1984 Edição especial


parte, no mundo inteiro, centenas de milhares de milhões de pessoas



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1984 - Edicao especial - George Orwell
07 - Cronograma de Julho 2022

parte, no mundo inteiro, centenas de milhares de milhões de pessoas
exatamente como aquela mulher, pessoas que ignoravam a existência umas
das outras, isoladas por muros de ódio e mentiras, e todavia praticamente
iguais — pessoas que não tinham aprendido a pensar, mas que acumulavam
em seus corações, ventres e músculos a força que um dia subverteria o
mundo. Se é que há esperança, a esperança está nos proletas! Sem ter lido o
livro até o fim, Winston sabia que aquela devia ser a mensagem definitiva
de Goldstein. O futuro pertencia aos proletas. E porventura ele podia ter
certeza de que, quando chegasse a hora deles, o mundo erigido pelos
proletas não seria para ele, Winston Smith, tão hostil quanto o mundo do
Partido? Sim, porque seria no mínimo um mundo mentalmente são. Onde
há igualdade pode haver sanidade mental. Mais cedo ou mais tarde
aconteceria: a força se transformaria em consciência. Os proletas eram
imortais; não havia como duvidar disso diante daquela figura destemida no
quintal. Algum dia eles despertariam. E enquanto não despertassem, mesmo
que o processo levasse mil anos, sobreviveriam a todas as adversidades,
como passarinhos, transmitindo de um corpo para o outro a vitalidade que o
Partido não compartilhava e que não conseguia aniquilar.
“Você se lembra”, disse ele, “do sabiá que cantou para nós naquele
primeiro dia, na orla do bosque?”
“Ele não estava cantando para nós”, disse Julia. “Estava cantando pelo
prazer de cantar. Não, nem isso. Estava só cantando.”
Os passarinhos cantavam, os proletas cantavam, o Partido não cantava.
No mundo inteiro, em Londres e em Nova York, na África e no Brasil e nas
regiões misteriosas e proibidas que ficavam além das fronteiras, nas ruas de
Paris e Berlim, nos vilarejos da interminável estepe russa, nos bazares da
China e do Japão — em toda parte via-se a mesma figura sólida e
indomável, tornada descomunal pelo trabalho e pela maternidade,
esfalfando-se do nascimento à morte e ainda assim cantando. Daqueles
ventres possantes haveria de sair um dia uma raça de seres conscientes.
Winston e Julia eram os mortos; o futuro pertencia aos proletas. Mas
poderiam compartilhar desse futuro se mantivessem viva a mente como


mantinham vivo o corpo, e desde que passassem adiante a doutrina secreta
de que dois e dois são quatro.
“Nós somos os mortos”, disse ele.
“Nós somos os mortos”, repetiu obedientemente Julia.
“Vocês são os mortos”, disse atrás deles uma voz truculenta.
Saltaram um para cada lado. As entranhas de Winston pareciam ter
virado gelo. Ele via o branco se espalhando em volta da íris dos olhos de
Julia. O rosto da moça assumira um tom amarelo leitoso. As manchas de
ruge, ainda visíveis em sua face, sobressaíam vivamente: davam a
impressão de destacar-se da pele sobre a qual haviam sido aplicadas.
“Vocês são os mortos”, repetiu a voz truculenta.
“Estava atrás do quadro”, sussurrou Julia.
“Estava atrás do quadro”, disse a voz. “Fiquem exatamente onde estão.
Não façam nenhum movimento.”
Estava enfim começando, estava começando! Não podiam fazer nada
além de olhar para os olhos um do outro. Fugir, dar o fora dali antes que
fosse tarde demais — não lhes ocorria nenhum pensamento dessa natureza.
Era impensável desobedecer à voz truculenta que saía da parede. Ouviram
um estalido, como se uma lingueta tivesse sido destravada, e em seguida
um estrépito de vidro se quebrando. O quadro caíra no chão, revelando a
teletela atrás dele.
“Agora eles podem nos ver”, disse Julia.
“Agora podemos vê-los”, disse a voz. “Vão para o meio do quarto.
Fiquem de costas um para o outro. Ponham as mãos atrás da cabeça. Não se
toquem.”
Não estavam se tocando, porém Winston tinha a impressão de que sentia
o tremor do corpo de Julia. Ou talvez fosse apenas o tremor que se apossara
de seu próprio corpo. Com dificuldade, conseguia evitar que seus dentes
batessem, mas seus joelhos estavam descontrolados. Ouviram um tropel de
botas no andar de baixo, dentro e fora da casa. O quintal parecia cheio de
homens. Alguma coisa estava sendo arrastada pelas lajes. A mulher
interrompera abruptamente sua cantoria. Seguiu-se um estrondo metálico,
como se a tina tivesse sido arremessada para o outro lado do quintal, e em
seguida ouviu-se uma confusão de berros coléricos, que cessaram com um
grito de dor.
“A casa está cercada”, disse Winston.


“A casa está cercada”, disse a voz.
Winston ouviu Julia trincando os dentes. “Acho que devemos nos
despedir”, disse ela.
“Devem se despedir”, disse a voz. E em seguida outra voz, muito
diferente, uma vozinha educada, que Winston tinha a impressão de já ter
ouvido antes, interveio: “E por falar nisso: Vão para a cama e sejam bons

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