, cabeça afundada nos ombros,
protegendo a mão esmagada, esgotado, sem forças para resistir.
Muito tempo se passou. Se o cara de caveira tivesse sido levado à meia-
noite, então agora era de manhã. Se tivesse sido levado de manhã, agora era
de tarde. Winston estava sozinho — fazia horas que estava sozinho. A dor
de ficar sentado no banco estreito era tal que ele se levantava com
frequência e andava, sem que a teletela o repreendesse. O pedaço de pão
continuava onde o homem sem queixo o deixara cair. No começo era
preciso um grande esforço para não olhar, mas logo a fome deu lugar à
sede. Sua boca estava pegajosa e com um gosto ruim. O zumbido constante
e a luz branca inalterável produziam uma espécie de tontura, um sentimento


de vazio em sua cabeça. Ele se levantava quando a dor nos ossos ficava
insuportável, depois voltava a sentar-se quase no mesmo instante, porque
estava muito atordoado para ter certeza de que ia conseguir ficar de pé.
Sempre que suas sensações físicas ficavam mais controladas, o terror
voltava. Às vezes pensava em O’Brien e na gilete, mas quase já não lhe
restava nenhuma esperança. Era possível que a gilete chegasse escondida na
comida, se algum dia lhe dessem comida. Mais vagamente, pensava em
Julia. Em algum lugar ela estaria sofrendo, talvez muito mais do que ele.
Talvez naquele exato instante estivesse gritando de dor. Pensou: “Se eu
pudesse salvar Julia sofrendo o dobro do que estou sofrendo agora, será que
a salvaria? Sim, com certeza”. Mas aquela era uma mera decisão
intelectual, tomada porque sabia que devia tomá-la. Não era, porém, o que
sentia. Naquele lugar era impossível sentir alguma coisa, só dor e
antecipação da dor. Além disso, seria possível que, no momento mesmo em
que se sofre, por alguma razão se pudesse desejar que a dor aumentasse?
Ainda não era possível responder a essa questão.
Mais uma vez, botas se aproximavam. A porta se abriu. Entrou O’Brien.
Winston ergueu-se, sobressaltado. O impacto do que via eliminara dele
toda prudência. Pela primeira vez em muitos anos, esqueceu a presença da
teletela.
“Pegaram você também!”, exclamou.
“Me pegaram há muito tempo”, disse O’Brien com uma ironia suave,
quase pesarosa. Deu um passo para o lado. De trás dele surgiu um guarda de
peito largo segurando um longo porrete negro.
“Você sabia disso, Winston”, disse O’Brien. “Não se iluda. Você sabia —
sempre soube.”
Era verdade, agora percebia, sempre soubera. Mas não havia tempo para
pensar naquilo. Só tinha olhos para o porrete na mão do guarda. Podia
atingi-lo em qualquer lugar, no alto da cabeça, na ponta da orelha, no
antebraço, no cotovelo…
O cotovelo! Escorregou até ficar de joelhos, quase paralisado, segurando
o cotovelo atingido com a outra mão. Tudo explodira numa luz amarela.
Inconcebível, inconcebível mesmo, que um golpe pudesse causar tanta dor!
A luz ficou mais clara e ele pôde ver os dois olhando para ele. O guarda ria
de suas contorções. Pelo menos uma das perguntas estava respondida.
Nunca, por nenhuma razão neste mundo, seria possível desejar um


acréscimo de dor. Quanto à dor, só era possível desejar uma coisa: que ela
cessasse. Nada no mundo era tão ruim quanto a dor física. Diante da dor
não há heróis, não há heróis, pensava uma e outra vez, contorcendo-se no
chão e segurando inutilmente o braço inutilizado.



2.
Winston estava deitado sobre alguma coisa que lembrava uma cama de
campanha, com a diferença de que era mais alta e o prendia de forma a
impedir todo e qualquer movimento. Sobre seu rosto incidia uma luz
aparentemente mais forte que o normal. O’Brien estava a seu lado e o
observava com atenção. Do outro lado, um homem de jaleco branco
segurava uma seringa hipodérmica.
Mesmo depois de abrir por completo os olhos, só gradualmente começou
a tomar conhecimento das características do lugar. Tinha a impressão de
que chegara ali nadando, num movimento ascendente, cujo ponto de partida
fora um mundo muito diverso, uma espécie de mundo subaquático, situado
muito abaixo dali. Não fazia ideia de quanto tempo permanecera lá. Desde
o momento em que fora preso, não voltara a ver o escuro da noite nem a luz
do dia. Além disso, as lembranças que lhe restavam não eram contínuas.
Houvera momentos em que a consciência — mesmo o tipo de consciência
que se tem durante o sono — ficara completamente ausente, para só voltar
depois de um período de obliteração. Mas se aqueles intervalos tinham sido
feitos de dias, semanas ou apenas segundos, isso não havia como saber.
Com aquela primeira pancada no cotovelo tivera início o pesadelo. Mais
tarde, Winston viria a se dar conta de que aquilo não passara de um
interrogatório preliminar, rotineiro, a que quase todos os presos eram
submetidos. Havia uma ampla variedade de crimes — espionagem,
sabotagem e que tais — que todos eram obrigados a confessar. A confissão
era uma formalidade, embora a tortura fosse real. Quantas vezes apanhara, e
por quanto tempo, não recordava. Havia sempre cinco ou seis homens de
uniforme preto batendo nele ao mesmo tempo. Às vezes eram punhos, às
vezes cassetetes, às vezes varas de aço, às vezes botas. Havia ocasiões em
que ele rolava indignamente pelo chão, como um animal, revirando o corpo


para um lado e para o outro, num esforço incessante e desesperado de se
esquivar dos chutes, mas só conseguindo incitar mais e mais chutes nas
costelas, na barriga, nos cotovelos, nas canelas, na virilha, nos testículos, na
base da coluna. Havia ocasiões em que a coisa se prolongava tanto, tanto,
que o que lhe parecia realmente cruel, perverso e indesculpável não era os
guardas continuarem batendo nele, mas que não conseguisse se obrigar a
perder a consciência. Havia ocasiões em que a coragem o abandonava de tal
forma que ele se punha a pedir clemência antes mesmo que a pancadaria
começasse, ocasiões em que a simples visão de um punho se preparando
para desferir o murro era o que bastava para fazê-lo confessar uma profusão
de crimes reais e imaginários. Havia também ocasiões em que começava
decidido a não confessar coisa nenhuma, quando cada palavra tinha de ser
extraída dele, entre um e outro gemido de dor, e havia ocasiões em que
buscava debilmente uma solução conciliatória, quando dizia a si mesmo:
“Vou confessar, mas daqui a pouco. Preciso aguentar até a dor ficar
insuportável. Mais três chutes, mais dois chutes, depois conto o que eles
querem”. Às vezes batiam tanto nele que Winston mal conseguia ficar em
pé, depois o atiravam feito um saco de batatas no chão de pedras de uma
cela e o deixavam ali por algumas horas, até que se recuperasse e ficasse
pronto para novos maus-tratos. Também havia períodos mais longos de
recuperação. Lembrava-se vagamente deles, pois passava-os dormindo ou
em estado letárgico. Lembrava-se de uma cela com uma cama de tábuas,
uma espécie de prateleira presa à parede, uma pia de latão e refeições
compostas de sopa quente, pão e às vezes café. Lembrava-se de um
barbeiro carrancudo que vinha fazer sua barba e cortar seu cabelo, e
também de homens de jaleco branco, sempre muito sérios e antipáticos, que
tomavam seu pulso, examinavam seus reflexos, levantavam suas pálpebras,
tateavam-no com dedos brutos à procura de ossos quebrados e espetavam
agulhas em seu braço para fazê-lo dormir.
As surras tornaram-se menos frequentes e passaram a ser principalmente
uma ameaça, um horror ao qual a qualquer momento poderia voltar a ser
submetido caso suas respostas fossem insatisfatórias. Seus interrogadores já
não eram bandidos de uniforme preto, mas intelectuais do Partido,
homenzinhos rechonchudos, com movimentos ágeis e óculos brilhantes,
que se alternavam para questioná-lo em sessões que duravam — assim lhe
parecia, não tinha como saber ao certo — de dez a doze horas ininterruptas.


Esses outros interrogadores cuidavam de submetê-lo a um desconforto
físico constante, contudo a dor não era seu principal recurso. Esbofeteavam-
no, puxavam-lhe as orelhas e os cabelos, obrigavam-no a ficar em pé numa
perna só, impediam-no de urinar, iluminavam seu rosto com luzes fortes até
seus olhos começarem a lacrimejar; porém o propósito daquilo tudo era
apenas humilhá-lo e minar sua capacidade de argumentação e raciocínio. A
verdadeira arma deles era o interrogatório inclemente, questionamentos que
se estendiam por horas a fio, sem interrupção, durante os quais o induziam a
uma série de erros, pregavam-lhe peças, distorciam tudo o que ele dizia,
incriminando-o a cada passo com mentiras e contradições até que ele
começava a chorar não só de vergonha como também de exaustão nervosa.
Às vezes Winston caía no choro meia dúzia de vezes numa única sessão. Na
maior parte do tempo, enchiam-no de impropérios e, a cada momento de
hesitação, ameaçavam entregá-lo de novo aos guardas; às vezes, porém,
mudavam de repente de tom e passavam a chamá-lo de camarada, dirigiam-
lhe apelos em nome do Socing e do Grande Irmão e perguntavam com pesar
se depois de tudo o que havia passado não lhe restaria uma dose mínima de
lealdade ao Partido que o fizesse desejar desfazer o mal que havia causado.
Com os nervos em frangalhos depois de horas e mais horas de
interrogatório, até esse apelo era capaz de reduzi-lo a lágrimas lamurientas.
Aquelas vozes enervantes acabaram por subjugá-lo mais completamente
que as botas e os punhos dos guardas. Winston tornou-se apenas uma boca
que revelava, uma mão que assinava tudo o que exigissem que assinasse.
Sua única preocupação era descobrir o que queriam que confessasse e em
seguida confessar depressa, antes que a intimidação recomeçasse.
Confessou ter assassinado membros eminentes do Partido, distribuído
panfletos sediciosos, desviado recursos públicos, vendido segredos
militares, cometido todo tipo de sabotagem. Confessou ser, desde 1968, um
espião a soldo do governo lestasiano. Confessou ser crente religioso,
admirador do capitalismo e pervertido sexual. Confessou ter matado sua
mulher, embora soubesse, como deviam saber seus inquiridores, que ela
estava viva. Confessou ter mantido contato pessoal com Goldstein durante
anos a fio, além de ter sido membro de uma organização secreta da qual
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